Voltando para casa

915 Palavras
(POV Aurora) O hospital de manhã parecia outro lugar. A mesma estrutura, os mesmos corredores, o mesmo cheiro insistente… mas sem o peso esmagador da madrugada. Ainda havia pressa, ainda havia dor — mas era uma dor mais organizada. Menos caótica. Ou talvez…eu só estivesse menos em choque. Eu estava sentada numa cadeira dura, encostada na parede, olhando para as próprias mãos. Ainda tinham marcas. Mesmo depois de lavar. Mesmo depois de esfregar. O sangue parecia ter ficado… na memória. Respirei fundo, passando os dedos lentamente um no outro, como se aquilo fosse suficiente pra limpar o que não saía. Os dois homens tinham passado a noite. O do tórax ainda era o mais crítico, mas estava vivo. E isso… já era muita coisa. Eu fechei os olhos por um segundo. Cansada. Não só fisicamente. Era um cansaço que vinha de dentro. De tudo que tinha acontecido rápido demais. De tudo que eu ainda não tinha conseguido processar. Mas, no meio disso…uma coisa não saía da minha cabeça. Minha mãe. Abri os olhos de novo, puxando o ar com mais força. — Eu preciso ir pra casa… — murmurei pra mim mesma. Fazia horas que eu tentava ignorar isso. Mas não dava mais. Ela não sabia de nada. Ou pior…talvez soubesse que algo estava errado. E eu simplesmente… sumi. Levantei da cadeira devagar, sentindo o corpo reclamar. Caminhei até o corredor principal, olhando ao redor. Ele estava ali. Encostado, como sempre. No mesmo lugar de ontem. Como se não tivesse saído. Como se não tivesse dormido. Como se nada nele desligasse. Dante. Por um segundo, eu só observei. A postura firme. O olhar atento, mesmo em silêncio. A forma como as pessoas evitavam passar muito perto. Ele dominava o ambiente sem precisar dizer nada. Era estranho. Mas… fazia sentido. Caminhei até ele. — Você não dormiu. Ele desviou o olhar pra mim. — Você dormiu? — Não. — Então pronto. Revirei levemente os olhos. — Isso não é uma competição. — Pra mim não é. A resposta veio seca. Mas não agressiva. Só… direta. Cruzei os braços por um segundo, juntando coragem. Porque aquilo não era um pedido simples. — Eu preciso ir pra casa. O olhar dele mudou. Sutil. Mas mudou. — Não. Rápido demais. Sem espaço. Sem consideração. Aquilo me irritou na hora. — Eu não tô pedindo. Ele inclinou levemente a cabeça. — Parece. — Minha mãe tá sozinha, Dante. — E tá mais segura assim. — Você não pode garantir isso! — Posso. A resposta veio firme. Pesada. E aquilo me fez dar um passo mais perto. — Não, você não pode! — minha voz subiu um pouco — você não controla tudo! O maxilar dele travou. Mas ele não levantou o tom. — O suficiente. Aquilo… me deu mais raiva ainda. — Eu não posso simplesmente desaparecer da vida dela! — Por hoje, pode. — E amanhã? E depois? Silêncio. Curto. Mas carregado. Porque ele não tinha uma resposta boa. E eu sabia disso. — Eu preciso ver ela — falei mais baixo agora — preciso olhar pra ela e saber que tá tudo bem. Ele me encarou por alguns segundos. Analisando. Como sempre. — E se não tiver? A pergunta veio direta. Sem suavizar. Engoli seco. — Então eu vou estar lá. — E vai fazer o quê? — O que eu sempre fiz. A resposta saiu firme. Porque, naquela parte… eu não tinha dúvida. Ele passou a mão na nuca, olhando pro lado por um instante. Pensando. Pesando. Calculando. Eu esperei. Sem pressionar dessa vez. Só… esperando. — Você não vai sozinha. Eu soltei o ar devagar. — Eu não pedi escolta. — Não é pedido. — É o quê então? — Condição. Silêncio. Eu sabia que viria algo assim. Mas ainda assim… — Eu não quero um monte de homem armado na porta da minha casa. — Não vai ter. — Então? Ele voltou o olhar pra mim. — Eu vou. Aquilo me pegou de surpresa. De verdade. — Você? — Sim. — Isso não faz sentido. — Faz. — Como? Ele deu um passo mais perto. A voz mais baixa. — Porque ninguém vai mexer com você se eu estiver lá. O jeito que ele disse aquilo… não foi arrogante. Foi… lógico. E, pior… fez sentido. Mas ainda assim… — E se alguém te seguir? — Não vai. — Você não pode ter certeza— — Aurora. Ele me cortou. Não alto. Mas firme. — Eu não faço nada sem pensar. Eu sustentei o olhar dele. — Então pensa melhor nisso. Outro silêncio. Mais longo dessa vez. Mais pesado. Porque nenhum dos dois queria ceder fácil. Mas, no fundo… os dois sabiam que aquilo precisava acontecer. Ele soltou o ar devagar. — A gente vai. Eu pisquei. — “A gente”? — Eu disse. — Hoje? — Hoje. Meu coração acelerou um pouco. Não de medo. Ou não só. Era outra coisa. Ansiedade. Expectativa. Preocupação. Tudo misturado. Assenti devagar. — Tá. Ele já se afastava quando eu falei: — Dante. Ele parou. Virou o rosto. — Obrigada. Ele me encarou por um segundo. Sem responder. Mas também… sem ignorar. E aquilo já dizia o suficiente. Porque, com ele… as coisas nunca vinham em palavras fáceis. Mas vinham em ações. E, naquele momento… isso bastava. Eu respirei fundo. Porque, pela primeira vez desde que tudo começou… eu estava voltando pra casa. Mas não da mesma forma. E, definitivamente… não com a mesma vida de antes.
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