DULCE Saviñon pov's
Hart me puxou para um lugar afastado do salão de festas, onde ninguém poderia ouvir seja lá o que ele queria me dizer. Quando ele disse que conhecia o Christopher e que tinha más notícias para mim, eu vi que teria que lidar com algum problema dos grandes. Dependendo do que ele me dissesse, eu poderia lhe contar a verdade e torcer que ele me apoiasse, mesmo que Hart odiasse mentir para a família.
— Sabe o cara que me deu um soco no strip club? — perguntou ele.
— O que tem ele?
— É o seu namorado. Foi com o Christopher que eu briguei!
Fiquei quieta pelos próximos segundos, raciocinando para dar uma boa resposta, algo que não me metesse em uma enrascada, talvez um jeito de contornar a situação sem me fazer parecer uma trouxa.
— Isso é uma pena, mas eu não vejo problema em ir a strip clubs. Eu acho bem divertido, na verdade.
— Você está me zoando, não está? — franziu o cenho. — Seu namorado estava enfiando a língua dele na boca da prostituta que eu ia contratar! Entendeu? Ele trai você!
Outro momento meu de silêncio e dessa vez eu não estava pensando no que dizer, mas estava tentando entender o misto de sensações incômodas que explodiram em meu peito. Eu estava verdadeiramente magoada com o que ouvi, mesmo sabendo que não deveria, porque eu e Christopher não tínhamos nada sério de verdade.
— Dulce, diz alguma coisa. — Hart pediu.
Continuei quieta, olhando para ele sem conseguir demonstrar nenhuma emoção.
— Se você quiser, eu vou até ele agora mesmo e o expulso daqui. Vocês nem precisam se falar. — ofereceu.
— Não. Não. — voltei a mim, balançando minha cabeça negativamente. — Eu vou te contar uma coisa, mas você tem que me prometer que não vai me julgar e que vai ajudar a manter isso.
— Pode falar.
— Eu e o Christopher não estamos juntos de verdade. Quer dizer, a gente se diverte, fica eventualmente, entendeu? Mas o que nós temos não é sério. Para todos os efeitos, estamos solteiros. Então se ele queria pegar a sua prostituta, eu não tenho o direito de ficar chateada.
Não tenho o direito, mas estou?
— E por que diabos ele está sendo apresentado à família como seu namorado? — pareceu chocado.
— Eu estou prestes a dar um passo a mais na minha carreira e eu preciso de foco total, preciso do máximo de confiança possível e infelizmente, Hart, o destino me presenteou com uma mãe que parece bem empenhada na missão de abalar qualquer autoestima que eu venha a ter. Não quero que ela estrague isso, porque se ela me criticar eu vou me desestabilizar.
— Uma terapia familiar resolveria isso.
— Eu já tentei, ela não faz terapia porque se acha perfeita e eu estou cansada de discordar dela e ter que ouvir um dos seus monólogos eternos.
— Mas tinha que ser com esse cara? — fez careta.
— Eu sei que vocês brigaram, mas foi só isso, uma briga de bar. Christopher é um cara legal e ele está aqui me ajudando, o que é mais do que ele já se propôs a fazer por mim um dia. E eu sei que você acha isso uma péssima ideia, mas eu sei o que estou fazendo. Se eu colocasse qualquer outro cara pra fingir ser o meu namorado, não iria dar certo.
— Se a bomba explodir, eu te seguro. — sorriu de canto. — E eu vou tentar não mandar o seu namorado ir se f***r enquanto estivermos aqui.
— Eu ficaria muito grata. — sorri. — Agora nós podemos...
Nem terminei a frase e senti aquela coisa no meio das minhas pernas vibrar. O Christopher só podia estar maluco! Olhei em volta procurando por ele, mas não o vi em nenhum lugar. Outra vez, agora mais forte. Contraí o meu corpo e apertei o tecido do meu vestido com força.
— Você está bem? — Hart perguntou preocupado, segurando um dos meus braços.
— Estou. É só um pouco de cólica, vai passar.
— Não parece ser só um pouco. Quer se sentar?
Sentar poderia piorar a sensação – ou melhorar, dependendo do ponto de vista.
— Não. Eu só tenho que encontrar o Christopher.
