(POV Dante)
Hospital sempre teve um tipo de barulho próprio.
Não era grito.
Não era tiro.
Mas ainda assim incomodava.
Gente passando rápido demais, rodas de maca riscando o chão, vozes baixas que tentavam manter controle… e aquele cheiro de antisséptico que não deixava esquecer onde a gente estava.
Eu fiquei encostado na parede do corredor, braços cruzados, observando.
Não por curiosidade.
Por controle.
Dois homens meus tinham sido levados direto pro atendimento assim que chegamos. Um deles praticamente carregado. O outro ainda consciente, mas por pouco.
Aurora foi junto.
Nem pediu.
Nem olhou pra mim pra confirmar.
Só foi.
E ninguém impediu.
Nem eu.
Passei a língua pelo canto da boca, olhando o movimento ao redor.
Lugar cheio.
Gente demais.
Entrada e saída o tempo todo.
Isso não era bom.
— Já mandei dois lá fora — a voz do KM veio ao meu lado.
Assenti sem olhar.
— Fica de olho em quem entra.
— Já tô de olho.
Silêncio curto.
— E ela?
Olhei de lado.
— O que tem?
KM deu de ombros.
— Nada… só não imaginei você trazendo alguém assim pro meio disso.
— Nem eu.
Resposta simples.
Sem espaço pra conversa.
Ele entendeu.
Se afastou.
Fiquei sozinho de novo.
Ou pelo menos… aparentemente.
Porque minha atenção não saía da porta dupla no fim do corredor.
Por onde ela tinha passado.
O tempo ali dentro demorava diferente.
Mais lento.
Mais arrastado.
E isso irritava.
Passei a mão na nuca, soltando o ar devagar.
Não gostava de não estar no controle.
E hospital…tirava isso de qualquer um.
A porta abriu.
Um médico saiu, falando rápido com uma enfermeira.
Ignorei.
Mais gente passando.
Mais barulho.
Até que, alguns minutos depois…
ela apareceu.
Aurora.
Cabelos presos de qualquer jeito, já estava com outra roupa.
Rosto sério.
As mãos ainda com marcas de sangue, mesmo depois de tentar limpar.
Ela caminhava rápido, mas não desesperada.
Focada.
Como se aquele ambiente fosse familiar pra ela.
E, de certa forma…era.
Ela parou na minha frente.
Sem rodeio.
— O da perfuração no tórax tá sendo atendido. Mas ele perdeu muito sangue.
Assenti.
— E o outro?
— Estável por enquanto. Mas também vai precisar de mais cuidado.
Silêncio.
Direto.
Prático.
Do jeito que eu prefiro.
— Você fez o que dava — falei.
Ela me encarou.
— Ainda não acabou.
Claro que não.
Nada ali acabava fácil.
Um barulho mais alto veio da recepção.
Discussão.
Olhares se viraram.
Meu corpo reagiu antes da mente.
Atenção total.
KM já se posicionou mais perto da entrada.
Cabeça apareceu do outro lado do corredor, discreto.
— Relaxa — ele murmurou, passando por mim — só gente alterada.
Não relaxei.
Só registrei.
Voltei o olhar pra Aurora.
Ela também tinha percebido.
Mas não recuou.
— Você trouxe muita gente pra cá — ela disse, mais baixo.
— O suficiente.
— Isso chama atenção.
— Eu sei.
Ela cruzou os braços.
— E se ele vier até aqui?
Segurei o olhar dela.
Firme.
— Ele não é burro.
— Nem você — ela respondeu — e mesmo assim trouxe todo mundo.
Aquilo quase arrancou um sorriso.
Quase.
— Eu trouxe quem precisava. — Pausa. — E você.
Ela desviou o olhar por um segundo.
Pequeno.
Mas eu vi.
— Eu vim porque precisava — ela corrigiu.
— Foi o que eu disse.
O silêncio entre a gente não era confortável.
Mas também não era r**m.
Era… carregado.
Como tudo desde que ela entrou nisso.
Um enfermeiro passou correndo, chamando alguém.
Aurora olhou de relance, o corpo reagindo automático.
Pronto pra agir.
Mesmo sem ser chamada.
Voltou pra mim.
— Eu posso ajudar lá dentro.
— Já tem gente.
— Nem todo mundo sabe o que tá fazendo.
— E você sabe?
Ela sustentou meu olhar.
— Sei.
Não era arrogância.
Era fato.
E isso fez diferença.
Inclinei levemente a cabeça.
— Então ajuda.
Ela hesitou.
— E você?
— Eu tô fazendo o que preciso aqui.
Ela analisou.
Pesou.
Depois assentiu.
— Tá.
Mas não saiu na hora.
Ficou ali por mais um segundo.
— Dante…
— Fala.
Ela respirou fundo.
— Se alguém aparecer…
— Eu resolvo.
Resposta imediata.
Sem espaço pra dúvida.
Ela me estudou por um instante.
Como se estivesse tentando entender até onde aquilo era verdade.
Ou até onde eu ia por aquilo.
— Você não precisa resolver tudo sozinho.
Aquilo…eu ignorei.
— Vai lá.
Cortei.
Não rude.
Mas afinal.
Ela entendeu.
Virou e voltou pelo mesmo caminho.
Sem insistir.
Sem discutir.
Observei ela sumir pela porta de novo.
E fiquei ali.
Encostado.
Parado.
Mas longe de estar tranquilo.
Coringa apareceu alguns minutos depois, andando como se estivesse em qualquer outro lugar que não um hospital.
— Cara… — ele olhou ao redor — nunca achei que ia te ver nesse cenário.
— Então para de olhar.
Ele riu baixo.
— Relaxa. Tá tudo sob controle lá fora.
— Continua assim.
Ele me encarou de lado.
— Ela tá lá dentro?
— Tá.
— E você deixou?
Olhei pra ele, ele sabia ser inconveniente.
— Você tá com muito tempo livre hoje.
Ele levantou as mãos, sorrindo.
— Só curiosidade.
Aproximei um passo.
— Mata ela então.
O sorriso dele diminuiu um pouco.
— Entendi.
Silêncio.
Mais sério agora.
— Os caras vão ficar? — ele perguntou.
— Até estabilizar.
— E depois?
Olhei de novo pra porta.
— Depois a gente resolve.
Sempre assim.
Um problema de cada vez.
Uma decisão de cada vez.
Sem antecipar demais.
Sem perder o controle.
Coringa assentiu e se afastou.
E eu voltei pro mesmo lugar.
Mesma parede.
Mesma posição.
Mas não era mais a mesma situação.
Porque agora…não era só sobre guerra.
Nem só sobre território.
Tinha uma variável nova.
Imprevisível.
E, ainda assim…eu não ia deixar isso sair do controle.
Nem lá fora.
Nem aqui dentro.
Muito menos dentro da minha própria cabeça.
Porque uma coisa eu sabia.
Independente do que viesse depois…quem estivesse comigo naquele momento…ia sair dali vivo.
Custe o que custar.