Dois mundos

1146 Palavras
(POV Aurora) O caminho até minha casa nunca pareceu tão longo. Mesmo dentro do carro, com o vidro fechado e o movimento normal da cidade voltando aos poucos ao ritmo de sempre, meu coração não acompanhava. Cada esquina virada, cada rua conhecida… parecia carregar um peso diferente agora. Eu estava voltando. Mas não como antes. Olhei de relance pela janela, reconhecendo as casas, os comércios simples, as pessoas andando sem ideia do que tinha acontecido na noite anterior. Era estranho como o mundo continuava girando normalmente enquanto, pra mim, tudo tinha mudado. Ao meu lado, Dante dirigia. Silencioso. Concentrado. A postura firme, o olhar atento a cada detalhe, como se até aquele trajeto simples fosse um território a ser controlado. E talvez fosse mesmo. Eu respirei fundo. — Você não precisa ficar tão tenso — falei, tentando quebrar o silêncio. Ele nem virou o rosto. — Preciso. Suspirei. — É só a minha casa. — Não é “só”. A resposta veio seca. Direta. Sem espaço pra discussão. Eu revirei os olhos levemente, mas não insisti. Porque, no fundo… eu sabia que, no mundo dele, nada era simples. Alguns minutos depois, o carro diminuiu a velocidade. Meu coração apertou. Era ali. Minha casa. Simples. Pequena. Com o portão levemente torto e a pintura já desgastada pelo tempo. Mas era minha. Era onde tudo ainda fazia sentido. Ou pelo menos… fazia antes. Dante estacionou sem dizer nada. O motor desligou. E o silêncio dentro do carro ficou pesado de novo. Minhas mãos estavam frias. — Ela vai surtar — murmurei, mais pra mim mesma. — Provável. Olhei pra ele. — Você não ajuda. — Eu não vim ajudar nisso. Quase soltei uma resposta atravessada. Mas não tive tempo. Porque a porta da casa se abriu. E minha mãe apareceu. O olhar desesperado. Procurando. E, quando me viu… — AURORA! Eu saí do carro no mesmo instante. — Mãe— Mas não consegui terminar. Ela veio rápido. Mais rápido do que eu esperava. E me abraçou com força. Uma força que tremia. — Onde você tava?! — a voz dela saiu embargada — você sumiu, Aurora! Eu liguei, eu fui no posto, ninguém sabia de nada! Eu fechei os olhos, abraçando ela de volta. — Eu sei… eu sei… me desculpa… — Me desculpa nada! — ela se afastou, segurando meu rosto — você tem noção do desespero que foi?! Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. O rosto cansado. Assustado. Aquilo doeu mais do que qualquer coisa. — Eu tive que resolver uma coisa… — comecei. — Que coisa, Aurora?! — a voz dela subiu — você desaparece assim e acha que isso é normal?! Eu respirei fundo. — Não é normal. — Então por que você fez isso?! Silêncio. Porque eu não podia responder. Não de verdade. — Eu tô aqui agora — falei mais baixo. Ela me encarou por um segundo. E então… me puxou de volta pro abraço. Dessa vez chorando de verdade. — Eu achei que tinha acontecido alguma coisa com você… Minha garganta apertou. — Não aconteceu… eu tô bem. — Você não tá bem — ela disse, ainda me segurando — eu te conheço. Aquilo… me desarmou. Mas antes que eu conseguisse responder… ela travou. O corpo enrijeceu levemente. E então… se afastou devagar. O olhar mudou. Confuso. Desconfiado. E, quando ela olhou pra trás de mim… eu já sabia. Dante. Parado ao lado do carro. Imóvel. Observando. Sem invadir. Mas também sem se esconder. A presença dele ali… não passava despercebida. Nunca passaria. — Aurora… — a voz da minha mãe saiu mais baixa agora — quem é esse homem? Eu engoli seco. Olhei de um pra outro. — Mãe… — Quem. É. Ele. A tensão voltou. Pesada. Diferente da de antes. Mais íntima. Mais perigosa. — Ele… me ajudou. Dante não se mexeu. Não falou. Mas eu senti o olhar dele em mim. — Ajudou como? — minha mãe perguntou, ainda desconfiada. — Eu tive um problema… e ele— — Que problema? Fechei os olhos por um segundo. — Mãe… — Aurora, você desaparece, aparece com um homem estranho na porta da minha casa e acha que eu não vou perguntar?! A voz dela falhou no final. Mais emoção do que raiva. — Eu não tô achando nada — respondi, tentando manter a calma — eu só tô tentando te explicar. — Então explica direito! Silêncio. Pesado. Dante deu um passo à frente. — Dona… A voz dele saiu firme. Controlada. Minha mãe se encolheu levemente. Assustada. E aquilo me fez reagir na hora. — Dante, não— Mas ele continuou. — Ela não tava segura. Simples. Direto. Sem detalhes. Minha mãe franziu a testa. — Como assim não tava segura? — Tinha gente procurando por ela. O olhar dela voltou pra mim na hora. — O quê? — Mãe, calma— — Calma?! — ela praticamente riu, nervosa — você tá sendo ameaçada?! — Não é assim— — Então como é?! Eu passei a mão no rosto, sentindo tudo escapar do controle. — Já tá resolvido — falei, tentando encerrar — eu só precisava que você ficasse tranquila. — Tranquila?! — ela repetiu, indignada — eu não tô tranquila, Aurora! Eu tô com medo! Aquilo me atingiu. Forte. — Eu sei… — Não, você não sabe! — ela apontou levemente pra mim — você não tava aqui! Eu tava! Silêncio. Ela respirava rápido. As lágrimas ainda caindo. — E agora você aparece com esse homem dizendo que tinha gente atrás de você?! O olhar dela voltou pra Dante. Mais duro agora. Mais protetor. — Quem é você? Dante sustentou o olhar. Sem recuar. — Alguém que não deixou acontecer nada com ela. A resposta veio firme. Sem arrogância. Mas com peso. Minha mãe ficou em silêncio por um segundo. Analisando. Sentindo. — E eu devo confiar nisso? Ele não respondeu na hora. E, quando respondeu… foi simples. — Não. Aquilo quebrou completamente a expectativa dela. E a minha também. — Mas pode confiar nela — ele completou. O olhar da minha mãe voltou pra mim. Confuso. Emocionado. Cansado. — Aurora… o que você tá se metendo? A pergunta veio baixa. Quase um pedido. E, dessa vez… eu não tive resposta. Porque nem eu sabia mais. O silêncio caiu entre nós. Pesado. Cheio de tudo que não foi dito. Minha mãe passou a mão pelo rosto, tentando se recompor. — Entra. A voz saiu mais fraca. Mas ainda firme. Eu hesitei por um segundo. Olhei pra Dante. Ele não se moveu. — Eu fico aqui. Assenti devagar. E entrei. A casa parecia menor agora. Ou talvez… eu que tivesse mudado demais. Atrás de mim, a porta fechou. E, do lado de fora… Dante ficou. Como uma linha invisível entre dois mundos. E eu… presa no meio deles. Sem saber ainda qual era o meu lugar.
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