Prioridades

900 Palavras
(POV Dante) O beijo ainda estava na minha cabeça quando eu subi o morro. Errado. Completamente fora de lugar. Mas… impossível de ignorar. Passei a mão no rosto enquanto estacionava, tentando empurrar aquilo pra algum canto onde não atrapalhasse. Não era o momento. Não era o tipo de coisa que eu podia deixar crescer. Não agora. Não com tudo acontecendo. Desci do carro já com o olhar mais duro, a postura voltando pro lugar certo. Ali… não existia espaço pra dúvida. Só controle. KM foi o primeiro a aparecer. Como sempre. — Demorou. — Tava resolvendo coisa — respondi, seco. Ele me analisou rápido. Demais. — Resolveu mesmo? Ignorei a provocação e entrei direto. Coringa e Cabeça já estavam lá dentro, em volta da mesa. O clima era outro — mais tenso do que antes. Bom. Significava que estavam pensando. — Fala — eu disse. Cabeça foi direto: — Movimento estranho na base de baixo. Não entraram, mas tão rondando. — Testando — completei. — Sim. Coringa cruzou os braços. — Brandão não vai bater de frente de novo. — Não — concordei — ele vai cansar a gente primeiro. KM encostou na parede, pensativo. — Então a gente muda o jogo. Olhei pra ele. — Como? Ele ficou em silêncio por um segundo. Calculando. Depois falou: — Tirando o foco. O ambiente ficou quieto. — Explica — falei. KM descruzou os braços, vindo até a mesa. — Agora o foco dele é você. — Sempre foi. — Não assim — ele rebateu — agora é pessoal. E ele viu um ponto fraco. Silêncio. Porque todo mundo sabia qual era. — Então a gente tira esse ponto da frente — ele continuou. — Como? Ele me olhou direto. — Faz ele olhar pra outro lugar. Coringa já entendeu antes de mim. Ou antes de eu querer entender. — Você tá falando de distração. — Tô falando de estratégia — KM corrigiu. — Fala logo — cortei. Ele não desviou. — Natália. O nome caiu pesado. Imediato. Meu maxilar travou. — Não. Rápido. Automático. Sem espaço. KM não recuou. — Escuta primeiro. — Não tem o que escutar. — Tem sim — ele insistiu — ela já fez parte disso. Já conhece o jogo. E, mais importante… já foi ligada a você. Coringa soltou um leve ar pelo nariz. — Isso vai chamar atenção. — Exatamente — KM confirmou — se você se aproxima dela de novo, aparece, circula… muda a narrativa. Cabeça completou: — O foco sai da Aurora. Silêncio. Pesado. Incômodo. Porque fazia sentido. E eu odiava quando fazia sentido. — Você quer que eu use ela — falei, mais baixo, mesmo sabendo que aquilo para mim, não era problem nenhum. — Eu quero que você proteja quem precisa — KM respondeu, firme. Aquilo ficou no ar. Porque não era só estratégia. Era escolha. E eu sabia disso. — E a Aurora? — Coringa perguntou, mais direto. Olhei pra ele. — Fica fora. — E você? Pausa. — Também. A palavra saiu mais dura do que eu queria. Mas era necessária. KM assentiu devagar. — Então você entendeu. Não respondi. Porque entender… não significava aceitar fácil. Mas, no meu mundo… não era sobre facilidade. Era sobre resultado. Passei a mão na nuca, andando até a janela. Olhei o morro. Movimento. Gente. Vida acontecendo. E, no meio disso… decisões sendo tomadas. Mesmo no querendo pensar muito, eu sabia que a partir dali, as coisas iriam mudar, tudo iria mudar. — Se isso der errado… — comecei. — Já tá dando errado se a gente não fizer nada — KM cortou. Virei o rosto pra ele. Silêncio. Porque ele estava certo. De novo. Respirei fundo. Uma vez. Duas. E então falei: — Chama ela. Coringa levantou a sobrancelha. — Tem certeza? Olhei direto pra ele. — Eu não repito ordem. Ele levantou as mãos, rendido. — Tranquilo. Cabeça já saiu pra resolver. KM ficou. Me observando. — Você não gostou dessa ideia. Soltei um ar curto. — Não é sobre gostar. — Eu sei. Ele deu um passo mais perto. — Mas é sobre escolher o que pesa menos. Olhei pra ele. — E isso aqui vai pesar. — Vai. — Em todo mundo. — Principalmente em você. Silêncio. Aceitação. Não tinha como fugir disso. — Então faz direito — ele completou. Assenti. Porque, se era pra fazer… ia ser sem erro. Sem brecha. Sem espaço pra interpretação errada. — E a Aurora? — ele perguntou, mais baixo agora. Essa foi mais difícil. Muito mais. Mas a resposta veio mesmo assim. — Ela fica fora disso. — E você vai conseguir manter isso? Olhei pra frente. Pensando nela. No olhar. No beijo. No jeito que tudo mudou em segundos. Apertei o maxilar. — Vou. KM não parecia totalmente convencido, ele me conhecia bem. Mas não discutiu. — Então tá. Ele se afastou. E eu fiquei sozinho por alguns segundos. Só eu. E o peso da decisão. Porque não era só estratégia. Nunca era só isso. Peguei o celular. Abri a conversa. O nome dela ali. Aurora. Fiquei olhando por alguns segundos. Sem escrever. Sem apagar. Sem fazer nada. Então… bloqueei a tela. Guardei no bolso. E endireitei a postura. Porque, a partir dali… não tinha mais espaço pra dúvida. Só execução. Só controle. Só o papel que eu sempre soube jogar. Mesmo que, dessa vez custasse mais do que o normal.
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