Pré-visualização gratuita O Teatro da Utilidade
O som do despertador às 5h30 da manhã não era um chamado para um novo dia, mas o sinal para o reinício de uma performance meticulosamente ensaiada. Simone abriu os olhos e encarou o teto branco do seu quarto, sentindo o peso invisível de suas responsabilidades antes mesmo de colocar os pés no chão. Para o mundo, ela era a filha prodígio, a estudante exemplar, a engrenagem perfeita. Por dentro, ela era um grito abafado sob camadas de polidez.
Ela se levantou em silêncio, evitando despertar qualquer ruído que pudesse atrair a atenção precoce de sua mãe. No banheiro, a água gelada no rosto servia para despertar os sentidos, mas não a alma. Simone olhou-se no espelho. Seus cabelos cacheados cor de mel, que ela sempre tentava manter perfeitamente domados para não parecer "desleixada" aos olhos da mãe, eram a única coisa que parecia vibrar com alguma vida própria.
— Simone? Já está de pé? — A voz de sua mãe, rígida e pontual como um metrônomo, veio do corredor.
— Sim, mãe. Já estou saindo para a biblioteca — respondeu Simone, forçando a voz a soar clara e disposta.
Ao descer, encontrou a mesa do café posta. Seu pai lia o jornal, um homem de gestos lentos e afeto silencioso que, embora amoroso, nunca intervinha na disciplina ferrenha imposta pela esposa.
— Bom dia, querida — disse ele, sem tirar os olhos das notícias. — Como estão os estudos para a prova final?
— Estão ótimos, pai. Tenho revisado os artigos de mestrado também. Quero garantir que minha pontuação seja a mais alta da turma.
Sua mãe entrou na cozinha, ajustando a gola do vestido de Simone com um puxão seco.
— É o mínimo que esperamos, Simone. Gastamos muito com sua educação para que você seja apenas "média". Você sabe que o programa de mestrado este ano está mais concorrido. Não há espaço para descanso agora. Descanso é para quem já conquistou o sucesso, não para quem ainda está na base.
As palavras eram lâminas polidas. "Tudo para o seu bem", diziam elas. Simone engoliu o café amargo, sentindo o nó na garganta. Ela queria dizer que estava exausta, que suas pálpebras pesavam e que sua mente parecia um emaranhado de fórmulas e teorias que já não faziam sentido. Mas o roteiro não permitia falhas.
— Eu sei, mãe. Vou me esforçar mais.
Ao chegar na universidade, o teatro continuava. Simone não caminhava pelos corredores; ela orbitava as necessidades alheias.
— Sisi! Que bom que te achei! — exclamou Camila, uma de suas colegas, vindo em sua direção com uma pilha de papéis. — Você conseguiu terminar aquela transcrição do grupo de estudo? Eu me enrolei toda com o trabalho e, como você é tão rápida e organizada...
— Terminei sim, Camila. Estão aqui — Simone entregou as folhas, grampeadas e revisadas.
— Você é um anjo! Sério, o que seria de nós sem você? — Camila deu um beijo rápido no ar e saiu correndo, sem sequer perguntar se Simone tinha dormido bem ou se precisava de ajuda com qualquer outra coisa.
Simone observou-a se afastar. Ela era a "amiga útil". Aquela que sempre tinha a anotação extra, a que nunca dizia não, a que moldava seu horário para preencher as lacunas deixadas pela procrastinação dos outros. Era conveniente ser gentil; mantinha as pessoas por perto, mesmo que fosse apenas pelo que ela podia oferecer, e não por quem ela era.
O dia seguiu em um borrão de aulas e revisões. No intervalo, ela se sentou em um banco afastado, tentando apenas... existir. O sol batia em seu rosto, e por um breve momento, ela fechou os olhos e imaginou como seria se ela pudesse apenas ser "patética". Ser frágil. Deixar que as notas caíssem, que a cama ficasse desarrumada, que o mundo visse que ela estava cansada.
Mas o medo de desagradar era um monstro maior que sua exaustão. Se ela falhasse, o que restaria? Se ela não fosse a filha perfeita e a amiga conveniente, quem seria Simone? Ela olhou para as próprias mãos e percebeu que m*l as reconhecia. Elas pareciam pertencer a uma marionete cujos fios eram puxados por expectativas sociais e familiares.
— Simone? — Uma voz masculina a despertou.
Era Jonas. Ele se aproximou com um sorriso que deveria ser reconfortante, mas que apenas adicionava mais uma obrigação à sua lista.
— Oi, Jonas — disse ela, ajustando a postura e vestindo seu sorriso de "namorada dedicada".
— Você parece distraída. Espero que não esteja pensando em nada que não seja a nossa noite de estudos — ele brincou, sentando-se ao lado dela e passando o braço por seus ombros.
Simone sentiu o peso do braço dele. Não era um abraço de proteção; era uma âncora que a puxava de volta para a realidade que ela tentava, por instantes, esquecer. Nada em sua vida era "r**m", ela repetia para si mesma como um mantra, enquanto a tristeza aguda e silenciosa continuava a cavar um buraco em seu peito. Era apenas uma vida perfeita... e ela estava se afogando nela.