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2384 Palavras
CHRISTOPHER Uckermann pov's Aquela noite com Dulce foi como descarregar um peso imensurável das minhas costas. Ao invés de tristeza, tudo o que eu fiz foi ficar imerso em pensamentos sobre o quanto eu estava mudando ultimamente. Foi difícil ter que admitir que eu estava diferente, mas agora era fácil para mim enxergar isso. E ainda bem que eu estava mudando, porque eu me sentia muito melhor e passava menos tempo estressado comigo mesmo.  Olhei para Dulce e a observei dormindo logo depois que nós acabamos de t*****r. Não me admirava o fato de ela ter ficado tão exausta, eu realmente exigi muito dela.  Como era de costume, eu fiquei de pé e procurei as minhas roupas, me dando conta de que elas estavam espalhadas pelo apartamento e a única peça no quarto era a minha cueca. Vesti e olhei novamente para Dulce, parando um pouco para observá-la melhor. E como já havia acontecido outras vezes, aquela vontade de ficar me atingiu.  O celular de Dulce, que estava sobre a mesinha de cabeceira, vibrou e eu dei uma breve olhada involuntária.  "Nova mensagem de Alexa S."  Bufei e sentei na cadeira que estava ao lado da janela. Eu sabia que seria inevitável trombar com a Alexandra por aí, mesmo que Dulce tivesse prometido que não me pediria mais para fingir ser o seu namorado. A questão era que eu vi nos olhos da minha mãe que ela queria me dizer algo e que em breve me procuraria. Eu só não gostaria que ela importunasse a Dulce com essa história, porque assim como eu, Dulce era só uma coadjuvante que não fazia ideia dos detalhes principais e não tinha que lidar com isso.  Fiquei horas ali sentado, pensando sobre tudo e me deixando absorto nas minhas preocupações. Eu tinha que contar ao meu pai, mas como eu faria isso? Quais seriam as melhores palavras? De forma consciente ou não, eu acabei ficando no apartamento de Dulce mais tempo do que o pretendido, mais do que as nossas regras permitiam.  Ela começou a se mexer e espreguiçar até abrir seus olhos, deixando-os cerrados pelo sono. Dulce pareceu confusa ao olhar para mim e demorou alguns segundos até raciocinar e dizer alguma coisa.  — Que horas são?  — Três ou quatro da manhã...? — falei um pouco incerto.  Ela sentou na cama, o lençol cobrindo sua nudez.  — Você está bem?  — Em parte. — dei de ombros. — Ah... Dulce?  — Sim?  — Eu posso... — pigarreei. — Posso dormir aqui?  Dulce arqueou as sobrancelhas em surpresa, mas assentiu positivamente.  Levantei da cadeira, fui até a cama e deitei ao seu lado, de frente para ela. Ficamos encarando um ao outro, perto demais, porém sem nos tocarmos. Aos poucos, Dulce tornou a fechar seus olhos devagar de forma sonolenta. A observei por mais alguns minutos até entornar seu corpo com um dos braços e trazê-la para perto, apoiando o meu queixo no topo de sua cabeça. De forma instantânea, ela me abraçou e se aconchegou em meu peito.  Meu sono chegou muito rápido, o que foi surpreendente dado o tempo que eu fiquei apenas pensando sobre a vida, quase deixando a insônia tomar conta dos meus sentidos.  Acabei acordando mais cedo do que ela. Agora estávamos de conchinha. Os cabelos dela estavam espalhados pelo meu rosto e sua cabeça apoiada em meu braço. Respirei fundo sentindo o perfume dela que agora tomava conta do ambiente. Fechei meus olhos novamente só para aproveitar mais um pouco aquele momento, querendo ter mais alguns segundos do corpo de Dulce junto ao meu.  Decidi sair da cama e a afastei cuidadosamente, evitando que ela acordasse. Fui até o banheiro e comemorei ao ver que Dulce tinha uma escova de dentes nova que eu poderia usar. Fiz as minhas higienes, saí do quarto e depois de avistar a minha calça jogada sobre sofá, eu a peguei e vesti, indo direto para a cozinha.  Decidi que prepararia um café da manhã. Seria uma forma de agradecer Dulce por ter me deixado ficar e por ter me dado tanto apoio na noite anterior.  DULCE Saviñon pov's Acordei ouvindo uma música que vinha da sala. Não estava muito alta, mas num volume suficiente para me acordar. Esfreguei meus olhos, arrastei minhas pernas para fora da cama e calcei meus chinelos. Vesti um roupão e depois de usar o banheiro, eu peguei o meu celular e chequei as notificações. Tinha uma mensagem da Alexa. "Oi, Dul! Eu só queria saber se o Christopher está bem. Não consigo parar de pensar nele, estou preocupada."  