Tempos antes…
O tecido da roupa de cama do Eratos é bem mais macio, acho que gostei mais desse do que os do castelo Eldoria. Comentário meio aleatório, mas é porque estou entediado.
Eu já deveria ter aceitado o fato de que um funcionário como eu, não tem descanso para conseguir ficar entediado. Magnus consegue ser folgado a todo momento, é só o que ele faz.
Homens como Magnus, herdeiros de reinos, são vistos como superiores. Porém, ninguém para pra pensar que homens como ele não pensam, não tem a mínima capacidade para reinar e muito menos para dar ordens já que não possuem treinamento para isso.
Vejo homens que treinaram a vida inteira para serem soldados e cuidarem da segurança do reino, sendo apenas empregados para o restante da vida. Enquanto homens como Magnus, são vangloriados e exaltados como homem de "verdade".
Me perco nesse tecido ultra macio e cheiroso, e sinto que eu sou capaz de dormir sobre ele umas 38 horas por dia. Mas eu não posso, sou o fiel escudeiro de um mimado garotinho no corpo de um homem de 40 anos, que está batendo na porta do meu novo quarto agora. Batendo não, esmurrando. Quase derrubando a porta do meu quarto.
— Pode entrar! — Gritei isso, mas queria gritar outras coisas bem ofensivas que poderiam fazer com que Magnus ordenasse para deceparem minha cabeça e conseguissem outro escudeiro. Temos i********e e somos amigos, mas há alguns limites.
— Se arrume, vamos beber algo por aí. Deve ter algum bar por aqui, não é possível que não tenha bares nesse Reino. — Magnus falava enquanto entrava em meu quarto.
Resmunguei afundando a cabeça no travesseiro. Mas é claro que Magnus me obrigou de alguma forma a levantar e me arrumar.
Saímos de fininho para que ninguém nos visse, Magnus era muito bom nisso e me obrigava a sempre estar com ele. E como “empregado” eu tinha que obedecer.
— Eu não acredito que vou ter que dormir todos os dias com aquela mulher. — Magnus resmungou virando uma garrafa de álcool na boca. Ainda não estava completamente bêbado mas já estava um pouco. — Quer um pouquinho?
Balancei a cabeça negativamente. Não posso beber, sou a babá desse i****a. E nem mesmo gosto, para falar a verdade.
— Ela não é nenhum pouco feia, se serve de consolo. Quando digo nenhum pouco, quero dizer que está longe de ser. — Falo. Ele não vai lembrar amanhã mesmo.
— Está cortejando ela secretamente, por acaso? — Magnus bateu a garrafa na mesa. — Está cortejando a minha noiva?
— Você me fala essas coisas e quer que eu responda o que? Achei que fosse para responder algo, e que fosse o que eu penso.
— É... Tem razão. — Deu de ombros. — Eu não gosto do jeito dela. Ela m*l fala. Diferente de Emília que tudo o que fala a faz parecer mais bonita.
Sinto mãos passearem por minha nuca, quando olho para trás vejo uma mulher vestida exibidamente. Observo seus ombros, me perdendo no colo dos seus s***s. Apenas prostitutas se exibem assim para homens desconhecidos.
— Boa noite. — O seu tom de voz continha malícia, é claro. Um cumprimento tão açucarado que enjoava.
— Boa noite. — Respondo não dando muita atenção.
Não gosto de mulheres assim. Elas tem peles que qualquer homem pode tocar, e que incontáveis homens já tocaram.
Já dormi com algumas, não posso ser hipócrita. Mas não é algo que me encanta. Eu não sou um depravado que dá valor a isso como esse i****a, que as trata como donzelas e já a própria noiva trata como uma messalina.
— Opa! — Magnus ofegou quando uma sentou em seu colo. Ele envolveu o braço em torno dela e ficou mexendo em seus cabelos.
Fiquei imóvel quando a outra sentou em meu colo, senti seus braços envolverem meu pescoço.
— Podem ir embora, já estamos de saída. — Ordenei com as mãos para trás da cadeira.
— Não, não, não... — Magnus se queixou quando elas saíram. — O que há de errado com você?
Revirei os olhos levantando da mesa e saindo para longe deixando ele sozinho.
