Karina Velásquez...
Acordando apenas quando alguém se decidiu por me telefonar, deixei a ligação cair enquanto tentava criar alguma coragem para finalmente deixar a cama. Estava longe do início do dia, e por isso não estranhei que fosse eu a única ainda caída sobre aquele colchão.
Quando enfim consegui mover meus músculos para fora daquele quarto após fazer todas as minhas higienes, senti meu sangue ferver ao ser recebida por uma discussão nada agradável ao lado de fora, mas com a porta aberta. Estava claro, queriam evitar que o problema fugisse dos seus blocos pessoais, mas para o bem ou para m*l, acabeu por ouvir cada palavra.
– A gente estar junto, não quer dizer que você tenha alguma autoridade sobre mim, VG – Lia não estava bem, sua voz seguia um tom diferente daquele que era conhecido por mim. Independente dos motivos por trás daquele diálogo, isso estava a afetando diretamente.
– Sou eu quem esteve com você nos momentos ruins quando ela foi embora, Cecília. Eu te ajudei a cuidar do porre da EJ, não ela! – a grosseria do tom usado logo me incomodou, mais do que isso, foi a sua afronta. Quem ele pensava ser pra falar assim da minha irmã? E diretamente com a minha prima? Só podia estar de m*l com a vida.
– Está falando da minha prima, VG, não sabe os motivos dela pra ter ir embora. E sabe que vou sempre escolher a minha família, principalmente se essa família for a Karina – Lia era mesmo o meu 'a mais no mundo, não havia como dizer menos dessa otária.
– Isso não me importa, devia ser eu na merda daquela cama essa noite, eu sou o seu namorado, não elas! – me segurei para não rir diante o seu apelo, e me segurei ainda mais para não me fazer presente frente ao assunto tratado. Mas não precisei rir da sua cara de i****a, Lia o fez por mim.
– Não me vem com essa, VG – se encostando no batente da porta, sorriu ao me ver parada ao lado da janela, apenas os observando – Se esse é o problema, pode ir embora, namorado eu arrumo outro – aquele foi o auge, vi nascer dos olhos dele um ódio gritante. Seu ego havia sido ferido, Lia soube o que dizer no momento certo, mas focando apenas naquilo que me lembrava, conseguia enxergar o quanto ele havia mudado. De todos, com certeza foi quem mais sofreu com mudanças.
– Não me teste, Cecília – praticamente rosnando entre dentes, disse firme ao puxá-la para perto pelo braço. Aquilo me soou muito como uma ameaça, e apenas para não correr riscos, me debrucei sobre a janela.
– Perdeu a noção do perigo, Vitor? – mantendo a sutileza em meu tom, me fiz presente ao fitar com agressividade a sua atitude contra alguém que valia tanto quanto o mundo pra mim.
– Você não morre tão cedo garota – soltando o braço de Lia, ele sorriu debochado elevando os braços em sinal de paz. Mas não engoli esse seu ato, não acreditei muito em sua atitude.
– Devo considerar isso um aviso, Goncalves? – nada ele me responder, apenas deu de ombros enfim abaixando suas mãos, então foi a minha vez de sorrir – Não faz ideia de com que está brincando seu i****a – fazendo um sinal qualquer no ar, o mostrei ao lado de quem estava o verdadeiro poder ao atrair seus parceiros já armados e ao meu comando – Por favor, queiram acompanhar o sub-dono do morro para longe daqui antes que eu perca a minha paciência.
– Vamos embora VG – chamando pelo seu superior, observaram como o palhaço ainda me desafiava antes de sacarem suas armas como meio de intimidação. Então me dei conta de que algo estava mesmo muito errado com aquele escroto de merda – Vamos cara, sabe que é ela quem realmente manda aqui – fechando o semblante ao me fitar com toda a sua raiva, respirou fundo e me deu as costas antes de seguir junto dos seus.
– Já vai tarde, palhaço! – recebendo em troca apenas um dedo erguido, neguei minha própria atitude e voltei a porta para checar se tudo estava em ordem com o emocional da minha prima – Você está bem?
– Claro, ele não me assusta – exibindo um divertido sorriso em minha direção, liberou o local que antes era seguro por ele para que eu pudesse estar olhando.
– Isso vai ficar marcado por alguns dias – não estava satisfeita com essa conclusão, mas iria tomar providências para que isso não voltasse mais a acontecer – O que houve por aqui durante a minha ausência, Lia?
– Não aconteceu muita coisa, a calmaria parecia ter se estabelecido desde que você foi embora, e junto dela veio as mudanças de alguns de nós ao longo dos meses – se sentando sobre o sofá, soltou um longo suspiro ao me dedicar o seu mais singelo olhar – Ele meio que te culpa pela morte do DG, mas eu não vejo assim, nenhum de nós vê.
– Obrigada por estar sempre do meu lado Lia, mas isso não é motivo pra ele te tratar desse jeito. Relacionamento abusivo nunca termina com um final feliz, e espero que saiba disso, porque se ele voltar a encostar as mãos em você com sinal de agressividade outra vez, poderão me culpa por tirar a vida dele sem nem mesmo pensar em exitar – segurando com firmeza a sua mão, garanti a minha posição enquanto digeria aquilo que me era dito, pois conseguia aceitar que ele possuía alguma razão sobre suas acusações, mas minha posição continuava sendo a mesma.
