Dias normais

993 Palavras
(POV Aurora) Os dias seguintes não voltaram ao normal. Eles só… desaceleraram. Como se a vida tivesse puxado o freio, mas não parado completamente. Eu voltei pro posto. Voltei a atender. Voltei a sorrir quando precisava. Mas nada era igual. No Complexo, todo mundo percebia quando alguma coisa saía do lugar — mesmo que ninguém falasse diretamente. Olhares demoravam um segundo a mais, conversas baixavam o tom quando eu passava. E Júlia… Júlia não saía do meu lado. — Você tá olhando pra porta de novo — ela comentou, apoiada no balcão enquanto eu organizava algumas fichas. — Tô trabalhando. — Tá vigiando. Suspirei. — Força do hábito. Ela soltou um riso fraco. — Você pegou esse hábito rápido demais. Não respondi. Porque ela estava certa. Eu escutava mais. Observava mais. Calculava coisas que antes nem passavam pela minha cabeça. E, mesmo quando tudo parecia tranquilo… não parecia seguro. — Ele apareceu? — Júlia perguntou, mais baixo. Sabia de quem ela estava falando. — Não. — Mas você acha que vai. Não era pergunta. — Acho. Ela assentiu devagar. — E você quer isso? A pergunta me pegou desprevenida. Olhei pra ela. — Não é sobre querer. — Tudo é sobre querer ou não querer, Aurora. Desviei o olhar. — Nesse caso, não. Ela não insistiu. Mas o silêncio que ficou… falava mais do que qualquer resposta. O resto do dia passou lento. Pacientes, rotina, pequenas urgências. Tudo normal. Ou quase. Quando o turno acabou, o céu já começava a escurecer. Eu terminei de organizar o que faltava, me despedi de Júlia e saí. — Me manda mensagem quando chegar — ela disse. — Eu mando. — Sério. — Eu mando. Ela me olhou mais uma vez, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Mas não disse. Só assentiu. Eu comecei a descer a rua. O movimento ainda estava ali, gente indo e vindo, música ao longe, crianças correndo. Vida. Mas, mesmo assim… eu senti. Antes de ver. Aquela sensação estranha. Como se alguém estivesse observando. Parei por um segundo. Respirei fundo. Olhei ao redor. Nada fora do lugar. Mas… quando virei a esquina… vi ele. Encostado na parede, um pouco mais à frente. Como se estivesse ali há tempo suficiente pra não parecer coincidência. Dante. O coração acelerou na hora. Não de susto. Mas de algo que eu não queria nomear. Eu caminhei até ele. Sem desviar. Sem parar. — Você anda aparecendo muito do nada — falei, tentando manter o tom leve. Ele descruzou os braços devagar. — Você anda saindo sozinha. — Eu sempre saí. — Agora não é igual. Silêncio curto. Ele tinha razão. De novo. — Tá me seguindo? — perguntei. — Tô te acompanhando. Revirei levemente os olhos. — Isso não é muito diferente. — Pra mim é. Ele se afastou da parede, ficando de frente pra mim. Mais próximo. Mas sem invadir. — Tá tudo tranquilo? — perguntou. Direto. Sem rodeio. — Tá. Ele me olhou por um segundo a mais. — Não mente bem. Cruzei os braços. — Eu não tô mentindo. — Tá tentando. Aquilo me irritou um pouco. — Nem tudo precisa virar interrogatório, Dante. — Nem tudo é seguro. A resposta veio no mesmo tom. Firme. Controlado. E aquilo… quase virou discussão. Mas não virou. Porque, no fundo… eu sabia que ele não estava ali pra brigar. — Já passou alguns dias — falei — nada aconteceu. — Ainda. Silêncio. Pesado. — Você vive assim o tempo todo? — perguntei, mais baixo. Ele não respondeu na hora. Mas também não desviou. — Vivo. Aquilo me atingiu de um jeito estranho. Porque não tinha drama. Não tinha exagero. Só… fato. — E não cansa? — Cansa. — Então por que continua? Ele inclinou levemente a cabeça. — Porque parar não é opção. Fiquei em silêncio. Observando ele. De verdade. Pela primeira vez sem tensão imediata. Sem urgência. Só… tentando entender. — Você veio só pra perguntar se tá tudo tranquilo? — Não. Claro que não. — Então? Ele deu um passo mais perto. Agora sim, invadindo um pouco mais o espaço. Mas não o suficiente pra me fazer recuar. — Eu vim ver você. Simples. Direto. E completamente inesperado. Meu coração falhou um segundo. — Isso não faz sentido. — Pra você, não. — Pra você faz? Ele sustentou meu olhar. — Faz. O silêncio que veio depois… foi diferente de todos os outros. Não tinha medo. Não tinha tensão externa. Era… outra coisa. Mais perigosa. Mais difícil de controlar. — Você não devia fazer isso — falei, mais baixo. — O quê? — Misturar as coisas. Ele deu um meio sorriso quase imperceptível. — Você acha que isso aqui tá misturado agora? Engoli seco. — Acho. Ele aproximou mais um pouco. — Então você também tá. Aquilo… me pegou. Porque era verdade. E não tinha como negar. — Isso não é bom — murmurei. — Eu sei. — Então por que— — Porque já aconteceu. A resposta veio rápida. Sem espaço pra discussão. E, pela primeira vez… eu não tive argumento. O silêncio caiu de novo. Mas agora… carregado de algo que nenhum dos dois estava nomeando. Ao longe, alguém passou. Risos. Vida normal. Mas ali… não era normal. Nunca seria. — Eu tenho que ir — falei, finalmente. Ele assentiu. Mas não se afastou na hora. — Eu te levo. — Não precisa. — Eu sei. Suspirei. — Dante… — Aurora. O jeito que ele falou meu nome… fez tudo parar por um segundo. — Você não tá mais fora disso — ele disse, mais sério agora — então para de agir como se tivesse. Aquilo doeu. Porque era verdade. Mas ouvir… era diferente. — Eu sei — respondi, mais baixo. Ele assentiu. Dessa vez, satisfeito. — Então anda. Começamos a caminhar. Lado a lado. Sem pressa. Sem falar por alguns segundos. Mas, estranhamente… não era desconfortável. Era… natural demais. E isso… era exatamente o que tornava tudo mais perigoso.
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