— Eu serei o novo Rei de Eratos. Viva o Rei Magnus! — Magnus gritou de pé em cima da mesa, e gargalhou logo em seguida.
Eu estava cerrando os punhos, repensando todos os meus pecados e me autoavaliando para saber se eu realmente merecia isso.
— Magnus! — Gritei enquanto me aproximava mais da mesa.
— Drake! Meu amigo! — A voz embriagada dele não negava o quão bêbado ele estava.
— Venha, vamos para casa. — Estiquei a mão para ele, e tudo o que ele fez foi bater nela a afastando de perto dele.
— Vá você! Eu estou me divertindo.
Esfreguei as mãos no rosto tentando buscar um pouco de paciência, mas parecia ser impossível.
— Como você acha que o Rei vai reagir vendo o noivo da filha dele chegando no castelo bêbado e cheirando m*l igual você está agora? — Afrontei Magnus. Apesar de que eu tentei não demonstrar irritação, ainda assim minha voz saiu irritada.
— Eu estou pouco me lixando para o que aquele velho acha, não quero casar mesmo. — Deu de ombros voltando a sentar na cadeira.
Me vi sem alternativas. Como eu levaria esse i****a para casa.
Parei de alisar o rosto e olhei para ele, vendo que agora virava uma garrafa de álcool completamente cheia na boca.
— Já chega! — Perdi a paciência, tomei a garrafa de sua mão e a quebrei arremessando no chão chamando a atenção das pessoas em nossa volta. — Vamos!
Revirei os olhos. Puxei algumas moedas de prata do bolso e coloquei em cima da mesa.
E então saí o arrastando pelo bar, ignorando totalmente os berros alcoolizados dele. Já estou cansado de ser a babá desse i*****l.
— Me solta! Quem você pensa que é para me arrastar assim quando digo para não fazer? Você é só meu escudeiro, não é meu pai. — Resmungou.
— Tem razão. Eu posso deixar você aqui, e mais tarde quando você estiver bêbado o suficiente para não conseguir levantar, talvez outro bêbado confunda você com alguma prostituta. O que acha?
Magnus me olhou torto e então apenas tentou subir no cavalo. Tentou, já que foi eu quem o ajudou a subir.
— Amanhã mando buscarem seu cavalo. — Falei enquanto subia no mesmo cavalo que ele.
Dei graças a Deus que Magnus ficou calado o caminho inteiro, suspeitaria que estivesse dormindo se ele não estivesse tão bem sentado.
Quando chegamos no castelo, ordenei que o guarda deixasse o cavalo na costeira e saí caminhando devagar com o braço de Magnus apoiado em meu pescoço.
Ele resmungava, resmungos de bêbado que não dá para entender muita coisa.
— Faça silêncio, Magnus. A realeza não pode ver você bêbado dessa maneira. — Sussurrei baixinho.
— Hum... — Magnus ergueu as sobrancelhas como se estivesse ouvindo.
Ouvi um remexer em alguma porta e saí correndo enquanto arrastava Magnus, o mais rápido possível tentando não ser flagrado, na verdade, tentando não deixar que ele fosse flagrado.
Quando me vi de frente para o seu quarto chutei a porta, já que não conseguia abrí-la com a mão. A porta escancarou e então saí arrastando Magnus até à cama me livrando do peso dele.
Deixei ele jogado de um lado da cama e pelo incômodo de trazê-lo até o quarto meu corpo falhou e acabei caindo do outro lado da cama.
Não importa o quanto eu continue o carregando quando ele faz essas idiotices, nunca vou me acostumar já que ele sempre consegue um jeito de dar ainda mais trabalho para levá-lo para casa. Carregar ele nunca vai ser fácil, Magnus sempre evolui a sua dificuldade.
Respirei fundo inteiramente dormente pelo esforço, quando ouvi a porta atrás de nós sendo batida. No mesmo instante me virei para o lado assutado e acabei caindo da cama.
— O que você fez com ele!? — Amice esbravejou caminhando na direção de Magnus, o virando de barriga para cima analisando seu rosto.
— O que faz aqui!? — Questionei com um tom de desespero.
— É o quarto do meu futuro marido, não é? — Deu de ombros. — Minha mãe ordenou que eu o esperasse no quarto. Você o embebedou? Seu canalha!
— Eu não dei uma gota de álcool sequer para ele, então não ponha culpa em mim. — Retruquei.
