Pelos velhos tempos

2077 Palavras
Dayse Jhonson... O assunto com VG fluía tranquilamente, nossos pontos de vista pareciam enfim ter se encontrado. Mas ele estava certo em um ponto específico, onde Lia devia ser mais apegada a ele já que estavam juntos, porém, Erika viria sempre em primeiro lugar, algo que já devia ser claro, algo que eu mesma estava sempre o lembrando. Por mais que alguma razão o pertencesse, seria impossível fazê-las aceitar que uma certa distância devia ser estabelecida, isso estava fora de questionamento, e não havia nada que pudesse ser feito em relação a isso. '– DJ, na escuta? Fazia algum tempo que não me acionavam pelo rádio, a paz parecia reinar nas últimas semanas. Então, ao ouvir aquele chamado logo me pus em prontidão. Devia ser algo importante, ou já teriam resolvido por conta própria. '– Pode falar. '– Acabo de avistar um carro estranho pelas ruas da comunidade, quer que eu o pare ou posso apenas continuar o acompanhando? Aquilo era novo, pois devido ao que se sabe sobre o nosso ambiente, ninguém passa pela entrada sem antes se identificar. Ao menos não aqueles que prezam a própria segurança. Existia algo de diferente nessa situação. '– Prossiga com o acompanhamento, e me informe quando ele não estiver mais em movimento. Era o certo a se fazer naquele momento, e uma resposta não era necessária diante a ordem dada. Encerrando o contato, me pus a pensar em alguém que fosse i****a o suficiente para se achar no direito de desfilar por essas 'bandas como se fizesse parte da nossa população, mas não me vinha ninguém a mente, não importava o quanto pudesse me esforçar pra isso. Quando finalmente recebi o aviso de onde o veículo havia se estacionado, tratei logo de mandar uma mensagem para Erika. Estava atrás de informações, e como não consegui muitas com meu 'foguete, esperava que ela pudesse me ajudar com isso. Porém, derrubando todas as minhas expectativas, vi minhas mensagens serem visualizadas e ignoradas, assim como minhas chamadas foram todas para a caixa postal. Estava claro, independente de quem estivesse com elas, não queriam falar com a gente. Assim como minha irmã, Lia também fez questão em não dar sinal de vida para VG, mas a paciência se esgotou quando finalmente se mostraram estar de olho na tela do celular ao termos nossas chamadas encerradas diretamente. – Isso só pode ser brincadeira – ele estava mesmo muito irritado, diferente do Vitor que conheci quando ainda era apenas uma novata deslocada na função que ocupo hoje. Desde que perdemos o DG ele não era mais o mesmo, mas enquanto não me prejudicasse em nada, não estava de fato muito preocupada. A situação estava sobre o meu controle. – Venha, vamos pessoalmente até a fonte do problema – levando o aparelho até o bolso, peguei as chaves da moto e saí de casa já acelerando pelas vias que encurtavam o caminho até a casa de Cecília. VG estava logo atrás de mim, e foi ele quem rapidamente adentrou aquele espaço como se estivesse buscando motivos para brigar. Na realidade, talvez ele realmente estivesse, mas isso não aconteceria hoje. Tive ainda mais certeza dos meus pensamentos quando a vi intervindo pela prima daquela forma. Não pensei que fosse ter a sua presença de volta aos territórios alemães tão cedo, mas confesso não ter me abalado da forma que pensei que fosse acontecer. No fim, optar por retornar ao meu velho eu estava surtindo mais efeito que o realmente esperado. Talvez devesse ter o feito há mais tempo, mas tudo contava, ainda era possível recuperar as rédeas do que era do meu comando. Ela estar de pé a minha frente em uma postura tão dura não me intimidava, estava pronta para tudo aquilo. Mas algo precisava ser aceito e não podia ser negado em hipótese alguma. Ela havia sofrido com mudanças além dos olhos. Mantendo uma postura tão firme quanto a sua ao trazer VG de volta para o meu lado, me permiti uma breve análise sobre