Fantasmas do passado e o peso do presente

1631 Palavras
Depois daquela noite no bairro industrial, minha mente estava longe de qualquer negociação ou conflito. A imagem de Luna permanecia viva, como se tivesse sido gravada a ferro e fogo em minha consciência. Cada vez que fechava os olhos, via o brilho nos olhos dela, aquele jeito despreocupado de caminhar, como se o mundo ao redor fosse apenas um detalhe. Não consegui dormir. Me sentei na poltrona do meu quarto, com o copo de uísque na mão, algo que nunca foi parte de mim, mas agora parecia uma fuga inevitável. Eu sempre repugnei a ideia de depender de qualquer coisa para enfrentar meus problemas, mas naquela noite, o álcool era a única válvula de escape que encontrei. Cada gole queimava na garganta, mas era uma dor menor comparada à tormenta que se passava dentro de mim. O líquido âmbar girava no copo, e meus olhos se fixavam nele, como se pudesse encontrar respostas nas espirais de sua textura. A presença dela havia rasgado uma ferida que nunca cicatrizou por completo, expondo memórias que eu tentava enterrar. Luna era mais do que um amor; ela era a lembrança de uma versão de mim mesmo que eu sabia nunca mais poder ser. Pensar nela me fazia enfrentar um abismo, um duelo constante entre o que eu queria para mim e o que a realidade exigia. O peso disso era um fardo que parecia esmagar minha alma. Conheci Luna no colégio, no ensino médio. Ela era nova na escola, e lembro como sua presença parecia iluminar o lugar. Desde o primeiro momento em que a vi, algo nela me chamou a atenção. Era como se o mundo ao redor dela tivesse mais cor, como se a sua energia fosse impossível de ignorar. Era impossível não reparar nela, e antes que percebesse, eu já estava ansioso por qualquer oportunidade de me aproximar. Era impossível não notar seu jeito descontraído e seu sorriso contagiante, que logo cativaram a todos, inclusive a mim. Éramos da mesma sala, e com o tempo, nossa amizade se transformou em algo mais. Luna era diferente de qualquer pessoa que eu já havia conhecido, tão sonhadora e cheia de vida, enquanto eu me escondia atrás das sombras do meu mundo. Nossos encontros se tornaram cada vez mais frequentes nos intervalos entre as aulas, na cantina, ou sempre que dávamos um jeito de fazer os trabalhos em grupo juntos. Falávamos sobre tudo: música, filmes, os lugares que queríamos conhecer. Luna era uma sonhadora. Queria abrir sua própria galeria de arte, enquanto eu fingia entusiasmo ao dizer que estudaria administração, uma mentira para esconder a verdade sobre o "negócio da família". Eu me perdia nela. Na simplicidade, no jeito leve de ver o mundo, no calor que trazia aos meus dias no colégio e, mais tarde, às minhas noites frias. Até que, um dia, tomei coragem. No pátio da escola, sem muitas formalidades, pedi que fosse minha namorada. Minhas mãos tremiam, e as palavras quase não saíam, mas quando finalmente perguntei, ela riu, aquele riso único, cheio de luz e disse sim. Naquela dia, a convidei para sair. Escolhemos um filme qualquer nem lembro qual era, porque minha atenção estava toda nela. No cinema, nossas mãos se tocaram de leve no apoio do braço, até que, aos poucos, os dedos se entrelaçaram. Meu coração batia forte, e eu sabia que o dela também. No momento certo, me aproximei, e nossos lábios finalmente se encontraram. O beijo foi suave no começo, tímido, mas logo se tornou intenso, cheio da emoção daquele começo de algo novo. Quando o filme terminou, saímos de mãos dadas, rindo à toa, como se o mundo ao redor tivesse parado só para nós dois A partir dali, ela trouxe cor aos meus dias e, ao mesmo tempo, um peso inesperado. Cada sorriso que compartilhávamos era um lembrete da vida que eu queria, mas que o meu mundo fatídico me impedia de oferecer a ela. Esconder a verdade sobre minha família foi um tormento constante, mas preferia isso a arriscar que ela soubesse o que realmente acontecia por trás da fachada. Mas a verdade é que meu mundo não era compatível com o dela. Decidir terminar foi a coisa mais difícil que já fiz. Lembro-me da noite em que a levei para jantar e, entre conversas forçadamente casuais. A cada sorriso de Luna, a dor dentro de mim aumentava. Era um tormento carregar o peso da minha família, repugnando cada aspecto daquele "negócio" sombrio. Fingir para Luna que minha família fazia negócios legítimos com grandes empresas era como viver em uma prisão de mentiras. Finalmente, com o coração apertado, joguei aquele golpe c***l. — Luna, acho que nós dois precisamos de um tempo. Ela me olhou, confusa, depois ferida. Seus olhos brilharam com lágrimas que ela se recusava a derramar. — Um tempo? Por quê? É alguma coisa que eu fiz? A dor na voz dela foi como um soco no estômago. Mas eu mantive