Silêncio?

1342 Palavras
(POV Aurora) O silêncio dentro de casa depois que o Dante foi embora não trouxe o alívio que eu achei que traria. Pelo contrário. Parecia que tudo tinha ficado mais real. Mais próximo. Mais impossível de ignorar. Minha mãe estava na cozinha, mexendo em alguma coisa que já tinha mexido três vezes seguidas. Eu conseguia perceber pelo jeito dela — movimentos repetidos, respiração irregular, o olhar perdido mesmo quando tentava focar em algo simples. Ela ainda estava assustada. E eu também. Só que, diferente dela… eu não podia demonstrar. Eu estava encostada na parede da sala, olhando pela janela de vez em quando. Não por paranoia — ou pelo menos era o que eu tentava dizer pra mim mesma — mas porque alguma coisa dentro de mim não conseguia relaxar. Era como se eu ainda estivesse naquele carro. Ou naquele quarto. Ou naquela sala cheia de sangue. Meu corpo estava ali. Mas minha mente… não. — Você não vai me contar mesmo, né? A voz da minha mãe veio da cozinha. Cansada. Sem força pra brigar de novo. Eu fechei os olhos por um segundo antes de responder. — Eu já contei o que dava. Ela apareceu na porta, cruzando os braços. — O que “dava” não é suficiente, Aurora. Eu sustentei o olhar dela. — Eu sei. — Então por que você não fala o resto? Porque eu não podia. Porque falar significava colocar ela dentro disso também. Porque, se ela soubesse de verdade… o medo dela ia virar desespero. E eu não queria isso. — Porque não muda nada agora — respondi, tentando manter a voz firme. Ela me olhou por alguns segundos. Depois balançou a cabeça, desacreditada. — Você sempre foi teimosa… Suspirei. — E você sempre quis me proteger de tudo. — Porque é minha função! A resposta veio mais forte do que ela pretendia. Mas não tinha raiva ali. Só… amor. E medo. — Eu sei, mãe… Ela passou a mão pelo rosto, respirando fundo. — Esse homem… — começou, hesitando — eu não confio nele. Aquilo não me surpreendeu. — Você não precisa confiar. — Mas você confia. Silêncio. Porque essa resposta… não era simples. — Eu… confio no que ele fez. Ela franziu a testa. — Isso não é a mesma coisa. — Eu sei. — Então por que parece que você tá se apoiando nisso? A pergunta ficou no ar. Pesada. Incômoda. Porque ela estava chegando perto demais. — Eu não tô me apoiando em nada — falei, desviando o olhar — eu só tô tentando lidar com o que aconteceu. Ela me observou por mais alguns segundos. Mas, dessa vez… não insistiu. — Eu vou fazer um café — murmurou, voltando pra cozinha. Assenti em silêncio. Esperei alguns segundos. E então peguei meu celular. Várias mensagens. Chamadas perdidas. E um nome que fez meu peito apertar: Júlia. Droga. Liguei. Chamou uma vez. — Finalmente você resolveu aparecer — a voz dela veio direta, sem rodeio. Sem grito. Sem desespero exagerado. Mas… tensa. — Eu sei… — Não, você não sabe — ela respondeu — você sumiu no meio do Complexo, Aurora. Isso não é brincadeira. Aquilo já dizia tudo. Ela sabia. Ou pelo menos… suspeitava o suficiente. — Eu tive um problema — falei mais baixo. — Com quem? Silêncio. Curto. Mas suficiente. Do outro lado da linha, ela soltou o ar devagar. — Foi com o Dante? Meu coração deu um leve aperto. — Não… exatamente. — Mas ele tava no meio. Não era pergunta. Era certeza. Fechei os olhos por um segundo. — Tava. Outro silêncio. Mas diferente. Mais pesado. Mais consciente. — Você tá onde? — Em casa. — Sozinha? Olhei em direção à cozinha. — Com a minha mãe. — Eu tô indo aí. — Júlia— — Aurora — ela cortou — eu conheço aquele lugar. Eu sei como as coisas funcionam lá. Se você se meteu nisso, não dá pra fingir que não aconteceu. Não insisti. Porque ela