herança e traição

1740 Palavras
Depois dos eventos recentes, senti que algo em mim estava mudando. Talvez fosse a pressão crescente, ou talvez fosse o peso de tudo que eu estava assumindo. Mas uma coisa era clara: eu precisava estar preparado, mesmo que isso significasse encarar partes de mim que preferia ignorar. Resolvi falar com minha mãe naquela manhã. Ela estava no jardim da mansão, cuidando das flores que tanto amava. Era um contraste gritante com o ambiente sombrio que eu vivia. Aproximar-me dela sempre trazia um misto de conforto e culpa. Ela era minha última conexão com algo genuíno. — Mãe, preciso da sua ajuda. — As palavras saíram mais hesitantes do que eu esperava. Ela se virou, as mãos ainda sujas de terra, mas o olhar carinhoso fixo em mim. — O que houve, Matteo? Respirei fundo. — Vou começar a treinar com Marco. Armas. Preciso aprender... Preciso estar preparado. Por um momento, o sorriso dela vacilou. Vi a dor passar por seus olhos, mas foi rápido. Ela assentiu, como se já esperasse por isso. — Venha comigo — disse ela, limpando as mãos no avental. Seguimos para o escritório do meu pai, um lugar que eu raramente entrava desde sua morte. Minha mãe abriu uma gaveta trancada, tirando de lá um estojo de madeira escura. Quando o abriu, vi a arma. Era elegante, com detalhes em prata. Na lateral, meu nome estava gravado, junto com a data do meu nascimento e o brasão da família. — Seu pai mandou fazer esta arma no dia em que você nasceu. Eu sei que você sabia sobre a de Max, mas ele nunca contou nada sobre a sua. Talvez quisesse guardá-la como uma surpresa, ou acreditasse que você nunca precisaria dela. Ele dizia que seria um símbolo do seu legado, algo para protegê-lo, não para destruir. — A voz dela vacilou, mas ela continuou. — Max sempre foi o escolhido para liderar, mas ele acreditava que você tinha algo único, mesmo que não fosse reconhecido ou valorizado por todos Peguei a arma, sentindo o peso dela nas mãos. Não era só uma arma; era um símbolo. Naquele momento, fui tomado por uma onda de emoções conflitantes. Uma mistura de medo, determinação e um toque amargo de resignação. Eu sabia que segurar aquele objeto significava assumir uma parte de mim que sempre tentei negar. Não sei se foi coragem ou pura necessidade, mas senti que não havia mais como voltar atrás. [...] Naquela tarde, encontrei-me com Marco no galpão de treinamento, um espaço amplo e austero, com paredes de concreto nu e o cheiro metálico de óleo de armas permeando o ar. Ele já estava lá, com uma variedade de armas dispostas meticulosamente sobre uma mesa robusta de madeira envelhecida. Luzes fluorescentes lançavam sombras duras, ressaltando o brilho frio do metal. O olhar de Marco era sério, mas não hostil, enquanto me esperava com uma postura firme, quase militar. — Então, finalmente decidiu aceitar o que precisa ser feito, — disse ele, entregando-me uma pistola comum. Assenti, sem palavras, enquanto observava o ambiente ao meu redor. Marco começou com o básico: postura, mira e segurança. Cada movimento parecia antinatural, como se meu corpo rejeitasse aquilo. Eu não estranho à pressão, mas o peso de uma arma em minhas mãos tinha um significado diferente, como se carregasse o legado de uma linhagem que eu tentava evitar. Enquanto praticava, Marco quebrou o silêncio. — Sabe, seu pai era um líder respeitado. Não porque era cru€l, mas porque sabia equilibrar firmeza e inteligência. Ele não era perfeito, mas sempre dizia que Max seria o líder ideal, o sucessor natural — Marco parou, como se pesasse as palavras. — Com você, no entanto, ele tinha dúvidas, acreditava que talvez nunca quisesse esse papel, mas que, se precisasse, poderia surpreender a todos. Aquelas palavras me atingiram mais do que qualquer tiro poderia. Eu não queria ser como meu pai, mas parte de mim sabia que precisava aprender com seu legado para sobreviver. Continuei praticando, mesmo com as mãos trêmulas e a mente inquieta. Cada disparo era como um confronto interno; o som da arma ecoava em meus ouvidos, misturado com os gritos silenciosos da minha consciência. Minhas mãos trêmulas denunciavam o quanto eu repugnava aquilo, mas ao mesmo tempo, cada disparo parecia quebrar mais uma barreira dentro de mim, deixando um vazio que eu não sabia como preencher. Era como se cada tiro levasse não apenas um pedaço de mim, mas também um fragmento das certezas que eu tinha sobre quem eu era. [...] Quando a noite chegou, eu estava exausto. Pensava que teria um momento de paz, mas Marco apareceu no meu escritório, com o rosto carregado de preocupação. — Precisamos conversar, Matteo, — disse ele, fechando a porta atrás de si. — O que foi agora? — perguntei, tentando não soar irritado. — Alguém está traindo a família. Informações confidenciais estão chegando aos nossos rivais. Isso já está causando problemas nas rotas de distribuição. — Ele se aproximou, jogando na mesa alguns papéis com registros que confirmavam suas palavras. Olhei os documentos, sentindo um nó no estômago. — Quem mais sabe disso? — Só você e eu, por enquanto. Mas precisamos agir rápido. Se isso continuar, não só perderemos dinheiro, mas