(POV Dante)
O beijo ainda estava na minha cabeça quando eu subi o morro.
Errado.
Completamente fora de lugar.
Mas… impossível de ignorar.
Passei a mão no rosto enquanto estacionava, tentando empurrar aquilo pra algum canto onde não atrapalhasse. Não era o momento. Não era o tipo de coisa que eu podia deixar crescer.
Não agora.
Não com tudo acontecendo.
Desci do carro já com o olhar mais duro, a postura voltando pro lugar certo. Ali… não existia espaço pra dúvida.
Só controle.
KM foi o primeiro a aparecer.
Como sempre.
— Demorou.
— Tava resolvendo coisa — respondi, seco.
Ele me analisou rápido.
Demais.
— Resolveu mesmo?
Ignorei a provocação e entrei direto.
Coringa e Cabeça já estavam lá dentro, em volta da mesa. O clima era outro — mais tenso do que antes.
Bom.
Significava que estavam pensando.
— Fala — eu disse.
Cabeça foi direto:
— Movimento estranho na base de baixo. Não entraram, mas tão rondando.
— Testando — completei.
— Sim.
Coringa cruzou os braços.
— Brandão não vai bater de frente de novo.
— Não — concordei — ele vai cansar a gente primeiro.
KM encostou na parede, pensativo.
— Então a gente muda o jogo.
Olhei pra ele.
— Como?
Ele ficou em silêncio por um segundo.
Calculando.
Depois falou:
— Tirando o foco.
O ambiente ficou quieto.
— Explica — falei.
KM descruzou os braços, vindo até a mesa.
— Agora o foco dele é você.
— Sempre foi.
— Não assim — ele rebateu — agora é pessoal. E ele viu um ponto fraco.
Silêncio.
Porque todo mundo sabia qual era.
— Então a gente tira esse ponto da frente — ele continuou.
— Como?
Ele me olhou direto.
— Faz ele olhar pra outro lugar.
Coringa já entendeu antes de mim.
Ou antes de eu querer entender.
— Você tá falando de distração.
— Tô falando de estratégia — KM corrigiu.
— Fala logo — cortei.
Ele não desviou.
— Natália.
O nome caiu pesado.
Imediato.
Meu maxilar travou.
— Não.
Rápido.
Automático.
Sem espaço.
KM não recuou.
— Escuta primeiro.
— Não tem o que escutar.
— Tem sim — ele insistiu — ela já fez parte disso. Já conhece o jogo. E, mais importante… já foi ligada a você.
Coringa soltou um leve ar pelo nariz.
— Isso vai chamar atenção.
— Exatamente — KM confirmou — se você se aproxima dela de novo, aparece, circula… muda a narrativa.
Cabeça completou:
— O foco sai da Aurora.
Silêncio.
Pesado.
Incômodo.
Porque fazia sentido.
E eu odiava quando fazia sentido.
— Você quer que eu use ela — falei, mais baixo, mesmo sabendo que aquilo para mim, não era problem nenhum.
— Eu quero que você proteja quem precisa — KM respondeu, firme.
Aquilo ficou no ar.
Porque não era só estratégia.
Era escolha.
E eu sabia disso.
— E a Aurora? — Coringa perguntou, mais direto.
Olhei pra ele.
— Fica fora.
— E você?
Pausa.
— Também.
A palavra saiu mais dura do que eu queria.
Mas era necessária.
KM assentiu devagar.
— Então você entendeu.
Não respondi.
Porque entender… não significava aceitar fácil.
Mas, no meu mundo… não era sobre facilidade.
Era sobre resultado.
Passei a mão na nuca, andando até a janela.
Olhei o morro.
Movimento.
Gente.
Vida acontecendo.
E, no meio disso… decisões sendo tomadas.
Mesmo no querendo pensar muito, eu sabia que a partir dali, as coisas iriam mudar, tudo iria mudar.
— Se isso der errado… — comecei.
— Já tá dando errado se a gente não fizer nada — KM cortou.
Virei o rosto pra ele.
Silêncio.
Porque ele estava certo.
De novo.
Respirei fundo.
Uma vez.
Duas.
E então falei:
— Chama ela.
Coringa levantou a sobrancelha.
— Tem certeza?
Olhei direto pra ele.
— Eu não repito ordem.
Ele levantou as mãos, rendido.
— Tranquilo.
Cabeça já saiu pra resolver.
KM ficou.
Me observando.
— Você não gostou dessa ideia.
Soltei um ar curto.
— Não é sobre gostar.
— Eu sei.
Ele deu um passo mais perto.
— Mas é sobre escolher o que pesa menos.
Olhei pra ele.
— E isso aqui vai pesar.
— Vai.
— Em todo mundo.
— Principalmente em você.
Silêncio.
Aceitação.
Não tinha como fugir disso.
— Então faz direito — ele completou.
Assenti.
Porque, se era pra fazer… ia ser sem erro.
Sem brecha.
Sem espaço pra interpretação errada.
— E a Aurora? — ele perguntou, mais baixo agora.
Essa foi mais difícil.
Muito mais.
Mas a resposta veio mesmo assim.
— Ela fica fora disso.
— E você vai conseguir manter isso?
Olhei pra frente.
Pensando nela.
No olhar.
No beijo.
No jeito que tudo mudou em segundos.
Apertei o maxilar.
— Vou.
KM não parecia totalmente convencido, ele me conhecia bem.
Mas não discutiu.
— Então tá.
Ele se afastou.
E eu fiquei sozinho por alguns segundos.
Só eu.
E o peso da decisão.
Porque não era só estratégia.
Nunca era só isso.
Peguei o celular.
Abri a conversa.
O nome dela ali.
Aurora.
Fiquei olhando por alguns segundos.
Sem escrever.
Sem apagar.
Sem fazer nada.
Então… bloqueei a tela.
Guardei no bolso.
E endireitei a postura.
Porque, a partir dali… não tinha mais espaço pra dúvida.
Só execução.
Só controle.
Só o papel que eu sempre soube jogar.
Mesmo que, dessa vez custasse mais do que o normal.