a nova figura que me era apresentada. Afinal, a versão que conhecia não parecia estar guardada em nenhum lugar daquela que invadia o meu olhar. O amadurecimento lhe caía bem, e o poder que agora se via sob todo o seu controle não era diferente. Os novos trajes deixavam claro a sua posição, o novo visual lhe cedia tudo o que era necessário para reconhecer o quanto este tempo longe lhe fez bem. – Verdade, havia me esquecido de quem você se tornou – não era a minha intenção, não queria me prender aos fatos do passado. Mas quando me dei conta, já havia deixado escapar cada palavra. – Sério mesmo? – dando um passo em minha direção, segurou meu olhar com agressividade ao estar a menos de cinquenta centímetros de distância – E quem eu me tornei, Srta Jhonson? – podia sentir toda a calmaria de sua respiração, mas não me agradei do modo em que ela se referiu a mim. Automaticamente meus braços se cruzaram atrás do corpo enquanto minha sobrancelha se arqueava instantaneamente. – Isso com certeza não é da minha conta – optando por não buscar uma afronta logo cedo, observei a dupla bem postada em suas costas apenas acompanhando toda a cena. Com isso eu respirei fundo – Pretende ficar aqui por quanto tempo? – Esse é o meu lugar, não tenho que programar horários para permanecer aqui. Quando achar que está na minha hora, irei embora. Mas deve estar ciente de que isso pode nunca acontecer de verdade – aquilo era uma espécie de afronta, podia sentir. Porém, não iria cair em seu jogo, estava ciente dos limites estabelecidos. – VG, vamos embora, não tem mais espaço pra você aqui – estava claro que ela ficaria junto da prima, e por mais que quisesse, ele não teria vez, nem mesmo opinião neste assunto. – Era só o que me faltava – revoltado com o ocorrido, deu as costas saindo em minha frente. – Foi um prazer voltar a vê-lo, Vitor! – ela só podia estar de gozação com a nossa cara, não existia uma explicação diferente pra isso. – Conversamos em casa, Erika – alertei ao notar o olhar cúmplice trocado com Cecília, mas percebi que minha dor de cabeça estava apenas começando. – Ela passará a noite conosco hoje – sorriu se colocando entre as duas – Momento em família, entende? Em meio a situação formada, não disse nada, apenas direcionei meu olhar sobre a ruiva e respirei fundo para o seu aceno positivo. Se quisesse realmente ter algum diálogo com ela, teria de esperar pela minha vez. Afinal, se existia alguém neste morro que sentia imensamente a falta de Karina tanto quanto sua prima, esse alguém era a minha irmã. No fim, não era eu a primeira da fila de prioridades. – O que vai fazer agora? – entendia o que ele queria dizer com aquela pergunta, mas não existia nada que eu pudesse fazer, a verdade era essa. – Por mais que eu queira expulsá-la daqui sem a contestação de ninguém, não é algo que possa fazer – virando a chave na ignição, olhei para trás apenas para encontrá-la nos observando pela janela – A filha da mãe possui tanto poder quanto eu aqui dentro, talvez até mais. – E você tinha mesmo que irritá-la no passado, não é? – sério ou não o seu dizer, apenas respirei fundo e acelerei para longe de olhos tão desafiadores. Precisa de espaço, pensar em como agir com a situação que começava a se forma em minha vida. Karina Velásquez estava de volta, mas qual o motivo pra esse retorno? O que pode ter acontecido para que ela tenha se decidido a aparecer pessoalmente depois de um ano de ausência? Desde a sua partida, suas intervenções em minhas ações quase não existiam, tudo estava cem por cento sob o meu comando, assim como era com o seu pai antes da traição vinda do GK. Pensei mesmo que as coisas estavam retornando para a normalidade que era apresentada antes de nos conhecermos, mesmo com seus emissários dando as caras uma vez a cada seis meses, duas vezes no ano. Mas agora com a sua volta, vejo que problemas poderão surgir a qualquer momento, pois