a expressão fria. Precisava protegê-la, mesmo que isso significasse destruí-la por dentro. — Não é você, Luna. Sou eu. Meu mundo é complicado, e você merece algo melhor. Ela saiu sem olhar para trás, e eu fiquei ali, vendo minha própria vida desmoronar em silêncio. Desde então, a lembrança dela foi uma constante, um fantasma que eu carregava comigo. Cada dia, eu me perguntava se havia feito a escolha certa. Eu só queria protegê-la da minha própria família. Não queria que ela soubesse quem eles eram e o que faziam. Terminar com ela foi minha maneira de garantir sua segurança, mesmo que isso significasse carregar a dor de perdê-la para sempre. [...] A manhã seguinte chegou trazendo um novo peso. m*l tive tempo de processar o impacto da visão de Luna antes de ser convocado para mais uma reunião familiar. O salão de reuniões estava cheio. Meus tios e primos ocupavam seus lugares habituais, e o clima era tenso como sempre. Sentei-me na cabeceira, o lugar que antes pertencia ao meu pai. Marco foi o primeiro a falar. Ele colocou na mesa relatórios detalhando as demandas de distribuição de uma nova remessa de drogas. As folhas estavam cheias de números e gráficos, mas o que chamou minha atenção foram os comentários anotados à margem. "Estão pressionando por entregas mais rápidas" e "Cuidado com possíveis desvios no percurso" eram alertas que não podiam ser ignorados. Enquanto analisava os documentos, senti um peso crescente. Cada detalhe parecia gritar a complexidade do mundo que agora eu liderava, e o nó no meu estômago apertava com a percepção do que estava por vir. Meu tio Enrico, interrompeu quase imediatamente, sua expressão carregada de desdém, os olhos fixos em mim como se quisesse medir cada reação minha. Seu tom frio e cortante trouxe à tona um clima ainda mais tenso na sala, e por um momento, senti como se o ar tivesse se tornado pesado demais para respirar. — Antes de falarmos de logística, precisamos discutir a segurança, — disse ele, com o tom sempre autoritário. — Matteo, é verdade que você foi àquela reunião com o grupo local desarmado? Assenti, tentando manter a calma. — Sim. Achei que resolver pacificamente seria mais eficiente. Meu tío riu, mas não de um jeito amigável. — Pacífico? Você acha que esses homens respeitam palavras? Eles respeitam força, Matteo. Respeitam uma arma apontada para suas cabeças. — Max nunca os deixaria falar tanto, — outro primo comentou, com desdém. Engoli a raiva que subia pela garganta. Sabia que eles esperavam uma reação minha, mas não lhes daria esse prazer. — Resolver sem violência evita escaladas desnecessárias, — argumentei. — Mas entendo a necessidade de estar preparado. Vou rever minha abordagem. [...] Depois da reunião, Marco veio atrás de mim. Andamos juntos pelos corredores da mansão, o silêncio entre nós era mais pesado do que o ar. — Matteo, você sabe que eles estão certos, certo? — Marco finalmente quebrou o silêncio. — Certos sobre o quê? Que eu deveria ter apontado uma arma para a cabeça de cada um deles? Marco suspirou. — Não é isso. Mas você precisa entender que, nesse mundo, estar armado não é uma opção. É uma necessidade. Seu pai sabia disso, e por isso tentou te ensinar desde cedo. — Nunca quis aprender, Marco. Nunca quis esse mundo. Você sabe disso melhor do que ninguém. Carregar o peso desse legado sempre me atormentou, mas agora é como uma prisão da qual não posso escapar. Ele parou, me olhando nos olhos. — Eu sei, mas agora você está nele. E se não estiver preparado, vai acabar morto. Não é uma questão de escolha. É sobrevivência. As palavras dele eram duras, mas verdadeiras. Suspirei, sentindo o peso da realidade me esmagar mais uma vez. — Então me ensine. Se é assim que tem que ser, quero aprender. Mas faremos do meu jeito. Sem transformar isso em um espetáculo para a família. Marco assentiu. — Justo. Vamos começar amanhã. [...] Naquela noite, deitei na cama, mas o sono não veio. A lembrança de Luna e a conversa com Marco se misturavam na minha mente, criando um turbilhão de emoções que parecia impossível de conter. Eu me sentia preso em uma tempestade, com cada memória de Luna trazendo à tona a culpa de tê-la afastado e cada palavra de Marco ecoando como um lembrete do mundo implacável em que eu estava mergulhado. Tentava desesperadamente encontrar um sentido, uma forma de conciliar o que sentia com o que precisava fazer, mas a sensação de estar dividido entre dois mundos não me dava trégua. Eu me sentia preso em um ciclo interminável de escolhas impossíveis. Entre proteger minha família e preservar minha alma, onde estava o equilíbrio? O peso do passado e do presente parecia esmagador, mas uma coisa era clara: eu não podia mais fugir.
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