estava certa. — Tá. A ligação caiu. Minha mãe apareceu logo depois com duas xícaras. — Era a Júlia? — Era. — Vai vir? — Vai. Ela assentiu devagar. Como se estivesse se preparando pra mais perguntas. E não demorou. A campainha tocou. Dessa vez, eu mesma fui abrir. Júlia estava ali. Braços cruzados. Olhar sério. Bem diferente do desespero de antes. Ela entrou sem cerimônia. — Você tá inteira — disse, me analisando rápido. — Tô. — Ótimo. Mas o tom não era de alívio. Era de avaliação. Minha mãe apareceu logo atrás. — Júlia, ainda bem que você veio… — Ela não tá contando tudo, né? — Júlia perguntou direto. Minha mãe soltou um suspiro. — Não. Júlia olhou pra mim. — Então vamos parar de rodeio. Cruzei os braços. — Eu já falei— — Não, você não falou — ela cortou — você resumiu. O clima mudou. Mais sério. Mais pesado. Mas diferente. Porque Júlia não estava perdida. Ela entendia. — Foi confusão no morro, não foi? — ela continuou. Silêncio. — Gente de fora mexendo onde não devia… — completou. Eu engoli seco. — Foi. Ela assentiu devagar. Como se confirmasse algo que já sabia. — E você tava no meio. — Eu ajudei alguém. — Claro que ajudou — ela respondeu na hora — você sempre ajuda. Mas não tinha julgamento. Só… realidade. — E o Dante? — ela perguntou. Olhei pra ela. — Ele me tirou de lá. Júlia ficou em silêncio por alguns segundos. Processando. — Então foi sério. — Foi. Ela passou a mão no cabelo, pensativa. — Eu conheço ele. Minha mãe olhou surpresa. — Conhece? — Todo mundo lá conhece — respondeu simples — ele não é qualquer um. O olhar dela voltou pra mim. Mais intenso. — E se ele te trouxe até aqui... — ela pausou. — Então a situação era pior do que você tá dizendo. Eu não respondi. Não precisava. Ela já sabia. Júlia respirou fundo. — Tá… então vamos pensar. Ela começou a andar de um lado pro outro, igual eu tinha feito antes. — Se teve movimentação, se teve gente de fora, isso não acaba rápido. — Eu sei — falei baixo. — E você virou variável. Minha mãe franziu a testa. — Variável? — Alvo indireto — Júlia traduziu — pressão. O silêncio caiu. Pesado. Minha mãe me olhou, assustada. — Aurora… — Já tá sob controle — falei rápido. Júlia me olhou de lado. — Tá? Eu sustentei. — Tá. Ela hesitou. Mas não discutiu. — Ele vai cuidar disso — completei. E foi aí que algo mudou. Júlia não reagiu com surpresa. Nem com desconfiança. Ela só me encarou. Longo. Silencioso. — Você tá confiando nele — disse, calma. Não neguei. Porque não dava. — Eu tô confiando no que ele faz. Ela soltou um leve suspiro. — Isso já é muito. Minha mãe olhava de uma pra outra, perdida. — Eu não tô entendendo nada… Júlia suavizou um pouco o tom. — Tia, lá no Complexo… as coisas funcionam diferente. — Diferente como? Ela pensou por um segundo antes de responder. — Rápido. E sem muita escolha. O olhar dela voltou pra mim. — E, pelo visto… ela caiu bem no meio disso. Silêncio. Mas, dessa vez… menos confuso. Mais consciente. Mais real. Júlia se aproximou de mim. — Você tá com medo? A pergunta veio mais baixa. Mais pessoal. Eu respirei fundo. — Tô. Ela assentiu. Sem julgamento. — Então a gente fica esperta. — “A gente”? — minha mãe perguntou. Júlia olhou pra ela. — Ninguém vai deixar ela sozinha nisso. Depois voltou pra mim. — Mas você vai ter que jogar certo, Aurora. — Eu sei. — E não esconder de quem pode te ajudar. Aquilo… foi um aviso. Não uma cobrança. Eu assenti devagar. Porque, no fundo… eu sabia. As coisas tinham mudado. E agora… não dava mais pra fingir que eu ainda estava fora daquele mundo. Porque eu não estava. E todo mundo ali… já tinha entendido isso.
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