Hart pareceu confuso, mas eu não permiti que ele fizesse mais nenhuma pergunta e saí pela festa em busca do meu namorado falso. E lá estava ele, perto da mesa dos canapés, olhando em volta e apertando o botão do controle repetidas vezes como se estivesse brincando com um PlayStation.
Apressei meus passos até chegar nele, torcendo para não soltar nenhum gemido involuntário no meio daquelas pessoas. Quando Christopher me viu, abriu um sorriso e parou de apertar o botão.
— Oi, eu te procurei, mas não te encontrei em nenhum lugar. Achei que seria melhor deixar você me procurar. — riu.
Respirei fundo antes de dizer:
— Lírio.
O sorriso dele morreu gradativamente, sendo substituído por uma expressão confusa.
— Foi m*l, eu prometo que não faço mais quando não estiver te vendo. Estava falando com alguém importante, não estava? — ele pareceu arrependido, fazendo um olhar de cachorro pidão que me deixou com um leve remorço. — Desculpa.
Suspirei e olhei para o chão, relaxando um pouco e me dando conta do quanto estava irritada antes de ouvir ele se desculpar daquele jeito tão fofo.
— Eu só fiquei irritada com outra coisa, não com o vibrador. — expliquei.
— Se quiser conversar...
— Parece que você conhece o meu primo Hart. Vocês brigaram na terça-feira e você deixou o rosto dele bem ferido.
— E você se irritou por que eu soquei o seu primo ou por causa do motivo de ele ter puxado briga comigo? — perguntou num tom cauteloso.
— Por você ter socado o meu primo, é claro. — pigarreei. — Eu tive que contar sobre a nossa farsa ou ficaria parecendo chifruda.
— E ele concordou em não atrapalhar?
— O Hart não costuma mentir, mas ele sabe como isso é importante pra mim, então teremos paz no paraíso Saviñon, pelo menos por hoje.
— Ótimo. — assentiu.
Ficamos em silêncio por um tempo, trocando olhares desconfortáveis.
— Olha, você pode beijar quem quiser, ok? — disparei a falar. — E não que eu esteja te julgando, só fiquei um pouco pensativa sobre você ter preferido sair com uma prostituta ao invés de ligar pra mim. Claro que a sua vida não é da minha conta, você sai com quem quiser, eu só... pensei demais.
— Foi só um beijo, eu nem queria t*****r com ela. Só fiz aquilo pra que o Alfonso e o Christian parassem de zoar com a minha cara.
— Por que eles estavam te zoando?
Christopher engoliu em seco, enfiou as mãos nos bolsos e soltou um longo suspiro. Uma forma de ganhar coragem, deduzi.
— Porque ultimamente eu só tenho saído com você. — admitiu.
— É? — arqueei a sobrancelha.
— É. — deu de ombros. — Não é proposital, eu só te acho muito boa no sexo e me sinto muito mais confortável perto de você do que de qualquer outra mulher. Então ao invés de sair por aí com uma parceira diferente todas as noites, eu ligo pra você porque você sempre vai estar lá e você sempre vai ser a melhor opção. Não quero mais mover a minha vida baseado em elevar o meu ego. E daí que eu quero facilitar os meus orgasmos? Isso não me faz menos homem.
Eu sorri, me sentindo satisfeita com o que ouvi dele. Há um minuto atrás, eu estava chateada, mas agora eu só sentia orgulho de mim por ser tão boa como ele disse.
— Eu acho que isso aconteceu porque conseguimos nos tornar amigos. — falei.
— De inimigos com benefícios a amigos com benefícios. — ele sorriu.
— E de quebra eu consegui usar o sexo como terapia pra você. — brinquei.
— Você deveria se especializar nisso. — brincou também. — Sua mãe gostou mesmo de mim. E ela ficou super interessada na minha família também.
— Acha que ela está pronta pra lidar com as novidades da minha vida?
— E daí se ela não estiver? É a sua vida. Você sabe o que é melhor pra você.
— Obrigada por dizer isso. — segurei a mão dele. — Eu queria enfiar isso na minha cabeça de alguma forma. — ri.
— Um passo de cada vez. — ele ergueu minha mão e beijou. — Agora vai enfrentar a fera.
Assenti e me afastei dele, indo até a minha mãe que estava conversando com uma das minhas primas. A chamei para falar comigo em particular e nós sentamos sozinhas em uma mesa.