colocaremos todos em perigo. Fechei os olhos, tentando processar. — E você tem alguma ideia de quem pode ser? Marco hesitou, mas assentiu. — Tenho minhas suspeitas, mas precisamos de mais provas antes de acusar alguém. Respirei fundo, sentindo o peso de mais essa responsabilidade. — Sairemos hoje para resolver isso. Convoque uma reunião familiar amanhã cedo. Eu mesmo vou lidar com isso. Marco assentiu, colocando a mão no meu ombro. — Você está fazendo o que precisa ser feito, Matteo. Não é fácil, mas ninguém disse que seria. Fiquei sozinho no escritório depois que Marco saiu para preparar os seguranças. A arma que minha mãe me deu estava sobre a mesa, ao lado dos papéis. Olhei para ela, sentindo a ironia da situação. Meu pai acreditava que Max seria o líder perfeito, mas para que eu pudesse me destacar, parecia que precisava mergulhar ainda mais fundo nesse mundo que tanto desprezava. As escolhas estavam ficando cada vez mais difíceis, mas uma coisa era certa: eu não podia falhar. [...] Saí com Marco e os seguranças ainda naquela noite, rumo a uma das regiões mais perigosas da cidade, onde encontraríamos o homem que poderia ter informações sobre a traição na família. A tensão era palpável dentro do carro enquanto atravessávamos as ruas escuras e m*l iluminadas. Marco, sempre atento, não dizia uma palavra, mas sua expressão era um misto de foco e apreensão. Chegamos a um armazém abandonado, o local combinado para o encontro. O lugar era frio e sombrio, com cheiro de ferrugem e umidade. Ao entrar, avistamos o homem que estávamos procurando. Ele estava cercado por dois de nossos seguranças, claramente nervoso, mas tentando manter uma fachada de indiferença. Quando ele nos viu, engoliu seco, seus olhos denunciando o medo que tentava esconder. — Você sabe por que estamos aqui? — disse Marco, com uma voz firme e cortante. O homem balançou a cabeça, mas não respondeu. Era óbvio que estava tentando ganhar tempo, talvez na esperança de uma saída que não existia. Marco sinalizou para um dos seguranças, que o puxou pela camisa, obrigando-o a olhar diretamente para mim. — Fale agora ou não vai sair daqui bem — Marco continuou, enquanto o som de seus passos ecoavam pelo armazém. O homem começou a balbuciar algo, mas Marco não parecia disposto a esperar. Sem aviso, um dos seguranças desferiu um golpe que fez o homem cair de joelhos. Aquilo me fez estremecer, mas mantive a compostura. Eu sabia que, naquele momento, precisava mostrar firmeza. — Quem está traindo minha família? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora meu estômago revirasse com o peso da situação. O homem resistia, mesmo após ser pressionado, mantendo o silêncio como um escudo. Foi apenas quando a arma em minha mão tocou sua têmpora, fria e ameaçadora, que ele desmoronou. Seus olhos arregalados entregavam o terror que sentia enquanto eu mantinha o dedo próximo ao gatilho, sem desviar o olhar. Finalmente, ele cedeu, a voz tremendo ao revelar: — É alguém da sua própria família... eu não sei quem exatamente, mas recebo ordens e informações de dentro. Eles usam isso para negociar com os rivais. — Como você sabe que é da minha família? — questionei, minha voz cortando o silêncio como uma lâmina. O homem hesitou, mas a pressão era insuportável. Novamente, apontei a arma para ele, forçando-o a falar. — Porque as mensagens que eu envio têm o brasão da sua família — confessou ele, a voz tremendo. Meus olhos se estreitaram. — Como você recebe essas informações? — perguntei, a raiva e a incredulidade crescendo dentro de mim. Ele engoliu em seco, lutando contra o medo. — Eu recebo através de entregas anônimas, pacotes deixados em lugares previamente combinados. Nunca vejo quem envia, mas os documentos e instruções sempre vêm assinados com o brasão. Foi assim que soube... foi assim que tive certeza. Eles estão usando isso para negociar com os rivais. — E por que devo confiar no que você diz ? — questionei mais uma vez. — Por que eu mentiria ? Estou com uma arma apontada para minha cabeça !— ele diz, suas mãos ainda estão trêmulas. Ele parecia dizer a verdade. Tinha que confiar mesmo com um pé atrás. — Deixe- me ver os pacotes — ordenei. O homem saiu de onde estava e pegou um pacote que estava escondido entre os pneus. Me deu o pacote então abri, tinha as instruções e no final para o meu vislumbre, uma assinatura que reconheceria de longe. Senti um nó no estômago. Sabia exatamente o que isso significava. Jordan era o traidor. Minha mente girava enquanto eu assimilava a traição. Jordan, meu próprio primo, estava sabotando nossa família. Meu corpo inteiro parecia pegar fogo, mas não era hora para impulsividade. Precisava pensar no próximo passo. — Levem-no daqui — ordenei aos seguranças, referindo-me ao homem que acabara de confessar. O impacto das palavras junto com o desmascaramento do traidor foi como um soco. Marco me lançou um olhar que dizia mais do que qualquer palavra poderia. Saímos dali com mais perguntas do que respostas, mas sabíamos que, no dia seguinte, a reunião familiar traria verdades que ninguém estava preparado para enfrentar.
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