Perigoso

978 Palavras
(POV Dante) A rua estava mais silenciosa do que deveria. Não vazia. Nunca ficava. Mas silenciosa de um jeito que eu reconhecia — aquele tipo de calma que não significa paz… só intervalo. Eu caminhava ao lado dela, mantendo o ritmo controlado, os olhos atentos ao redor, registrando cada movimento, cada sombra, cada detalhe que pudesse sair do padrão. Mas, dessa vez… não era só isso. Minha atenção voltava pra ela o tempo todo. Aurora. Andando ao meu lado como se aquilo fosse normal. Como se não tivesse cruzado uma linha que pouca gente volta. E, ainda assim... ela não parecia quebrada. Nem perdida. Só… mais consciente. Mais firme. E isso mexia. Mais do que eu gostava de admitir. — Você tá muito quieto — ela comentou, olhando de lado. — Tô pensando. — Isso nunca é um bom sinal. Soltei um leve ar pelo nariz. — Pra você, não. Ela quase sorriu. Quase. Mas não desviou o olhar de mim. E eu percebi. Claro que percebi. Ela também estava sentindo. Não era só coisa da minha cabeça. O problema…era exatamente esse. Parei de andar. Ela deu mais um passo antes de perceber e virar pra mim. — O que foi? Eu não respondi na hora. Só observei. O rosto dela mais próximo agora. Sem pressa. Sem gente por perto naquele exato momento. Sem interrupção. — Você devia ter ido direto pra casa — falei. Ela franziu levemente a testa. — Eu tô indo. — Não sozinha. — Eu não tô sozinha — respondeu, firme. Aproximei um passo. — Não por minha causa. O silêncio caiu. Diferente. Mais pesado. — Então por quê? — ela perguntou, mais baixo. Boa pergunta. Uma que eu evitei responder desde o começo. Mas ali… não dava mais. — Porque você não sai da minha cabeça. A frase saiu direta. Sem enfeite. Sem filtro. E, pela primeira vez… eu vi ela travar. Não de medo. Mas de impacto. O olhar dela mudou. Respiração um pouco mais lenta. — Isso não ajuda em nada — ela murmurou. — Eu sei. — Só complica. — Eu sei. Mais um passo. Agora perto de verdade. — Então por que você continua? A pergunta veio mais fraca. Mas mais perigosa. Segurei o olhar dela. — Porque eu não sou o tipo de cara que finge que não tá acontecendo. O silêncio ficou denso. Carregado. E, dessa vez… não tinha mais pra onde fugir. Ela não recuou. Não desviou. Só ficou ali. Sentindo. Como eu. Minha mão subiu devagar, quase sem perceber. Parei a poucos centímetros do rosto dela. Esperando. Um segundo. Dois. Ela não se afastou. Foi o suficiente. Encostei meus dedos no queixo dela, guiando levemente o rosto pra cima. O contato foi mínimo. Mas suficiente pra mudar tudo. A respiração dela falhou. A minha também. — Isso é uma péssima ideia — ela sussurrou. — Eu sei. Mas não parei. Nem ela. Inclinei o rosto devagar. Sem pressa. Sem impulso. Escolha. Quando meus lábios tocaram os dela… o mundo ao redor sumiu. Não foi suave. Não foi inocente. Foi contido demais por tempo demais. E, quando aconteceu… veio com tudo. Ela correspondeu. Sem hesitar. A mão dela subiu até minha camisa, segurando firme, como se precisasse de apoio… ou controle. Não sei. Nem importava. Aproximei mais, puxando ela pela cintura, colando o corpo dela no meu. Quente. Real. Sem espaço pra dúvida. O beijo aprofundou. Mais intenso. Mais direto. Sem cuidado. Sem freio. Tudo que ficou preso desde o primeiro olhar… estava ali. E nenhum dos dois tentou parar. A respiração ficou irregular. O ritmo descompassado. Mas nenhum dos dois se afastou. Pelo contrário. Ela se aproximou mais. E isso… quase acabou com o pouco controle que eu ainda tinha. Minha mão subiu pelas costas dela, firme, sentindo cada reação, cada resposta. Ela não recuava. Não quebrava. E isso só tornava tudo mais difícil de parar. Ou mais fácil de continuar. Não sei. Talvez os dois. Afastei o rosto por um segundo. Só o suficiente pra olhar pra ela. Os olhos dela ainda fechados por um instante. Respiração pesada. Lábios entreabertos. E, quando abriu os olhos… já não era mais a mesma tensão de antes. Era outra coisa. Mais perigosa. Mais profunda. — Eu falei que isso era uma má ideia — ela disse, sem se afastar. Passei o polegar de leve pelo lábio inferior dela. — E mesmo assim você não parou. Ela soltou um ar quase rindo. Sem humor. — Nem você. — Nunca falei que ia. O silêncio caiu de novo. Mas agora… quente. Carregado. Sem volta. Minha testa encostou na dela por um segundo. — Isso muda tudo — ela murmurou. — Já mudou. — Dante… — Não fala meu nome desse jeito se não quiser piorar. Ela engoliu seco. E, em vez de se afastar… aproximou de novo. O segundo beijo veio mais rápido. Menos contido. Como se a gente já tivesse passado do ponto de retorno. E talvez tivesse mesmo. Mas, dessa vez… eu segurei. Afastei antes que fosse longe demais. Antes que virasse algo que não dava pra controlar. Respirei fundo. Uma vez. Duas. Ela me olhava. Confusa. Afetada. Mas ali. Presente. — A gente não pode perder a cabeça agora — falei, mais baixo. — Você já perdeu — ela respondeu. Quase sorri. Quase. — Eu só não deixo isso aparecer sempre. Ela cruzou os braços por um segundo. Tentando se recompor. — Isso não vai acabar bem. — Provável. — E mesmo assim… — Mesmo assim. O silêncio veio mais uma vez. Mas, dessa vez… aceito. Ela assentiu devagar. — Tá. Simples assim. Sem promessa. Sem ilusão. Mas real. Começamos a andar de novo. Mais próximos. Mas diferentes. Porque agora… não era mais só tensão. Era fato. E, no meio de tudo que ainda podia dar errado… isso era, sem dúvida, o mais perigoso de tudo.
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