— O Christopher me disse que vocês se deram bem.
— Sim. Eu adorei o seu namorado, você não poderia ter feito escolha melhor. — falou animada.
Aquilo foi o primeiro comentário genuinamente gentil que ouvi dela a noite inteira e o engraçado era que havia sido um elogio ao Christopher e não a mim.
— Fico muito feliz. — eu disse.
— Eu que estou feliz e muito animada para o seu pai conhecê-lo. — sorriu e eu vi maldade naquele sorriso.
— O que quer dizer? — cerrei os olhos, desconfiada.
— Quis dizer exatamente o que eu disse. — foi curta.
— Certo. — sacudi minha cabeça, tratando de mudar de assunto. — Eu tenho uma novidade sobre a minha vida profissional.
— O que há de novo?
— Eu comprei as ações do meu sócio e sou oficialmente a única dona da clínica. — resolvi falar de uma vez antes que desistisse.
— Muita responsabilidade, não acha? — bom, ela não surtou.
— Trabalhei a minha vida inteira por isso. Eu quero ser independente em todos os sentidos e acho que ser chefe de mim mesma é um excelente passo.
— Você não trabalha bem sob pressão.
— Mãe, eu cuido de pessoas psicologicamente conturbadas. Meus pacientes divergem dos mais calmos aos mais agressivos e eu sempre lidei bem com todos eles. Então sim, eu trabalho bem sob pressão. — fui firme.
— Sendo assim, tudo bem. — deu de ombros.
— Sério? — sorri. Eu imaginei que distraí-la com o meu novo namorado daria certo, mas mesmo assim fiquei surpresa.
— Mesmo que você estrague tudo, o que eu tenho certeza que vai, ainda pode recorrer às finanças da família. — ela chegou mais perto de mim e abaixou para sussurrar. — Soube que você está no topo do testamento da sua avó. — sorriu.
Me desanimei no mesmo instante. Ela não se importava, não acreditava em mim e o pior: estava mais uma vez me resumindo a apenas uma herdeira.
— Nossa. — revirei os olhos. — Eu achei que tudo ia acabar bem, mas você nunca vai me apoiar, não é? E se eu ainda espero apoio de você eu devo ser muito i****a!
— Dulce Maria, é melhor diminuir o tom. — me olhou com repreensão.
— Eu deveria ter ficado satisfeita por você não ter surtado ou ficado p**a comigo, porque isso é o máximo que você consegue fazer! Mas eu ainda fiquei p**a por você não acreditar em mim!
— Eu disse pra diminuir o tom!
— Eu consegui ser tudo o que você sempre disse que eu não seria. Eu fui a primeira da turma em todas as turmas das quais fiz parte, eu ganhei prêmios pela minha inteligência, eu publiquei um livro que é super respeitado na psicologia, eu fiz PHD em Harvard, eu criei o meu próprio método terapêutico para autismo que foi elogiado e refeito por vários profissionais da área, eu dou palestras em uma das maiores conferências médicas do país todos os anos e todas as pessoas em todo lugar que eu vou dizem como eu sou brilhante e o quanto eu vou longe. Você é a pessoa que deveria ser a primeira a me engrandecer, mas é a única que não faz isso.
Fiquei de pé enquanto Blanca olhava para mim com uma expressão chocada. Eu nunca falei assim com ela antes, sempre a tratei como uma autoridade na minha vida, alguém que eu recusava a responder grosseiramente.
— Eu deveria te agradecer por ser uma mãe horrível, porque isso me motivou a sempre ser mais do que eu podia ser. Então continua, Blanca, continua dizendo que eu não consigo, porque sempre que você diz isso, eu vou lá e faço!
Sem esperar resposta, eu dei as costas e caminhei para longe dela. Passei como um furacão pelo salão de festas, sendo observada por boa parte dos parentes. Eu queria explodir de raiva por ter uma mãe tão julgadora e tão egoísta.
Cheguei até a varanda e apoiei minhas mãos no muro. Deixei o vento da noite bater em meu rosto e respirei fundo, enchendo os meus pulmões de oxigênio, fechando os meus olhos e mentalizando que a aprovação dela não deveria ser tão importante só por ela ser a minha mãe. Logo meu pai chegaria naquela festa e ele ficaria muito feliz por eu ter dado um passo a mais na minha carreira.