– Não precisa disso, Kar.
– Eu cuido daqueles que são importantes pra mim, Lia – reafirmando o meu ideal, respirei fundo ao ouvir meu celular tocando pela segunda vez naquele dia – Vou dar uma volta por aí, tudo bem? – ela apenas assentiu enquanto eu me colocava de pé – Me liga se precisar de mim.
– Tchau, Kar.
Para Cecília, era novo ter alguém além do tio Sam se preocupando tanto com o seu bem estar. Afinal, era sempre ela quem vivia dando a cara a tapas para ver o meu bem. Foi assim quando cheguei aqui, me lembrava dela tentando segurar a minha barra frente a Dayse. Mas hoje o jogo era hoje, ela não tinha mais que se preocupar comigo daquela forma, podia se focar em cuidar apenas de si mesma, e claro, de Erika acima de tudo. E se por algum motivo ela não conseguisse o fazer, ali entraria as minhas ações. Não iria permitir que merda alguma tocasse na minha família, não enquanto estivesse em minhas mãos a possibilidade de poder fazer algo.
Vitor Gonçalves, você está marcado em minha lista e nem mesmo faz ideia disso ainda seu filho da put@ desgraçado. E quando menos estiver esperando, irá se dar conta de que nunca blefo em minhas ameaças, muito menos deixo vago um simples aviso.
– O que pensa que está fazendo aqui? – meus pensamentos estavam sempre atraindo o que não prestava pra cima de mim, e a prova pra isso é ser abordada justo pelo VG ao chegar nessa porcaria de lugar.
– Me lembrava disso aqui mais organizado – o ignorando por completo, analisei um pouco mais o estado do que era considerado o melhor ponto de distribuição do morro de acordo com os documentos arquivados pelo meu pai, e algo ainda produtivo pouco antes da minha partida de volta para a capital.
– Hey! Eu falei com você, merda! – sequer uma hora completa havia se passado desde a nossa desavença por causa da minha prima, e ele voltava a me testar. Talvez esperasse que estivesse lidando com a garota manipulável de um ano e meio atrás, mas isso não tem acontecido desde aquele dia, pelo qual ele deposita em meus ombros a culpa por trás do desfecho.
– Cala a boca, não fala mais comigo – me virando de frente pra ele, o olhei de baixo devido a sua alta estatura – Na posição que carrego hoje, eu falo e você escuta, entendeu bem ou quer que eu desenhe? – estava cansada daquilo tudo, de ver como o seu ego parecia ser maior do que a minha autoridade. Se tinha algum problema pessoal comigo, que viesse tratar disso diretamente. Não estava fugindo, não estava devendo nada para ninguém, estava disposta a tudo para provar o meu valor.
– Entender? – ele riu ao desviar o olhar por breves segundos antes voltar a me encarar com uma frieza que desconhecia em seu ser – Eu não tenho nada para entender garota, não sou como os outros que puxam o seu saco só por ser filha de quem é, pois essa é a verdade. Eles te respeitam por causa do seu pai, não porque você se intitula a chefe de tudo isso agora. Afinal, os seus erros são mais do que o suficiente para provar que esse cargo não é pra você, criança mimada – quando vi, já havia deixado a minha mão marcada em sua face, e não me surpreendi ao ter minhas costas forçada contra a parede mais próxima que ele encontrou.
– Você é grande Vitor, mas não é dois – com um sorriso estampado em meu rosto, disse olhando para baixo, onde minha arma já se via engatilhada e apontada para o seu abdômen.
– Mas que merda está acontecendo aqui?! – surgindo do inferno, Dayse gritou aos quatro cantos para chamar a nossa atenção da forma que pôde. VG estava no seu limite, podia sentir a força da sua respiração fluindo de forma brusca, agredindo suas narinas por não poder fazer mais nada além daquilo no momento.
– Afasta o seu cão de guarda de mim, ou irá ficar sem ele Jhonson – levando o cano da arma até o seu peito, observei a pressa exibida por Dayse ao puxá-lo pelo braço.
– O que houve, VG? – realmente buscando por uma resposta vinda do amigo, questionou preocupada com a cena presenciada. Mas era de se esperar que ele não estivesse ali para conversar, pois devia ser claro que a sua única intenção era me provocar. E devo confessar que quase deu certo. Contudo, guardei minha arma enquanto observava sua caminhada para longe de mim.
– Se pudesse, ele já teria me matado – comentando mais para mim do que para quem estava ao meu lado, respirei fundo levando as mãos até os bolsos da calça que vestia. Porém, em relação a este meu comentário, nada ela disse, o que indicava alguma concordância da sua parte.
– Posso saber o que está fazendo aqui? Quero dizer, exatamente aqui? – me tirando um divertido sorriso, perguntou curiosa. Mas não havia o que responder no momento, estava apenas caminhando, tentando ao máximo não atender a insistente chamada feita pelo advogado do meu pai.
– Não acredito que eu deva satisfações sobre o que faço por aqui, diferente de você, não é? – a provocação era tudo o que vinha em minha mente, precisa me divertir um pouco, amenizar a seriedade do que era o meu trabalho.
– Não me provoque, Karina, sabe que não respondo por mim.
– O poder do crime do estado está em minhas mãos, Dayse. Quer que eu diga mais o quê?
– Não vou dizer outra vez, marrenta do c*****o – foi impossível não sorrir.
– Disso eu gostei.