— Ele sempre bebe assim? — Amice questionou sentando ao lado dele no colchão.
— É. — Confirmei e senti o arrependimento bater no mesmo instante, mas eu já havia confessado e afinal de contas, ela merece saber a verdade. — Mas ele está tentando melhorar. — Boa, Drake.
— E não está funcionando pelo jeito. — Amice ironizou.
— Dê um desconto, ele só estava nervoso por causa do casamento.
— Claro, homens e suas desculpas esfarrapadas para beberem.
Fiquei deitado no chão apoiado nos antebraços tentando fingir normalidade.
— Não já está na hora de você ir para o seu quarto? — Amice questionou rude.
— Está me expulsando? Eu vim até aqui carregando esse i****a nas costas, estou cansado.
— Você o chamou de i****a?
Só então eu percebi que o xinguei em voz alta, acho que o cansaço me fez perder a noção. Pensei alto até demais.
— Não... Não foi isso que eu falei. — Fingi confusão.
Amice abriu a boca na intenção de falar algo, mas foi interrompida por Magnus que começou a falar enquanto dormia.
— Ema... Ema... — Magnus chamava pelo nome da camponesa enquanto se remexia de um lado para o outro quase caindo da cama, mas Amice o segurava.
— Ema? — Amice questionou incrédula.
— Não. — Suspirei fundo. Eu estava cansado demais para negar as canalhices de Magnus. — Emília.
— Quem é essa? — O tom de voz dela parecia ser de quem se importava e não se importava ao mesmo tempo.
— Irmã dele. Ela sempre cuida dele quando bebe.
— Mentira. Magnus não tem irmãs. — Ela negou calma sem alterar o tom de voz deixando a mim nervoso.
Fiquei em silêncio. Magnus tem a capacidade de ser canalha em absolutamente tudo.
— Tem razão. É uma camponesa de Eldoria que ele está apaixonado. — Falei por fim me rendendo.
Aila ficou em silêncio enquanto olhava para ele. Parou de o tocar e então ficou me encarando com expressões neutras.
Notei seu rosto, como é bem delicado. As ondas do cabelo visíveis e livres. Mulheres finas como ela só usam cabelo solto para dormir, geralmente só o marido o vê. E esse i****a estraga isso por uma camponesa e bebidas.
— É com esse i****a com quem vou casar? — Ela quebrou o silêncio desviando minha atenção.
— Agora quem o chamou de i****a foi você. E sem querer ser indelicado, você ficou feliz por ter sido ele o escolhido por Eratos.
— É injusto eu não poder escolher meu próprio marido. Mas ele foi o que aparentemente seria menos pior, viu a idade daqueles outros homens? Eu não queria casar com um homem mais velho que meu pai.
— Princesa, a senhorita tem razão. Mas não precisa amá-lo ou forçar para que ele a ame.
— É coisa da minha mãe, ela que me obriga. Odeio até respirar perto dele sabendo que ele me odeia.
Magnus estava enganado, Amice fala sim. Me pergunto se ele já tentou ao menos conversar com ela.
Observo suas pernas nuas e brilhantes de tão brancas por causa da roupa de dormir. Volto imediatamente minha atenção para o rosto dela quando Aila me olha.
— Não precisa pressioná-lo, não acho que vá adiantar. Magnus vai casar com você de qualquer forma, ele gostando ou não.
— Ele está sendo obrigado? — Amice me encarou curiosa.
— O Rei de Eldoria achou melhor dar alguma responsabilidade para ele, para que ele criasse maturidade. Magnus tem essa personalidade imatura escondida e sempre age como criança.
— Vou tratá-lo com o mesmo carinho que ele me tratar. Suas ações serão recíprocas, sou obrigada a casar, mas não a suportar ser m*l tratada.
É rebelde como já havíamos reparado. Tem espírito de mulher empoderada, não pude evitar o sorriso.
— O que foi? — Amice questionou confusa.
— Eu vou para o meu quarto, você pode cuidar do seu marido agora. Fico feliz que a partir de agora não vou mais fazer isso sozinho. Sua companhia será muito saborosa. — Brinquei caminhando até à porta. — Boa noite, Princesa.
— Boa noite, escudeiro. — Seu tom forçado me fez rir.