não estou aqui para abaixar a cabeça pra ninguém, muito menos pra ela. f**a-se quem está no topo da cadeia de comando, isso não importa, tão pouco me causa preocupação. – Vai com calma DJ, olha por onde anda – parando em sua frente em uma freada brusca, analisando a sua presença, me perguntei o que ela estaria fazendo aqui. Sendo assim, respirei fundo ao descer da moto assim que a estacionei frente a minha casa, joguei as chaves sobre a mesa pela janela e lhe cedi alguma atenção. VG estava logo atrás de mim. – Géssica, devo mesmo perguntar o que está fazendo aqui? – me sentando no meio fio, aceitei o cigarro que me era entregue por VG. Enfim havia se posto ao meu lado. – Quando foi a última vez que te vi tragando um desses? – sua questão era válida, nem mesmo conseguia me lembrar do motivo que me fez largar esse vício, mas lembrava muito bem do motivo que me trouxe de volta a ele. Estava apenas tentando relaxar, espairecer a mente antes de surtar de vez. – Eu fiz uma pergunta, e todos sabem que não costumo repetir minhas palavras – não era uma ameaça firme, apenas um aviso que parecia estar sendo entregue ao esquecimento. Afinal, mudanças fora dos padrões estavam denegrindo a minha imagem há algum tempo. Seria necessário mais do que apenas algumas palavras para mostrar quem ainda reinava na liderança daquele morro. – Fiquei sabendo do retorno da Karina – claro que era isso, mas como tal notícia chegou tão rápido em seus ouvidos era a dúvida presente no momento. – Como sabe disso? – VG gostava de informações, mas quando estava puto com algo, ele se tornava ainda mais irritante com isso. A marrenta havia chegado causando. – Eu sei de muita coisa, principalmente quando isso pode me atingir de alguma forma – que ela não engolia a Velásquez não era uma novidade pra ninguém, mas depois do ocorrido contra a rocinha, realmente pensei que isso fosse ser deixado para trás. – Vamos Géssica, não me faça perder a paciência que não ando tendo muita – cansada daquele jogo, impus logo um ultimato. Ela então sorriu em negação, gostava de me provocar. – Ouvi boatos pelas vielas da Rocinha, e pela cara de vocês, eles não estão errados. Mas porque ela voltou? Alguém sabe? – A curiosidade nunca fez bem a ninguém, gata – nos deixando a sós, VG disse dando as costas enquanto saía. Ele havia se enchido de tudo aquilo, devia estar buscando algo para aliviar a mente, e não o encontraria aqui em casa. – Não esquece que ainda preso, VG! – o alertei antes de o perder de vista, e tudo o que recebi como resposta foi um dedo erguido em minha direção – Filho da put@ desgraçado. – Que bicho mordeu ele? – sua preocupação era desnecessária, e não caía bem em seu modo de agir. – Você não veio aqui apenas sondar a chegada daquela marrenta, Géssica. Eu sei disso, e você também sabe – segurando seu olhar ao finalizar o cigarro em minhas mãos, vi um sorriso presunçoso nascer no canto dos seus lábios tomado por uma coloração diferente daquela com a qual me acostumei. – Gosto daqui, mesmo não sendo o meu lugar – sua confissão me parecia ser sincera, consegui sentir isso pelo modo como seu corpo reagiu as próprias palavras ditas. Era raro vê-la falando a verdade, mas estava acontecendo naquele exato momento. – Ninguém te obrigou a voltar para a Rocinha, deixamos a decisão nas suas mãos – lembrei enfim me pondo de pé. A noite começava a dar seus indícios. – Por isso recusei a posse do morro, sabia que não a merecia – não iria lhe dizer, mas Karina só ofereceu aquele posto porque sabia que ela negaria. Aquela foi a sua maneira de se sentir grata por sua ajuda depois de tanta traição. – Claro, entendi – abrindo a porta para poder me retirar das ruas naquele momento, a analisei com mais atenção – Vem, entra. – Pelos velhos tempos? – ironicamente, acabei por sorrir enquanto assentia. – Claro, pelos velhos tempos.
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