(POV Aurora)
O silêncio depois da guerra… nunca é silêncio de verdade.
Mesmo quando os tiros cessam, alguma coisa continua ecoando — nos muros, no ar… e principalmente dentro da gente.
Eu ainda estava no quarto, sentada na beira da cama, tentando controlar a respiração, quando um som diferente cortou o ambiente.
Não era tiro.
Não era grito de ataque.
Era… dor.
Um gemido baixo, arrastado, vindo de fora.
Meu corpo reagiu na hora.
Levantei sem pensar, o coração acelerando de novo. Por um segundo, hesitei diante da porta.
“Fica aqui.”
A voz do Dante veio clara na minha cabeça.
Mas, dessa vez…eu não consegui obedecer.
Girei a maçaneta e saí.
O corredor parecia mais escuro agora, mais pesado. O cheiro de pólvora ainda estava ali, mas misturado com algo metálico, forte.
Sangue.
E então eu ouvi mais vozes.
— Segura ele!
— Tá sangrando muito!
— Alguém faz alguma coisa!
Aquilo foi o suficiente.
Quando cheguei na sala, a cena me paralisou por um segundo.
Dois homens feridos.
Um encostado na parede, completamente pálido, a camisa encharcada de sangue na altura do peito.
Outro no chão, segurando a perna, tentando conter o sangramento com as próprias mãos.
E os outros ao redor…
perdidos.
Desesperados.
Sem saber o que fazer.
Engoli seco.
O medo tentou subir.
Mas eu não deixei.
— Sai da frente — falei, firme.
Eles olharam pra mim, confusos.
— Agora.
Dessa vez, não teve dúvida.
Eles abriram espaço.
Eu me ajoelhei ao lado do primeiro, levando a mão direto ao ferimento.
Quente.
Sangue demais.
— Merda… — sussurrei.
— Ele vai morrer? — alguém perguntou atrás de mim.
— Se você não me ajudar, vai — respondi sem nem olhar.
Estendi a mão.
— Pano limpo. Rápido!
Um deles saiu correndo.
Outro ficou parado, tremendo.
— Você — apontei — vem cá. Vai pressionar aqui.
Guiei a mão dele até o ferimento assim que o pano chegou.
— Com força.
Ele pressionou.
O homem ferido gritou.
— Eu sei… — murmurei — mas precisa.
Minha mente já estava no automático.
Analisando.
Decidindo.
Agindo.
Olhei pro segundo.
Perna.
Muito sangue também.
Levantei rápido e fui até ele.
— Onde pegou?
— Perna… — ele respondeu, com dificuldade.
Rasguei o tecido sem pensar.
Ferimento aberto.
Sangramento ativo.
Respirei fundo.
— Eu preciso de alguma coisa pra amarrar!
— Cinto! — alguém disse, tirando o dele.
Peguei e posicionei acima do ferimento.
— Isso vai doer.
— Já tá doendo… — ele soltou, entre dentes.
Apertei.
Ele gritou alto.
Mas o sangue começou a diminuir.
— Isso… segura…
Minhas mãos já estavam sujas, escorregadias.
Mas firmes.
Sempre firmes.
— Respira comigo — falei — devagar.
Ele tentou acompanhar.
Nem sempre conseguia
Mas tentava.
E isso já ajudava.
— Aurora…
A voz veio atrás de mim.
Eu virei.
Dante.
Parado na entrada.
O olhar passando por tudo em segundos.
E quando encontrou o meu…parou.
— Eles precisam de hospital — falei direto — o do peito principalmente.
Ele assentiu.
Sem questionar.
— KM! Prepara o carro! — a voz dele cortou o ambiente.
— Já tô indo!
— Cabeça, ajuda aqui!
Tudo começou a se mover.
Rápido.
Organizado.
Como se o caos tivesse encontrado direção de novo.
Eu voltei pro homem ferido no peito.
A respiração dele estava mais fraca.
— Ei… fica comigo — falei, firme — não dorme.
— A gente precisa ir agora — chamei o Dante.
Ele já estava ao meu lado.
— Vamos.
Os homens levantaram o ferido com cuidado.
Eu fui junto.
Sem pedir.
Sem pensar.
Porque, naquele momento…não dava mais pra ficar parada.
E, pela primeira vez desde que tudo começou…eu não estava só com medo.
Eu estava fazendo algo.
Mesmo naquele mundo.
Mesmo no meio da guerra.
E isso…mudava tudo.