Resolvi não respondê-la imediatamente. Talvez o Christopher não gostasse que eu falasse sobre ele com a sua mãe. Aquele assunto não era da minha conta.  Assim que abri a porta do quarto o cheiro de bacon com ovos atingiu as minhas narinas e eu fiquei com água na boca no mesmo instante. Andei até a cozinha e encontrei Christopher terminando de colocar os ovos nos pratos que estavam sobre o balcão.  — Bom dia, doutora! — sorriu.  — Bom dia. — sorri também. — Parece que alguém está animado essa manhã. — apontei para o meu som que estava ligado.  — Desculpe, eu te acordei? Espero que sim porque era a intenção.  Dei risada e sentei ao balcão, me preparando para começar a comer. Ele sentou ao meu lado e antes de mais nada, depositou um beijo na minha bochecha. Arquei a sobrancelha e olhei para ele confusa. O que estava havendo?  — Tudo bem com você? — perguntei. — Não. Nada bem. — sua expressão não condizia com suas palavras.  — Fale mais sobre isso. — despertei meu lado profissional.  — Eu estou um caco, mas não quero aceitar isso. Então ao invés de me encolher em posição fetal e chorar, eu resolvi preparar um café da manhã pra você. — tocou a ponta do meu nariz com o dedo indicador.  — E isso te deixa feliz?  — Depende. Você gostou de como eu preparo bacon com ovos? — olhou para o meu prato.  Entendendo a deixa, eu dei uma garfada, mastiguei e engoli, sorrindo em seguida.  — Eu adorei. — elogiei.  — Isso me deixa feliz. — sorriu de volta.  — Uh, Christopher?  — Eu.  — A Alexa me mandou uma mensagem.  — Eu sei, eu vi quando a mensagem chegou no seu celular ontem à noite. — pareceu desconfortável.  — Ela quer saber se você está bem depois de ontem.  — Ela quer saber se eu estou bem? — riu ironicamente. — Não se preocupou com isso nos últimos dezoito anos. Engraçado, não acha? E ela poderia ter sido um pouco presente se quisesse. Olha só o seu pai. Sua mãe é muito difícil de lidar e mesmo assim ele sempre vinha te ver e nunca deixou de estar perto, mesmo morando em outro estado. Tudo bem a Alexandra ter se divorciado do meu pai, mas deixar um marido é muito diferente de deixar um filho. — Como os seus pais eram? Digo, como o seu pai a tratava? Talvez isso explique as coisas.  — Dulce, espero que não esteja insinuando que talvez o meu pai tenha a tratado m*l. — ficou sério. — O meu pai é o homem mais carinhoso que eu conheço e ele amou a minha mãe de verdade. Ela era uma rainha pra ele.  — Eu não insinuei nada, só fiz uma pergunta.  — Chega de perguntas, vamos mudar de assunto. — após respirar fundo e soltar o ar por alguns longos segundos, ele voltou a sorrir como fazia antes. — Você quer fazer alguma coisa hoje? Eu pensei em ir até a pista de boliche. Gosta de jogar boliche?  — Você quer sair comigo? — sorri.  — Considerando que nós estendemos a nossa relação para amizade, sim. Hoje é sábado e aos sábados eu saio com amigos.  — Faz um tempo que eu não jogo boliche. Vai ser legal.  — Vai ser muito legal. — sorriu, aproximando-se de mim.  Ele me deu um beijo suave e breve, que foi finalizado com dois selinhos.  Christopher parecia disposto a afastar os pensamentos ruins e focar sua mente em outras coisas. Isso não era r**m, na verdade era uma excelente forma de lidar com os problemas, só me preocupava que ele se fechasse naquilo e não cuidasse de suas dores. Mas eu não deveria me meter em sua vida com minhas análises a menos que ele me pedisse para fazer isso. Depois do café da manhã, nós nos despedimos e ele foi embora. Passei o resto do dia fazendo uma faxina geral no apartamento e no horário de almoço, marquei de me encontrar com Anahi em um restaurante.  Durante a conversa, ela acabou perguntando sobre Christopher e eu contei que as coisas estavam indo muito bem e evoluindo. Ela ouviu tudo com muita atenção e quando eu terminei de falar, Anahi parecia maquinar alguma coisa em sua mente.  — Quer me dizer alguma coisa? — perguntei.  — Você acha que pode estar se apaixonando por ele?  — Eu? — ri. — Não, eu... não? — franzi o cenho.  — Nossa. — riu. — Olha, eu conheço o Christopher e se apaixonar por ele não é uma boa ideia. Vocês fizeram um acordo e ele vai fugir de você caso perceba que você se apaixonou.  — Eu não estou apaixonada.  — Tem certeza? — sorriu sugestivamente.  — Annie, eu sei o que eu sinto.  — Ótimo, então as coisas com o Christopher irão durar. — sorriu.  