Tempos antes...
Caminho pelo corredor devagar, olho para os dois lados. Estou sozinha, nada de Drake. De certa forma, o que eu estava esperando? Drake sempre vem com Magnus, mas eu insisto em procurá-lo em todos os lugares que vou.
É automático. Vou na sala de jantar, e me pego o procurando. Saio do quarto, e me vejo o procurando pelos corredores. Tem um baile no palácio, e me perco na multidão o procurando.
Chego na sala de jantar e não o encontro lá, agora mesmo não o encontro.
— Bom dia. — Cumprimento minha família.
Sento na cadeira, olho para a porta ainda esperando que Drake apareça alí. Observo fixamente, e nem percebo.
— Tudo bem, Amice? — Mamãe questiona sorrindo.
— Sim! — Respondo rápido pelo susto. — Magnus já acordou? — Dou várias risadas internas sempre que faço isso. Onde Magnus estiver, Drake também estará.
Minha mãe me olha e sorri.
— Amice, tenha calma. — Ela dá uma risadinha.
É um pouco desonesto fazê-la acreditar que estou caindo de amores por Magnus, mas preciso fingir isso. É uma obrigação agora.
Escuto um coçar de garganta ecoar atrás de mim, quando olho para trás vejo Magnus e Drake cumprimentarem todos à mesa e em seguida sentaram.
Drake me olha uma única vez e sorri de canto, maldito sorriso de canto que me dá frio na barriga.
— Bom dia. — Respondo encarando Drake.
Uma série de coisas se passam pela minha cabeça quando meus olhos encontram os dele.
— Então... — Magnus pigarreia conseguindo a atenção de todos à mesa. — Queria informá-los de que precisarei viajar durante um tempo indeterminado.
Minha expressão agradável se fecha, encaro Drake que vira uma taça na boca despreocupado, ou fingindo estar. Ele encara pontos em que não há ninguém.
— Como? — Questiono arqueando uma sobrancelha.
Magnus me olha limpando os lábios com um guardanapo. Sua expressão transmite um pouco de indiferença, como se eu atrapalhasse seus planos. Ele vai ir ver a camponesa, não é?
Olho para Drake, mas Drake não me olha.
— Meu irmão precisa de mim em Eldoria, ele me enviou uma carta. Não sei bem o porquê, irei exatamente para ajudá-lo e descobrir do que se trata. — Magnus afirma.
Tento não demonstrar minha repulsa, tento não demonstrar o ódio que estou sentindo por ele agora. Ele levará o escudeiro com ele, é óbvio.
— Por quanto tempo? Você irá casar com Amice em breve. — O Rei Eratos aponta.
— Eu sei, prometo estar aqui antes do casamento. É só que meu irmão realmente precisa de mim. — Magnus fala tão convincente, acho que ele mesmo acredita em suas mentiras ao ponto de duvidar da realidade.
— Vai levar o escudeiro com você? — Questiono por fim. Emma me encara como se soubesse de todos os meus pecados.
— Sim, Drake me acompanha para todos os lugares desde sempre. Agora não será diferente. — Magnus questiona semicerrando os olhos para mim.
Drake mantém sua pose brincando com a taça em suas mãos, como se o nome dele não estivesse sendo mencionado à mesa.
— Por que, Amice? — Magnus me olha estranho.
Sinto meu corpo tremer, nervosismo é o sentimento mais sincero que eu já senti.
Perguntei sem pensar, fiquei cega por essa notícia repentina.
— Por nada, Magnus. — Falei simples. Não estou devendo nada. Não estou devendo nada. — Você quer ir, Senhor Cadman?
Drake levantou o olhar lentamente e me encarou penetrantemente. Apertei o guardanapo em minhas mãos tentando não demonstrar as reações que eu estava sentindo.
— Perdão, princesa. Mas não tenho alguma coisa que me prenda aqui, ou tenho? — Drake questiona em tom de provocação. Tenho certeza de que ninguém aqui entendeu, mas eu entendi.
— Tem razão. Boa viagem, querido. Estarei a sua espera. Licença. — Falo para Magnus levantando e indo para o meu quarto.
Caminho de um lado para outro em meu quarto cavando buracos no chão, eu já tinha todo um plano bolado em minha cabeça.
Magnus não pode simplesmente ir e levar o escudeiro com ele.
Corro antes que alguém veja até a cocheira, pego um cavalo e saio em disparada para fora do reino.
Comigo levei as jóias valiosas mas não as que usei hoje de manhã no desjejum. Elas poderiam incriminar facilmente um inocente, é isso é a última coisa que quero.