Ouvi alguns passos atrás de mim e tentei me recompor. Christopher parou ao meu lado e me olhou com empatia.
— Não deu certo?
— Em parte sim. Ela não gritou comigo nem tentou me convencer de desistir. Mas ela disse que eu vou estragar tudo e que tudo bem porque estou no topo do testamento da vovó.
— Eu sinto muito, isso foi terrível. — colocou a mão em meu ombro.
— Por que tínhamos que ter mães tão ruins?
Ele ficou quieto por alguns segundos, mantendo um semblante pensativo.
— Douto... Dulce — chamou minha atenção e eu ergui meus olhos para ele. — Se não tivéssemos mães horríveis, não seríamos fortes. Você transformou o seu obstáculo em apoio. Transformou a descrença da sua mãe em motivação. Lutou contra os seus demônios e venceu. E você vai continuar vencendo porque você é brilhante. Quando eu disse que te admiro, eu estava sendo sincero.
Meus olhos se encheram de lágrimas e eu não consegui fazer nada que não fosse abraçá-lo. O apertei contra mim, encostando a cabeça em seu peito. Christopher beijou o topo da minha cabeça e me apertou de volta, acariciando os meus cabelos enquanto eu soluçava baixinho.
Eu não estava chorando por tristeza, mas o contrário. Pela primeira vez na vida, eu me senti livre das amarras maternas. Pela primeira vez eu entendi que não precisava da aprovação da minha mãe pra ser ainda mais forte do que eu já sou.
— O que não te derruba, te fortalece. — Christopher sussurrou.
Ergui minha cabeça para olhar o seu rosto e sorri de leve para ele. Christopher encostou sua testa na minha e depois vagarosamente deixou seus lábios pousarem sobre os meus. Ainda abraçados e sob a luz da lua e das estrelas, nós nos beijamos como se estivéssemos agradecendo um ao outro pela conversa cheia de emoção de agora. Sentir o gosto daqueles lábios foi só um toque a mais para o meu alívio emocional.
Cessamos o beijo e nos afastamos do abraço.
— Se sente melhor? — perguntou.
— Muito melhor. — enxuguei meu rosto. — Obrigada, Christopher.
— Você faria o mesmo por mim.
— Dulce! — ouvi a voz de Maite, que havia acabado de parar na porta da varanda. — Seu pai chegou.
— Eu já estou indo.
May assentiu e se retirou.
— Pronto pra conhecer o seu sogro? — estendi minha mão para ele.
— A resposta pra essa frase sempre vai ser não. — segurou minha mão.
— Que drama. — ri.
Nós dois voltamos para o salão de festas e eu dei um olhada geral em busca do meu pai. Ele ainda estava perto da entrada cumprimentando algumas pessoas. Alexa estava ao lado dele, tão elegante quanto eu me lembrava que ela era.
— Onde está o seu pai? — Christopher perguntou.
— Bem ali, com a mulher de vermelho, é a esposa dele. — apontei na direção deles.
Christopher acompanhou o meu dedo e olhou naquela direção. Até então, ele parecia relaxado, mas de repente sua face ficou pálida e ele entreabriu os lábios, arregalando um pouco os olhos. Fiquei confusa com aquela reação e esperei por alguma palavra, algo que indicasse o que ele estava pensando.
— Christopher? — o chamei quando vi que ele ficaria estático. — Você está bem?
Ele não me respondeu e simplesmente saiu andando em uma direção contrária. Eu tentei acompanhar os seus passos até ele sair pelos fundos do local, indo direto para o estacionamento.
— Christopher! — gritei agora correndo até ele. — O que está fazendo!? — consegui parar em sua frente, fazendo-o parar também.
— Eu não sei... não sei... — ele parecia atordoado.
— Olha pra mim. Ei, olha pra mim! — segurei o rosto dele entre as minhas mãos, o obrigando a me olhar. — Fala pra mim o que aconteceu.
— É... era... a minha mãe.
— O que? — fiquei confusa.
— A mulher com o seu pai. Alexa... Alexandra! É a minha mãe, Dulce! — sua voz saiu desesperada.
Agora quem estava estática era eu, ainda com as mãos no rosto dele, ainda com a expressão de confusão estampada em meu rosto.
Essa noite poderia ficar pior?