Logo nós tratamos de mudar de assunto, mas eu ainda fiquei com aquilo na minha cabeça.  "Se começar a ter sentimentos por mim, isso acaba". Foi o que ele disse na noite em que começamos aquele acordo. Já havíamos quebrado praticamente todas as regras desde então, mas aquela era a mais importante e quebrá-la poderia significar o fim de tudo. Eu não queria que isso acabasse.  [•••] Já era o meu segundo strike. Eu e Christopher estávamos empatados, mas ele continuava dizendo que eu era r**m e deveria desistir logo.  — Esse tipo de psicologia não funciona comigo. — avisei após mais uma provocação.  — O boliche não funciona com você. — retrucou ficando de pé e indo até a pista.  Ele preparou a bola e jogou, deixando apenas dois pinos em pé. Quando se voltou para mim, eu arqueei as sobrancelhas com desdém.  — O meu pé deu uma leve escorregada. — explicou-se, revirando os olhos depois. — Além disso, você precisa de mais um strike para vencer e eu duvido que consiga.  — Sabe qual é a coisa que mais motiva uma pessoa, babaca? Dizer que duvida dela. — passei por ele, peguei outra bola e me posicionei.  Concentrei-me e joguei a bola. Dei um gritinho e um pulo ao fazer um strike e vencer de Christopher. Ele olhou para mim com tédio enquanto eu ria dele.  — Você mentiu pra mim, disse que não fazia isso há muito tempo. — reclamou. — Você que é r**m demais. — dei um tapinha em seu ombro.  — r**m, é?  Christopher agarrou minha cintura e me beijou, me pegando de surpresa. Enquanto segurava o meu rosto com uma das mãos, sua boca percorreu a minha, me fazendo descarregar as energias que estavam à flor da pele. Quando seus lábios se afastaram, ambos estávamos sorrindo.  — Não é r**m em tudo. — brinquei.  — Engraçadinha. — sorriu. — Está com fome? A gente pode ir pra outro lugar.  — Na verdade, eu adoraria tomar sorvete.  — Ok. Sorvete na noite de sábado. — murmurou parecendo dizer aquilo para si mesmo. — É, Christopher, as coisas não estão nada normais.  Saímos do boliche e caminhamos até o parque mais próximo, onde encontramos uma sorveteria aberta. Compramos as casquinhas e resolvemos dar uma passeada pelos arredores, parando na ponte que ficava sobre o lago.  — Eu esqueci de perguntar. A sua avó ficou bem? O aniversário dela foi um desastre. — ele perguntou quando nós paramos e nos apoiamos na ponte para observar o parque.  — Não se preocupe, a vovó Hellen ama um barraco de família. Pode apostar que esse foi o aniversário mais divertido que ela já teve.  — A sua avó é um amor. — riu.  — Eu sei.  Ficamos em silêncio e eu notei ele me observando sem parar, algo que fez minhas bochechas esquentarem subitamente.  — Por que está me olhando assim? — perguntei sem olhá-lo.  — Só estou pensando em como a vida é irônica. — ele parou atrás de mim e depois tocou minha cintura, me induzindo a virar de frente para ele. — Eu deveria estar em um bar enchendo a cara com o Alfonso.  — Deveria?  — "Dever" não é a palavra, certo? — franziu o cenho como se pensasse. — É só que foi o que eu fiz nos últimos sete anos da minha vida e parecia que iria continuar fazendo por muito mais tempo. Mas eu estou aqui num parque tomando sorvete com a Dulce Lo... — parou de falar no meio da frase e olhou para mim como se pedisse desculpas.  — Loser. — completei por ele. — Tudo bem, isso não me atinge mais. — suspirei. — A gente cresceu.  — Sinto como se eu estivesse crescendo só agora. E isso não é tão r**m assim.  Naturalmente, nós nos aproximamos e compartilhamos um beijo de poucos segundos, continuando abraçados mesmo após o fim do toque.  — Está feliz por ter quebrado todas as regras? — perguntou rindo.  — Eu não quebrei todas as regras. — fui rápida em dizer. — Não me apaixonei por você.  Achei que deixar aquilo claro era necessário. Era uma forma de dizer que ele não precisava fugir de mim. Christopher ficou quieto por um tempo, mas sua expressão não mudou. Ele me abraçou novamente, agora mantendo minha cabeça perto do seu peito.  — É. Essa regra a gente não quebrou. — falou.  Ouvir isso dele foi mais complicado do que eu ter que dizer. Como eu suspeitava, a única a estar confundindo as coisas era eu e a única forma de não estragar o que nós tínhamos era escondendo o que eu sentia.  O apertei mais contra mim para que o abraço continuasse e ele não visse a minha expressão de derrota.
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