Saí com o cavalo até estar por dentro da cidade mais distante do castelo.
Avistei um homem, parecia trabalhador. Tinha expressões exaustas e visivelmente sujo. Isso ajuda muito.
— Moço? — Me aproximei.
— Pois não? — Ele se curvou, provavelmente percebendo que se tratava da Princesa de Eratos.
— Preciso dos seus serviços.
— Trabalho com carpintaria, Princesa.
— Não esses serviços. — O homem me encarou fazendo uma careta de desdém. — Quero que me deixe no castelo, em troca lhe darei meu cavalo e minhas jóias.
— Mas por que isso? — O homem me olhou assustado.
— Apenas diga que me encontrou a mercê, na estrada sozinha. Que me reconheceu, e me levou para o castelo.
— Isso vai me causar problemas. Não posso fazer isso. — O carpinteiro estava claramente nervoso, e com muito receio.
Tirei minhas jóias que escolhi bem antes de sair. Precisava de jóias nas quais não usei muito, para não incriminar esse pobre homem caso algum soldado as encontre com ele.
— São bem valiosas, irão mudar completamente a sua vida. Vamos, confie em mim. Eu preciso mais de você do que você de mim, acredite. Jamais lhe colocaria em enrascadas.
Joguei as jóias em cima de sua mesa, ele as encarou por longos segundos.
Minhas roupas rasgadas não negavam, e meus cabelos despenteados principalmente. Eles vão cair, fique calma, Amice.
Vi minha mãe acompanhada do Rei, Emma, Magnus e Drake correrem até a frente do palácio.
— Filha! A criada nos informou que você não estava no castelo, você está bem? — Minha mãe questionou segurando meu rosto nas mãos.
— Estou... — Comecei a chorar. — Foi horrível... Fiquei tão chateada por Magnus ir embora, que saí desgovernada... Dois homens, acho que estrangeiros por causa do sotaque... Me abordaram e me assaltaram...
Escondi o rosto no peito da minha mãe. Pude ver meu pai encarar o carpinteiro.
— É verdade? — Questionou o Rei.
— Sim. Encontrei a Princesa abandonada na estrada, estava vulnerável. Quando parei para perguntar se estava bem, a reconheci no mesmo instante. A trouxe até aqui, apenas para fazer o bem. — Disse o carpinteiro levantando as mãos.
— Lhe darei uma recompensa valorosa pela sua bondade, me sinto aliviado que minha filha encontrou o senhor. — Meu pai falou.
Magnus veio até mim, me puxou dos braços da minha mãe e me abraçou firme. Virei o rosto para Drake, e apoiei a cabeça no peito de Magnus.
— Está tudo bem? — Drake questionou apenas movendo os lábios em inaudível.
Assenti sorrindo para ele, tentando fazê-lo perceber que foi de propósito. É teatro meu.
Emma me abraçou encostando a cabeça nas minhas costas.
— Minha irmã tão desatenta, já imaginou se acontece algo pior. O que você tem na cabeça? — Emma disse. — Magnus, você realmente vai deixá-la?
Magnus nos olhou para ela relutante, naquela típica situação onde não se sabe o que fazer.
Sua noiva acabou de ser assaltada, psicologicamente agredida e você vai embora levando o seu escudeiro?
— Meu amor... — Magnus sussurrou para mim. — Eu preciso ir...
— Amice é teimosa, fica fugindo perigosamente. Vou ter que deixar um guarda a vigiando 24 horas por dia. — Papai resmungou.
— Ah não! Esses guardas são horríveis, me sinto vigiada o tempo inteiro. — Resmunguei.
— Magnus, sua viagem é realmente importante? — Drake questionou.
— Drake pode ficar sendo guarda-costas da minha noiva enquanto volto, não preciso de escudeiro. É uma forma de demonstrar meu amor e compreensão. — Magnus falou por fim, tão rápido que dava para notar que era por livre e espontânea pressão.
Depois de Drake concordar "contra" a vontade dele e meus pais aceitarem, corri para o meu quarto com a desculpa de querer ficar sozinha.
Antes que eu pudesse fechar a porta do quarto, ela foi empurrada.
Drake entrou, me pressionou contra a porta com o seu corpo e apoiou nossas testas uma na outra.
— Você está bem? — Ele questiona me olhando firme.
Assenti.
— Eu paguei o carpinteiro para mentir sobre o assalto. — Na minha voz havia um pouco de humor.
— Imaginei. — Drake sussurrou de volta.
Ele segurou meu rosto nas mãos e me beijou, tão eufórico e ofegante, talvez pelo esforço para correr e me alcançar.