Karina Velásquez...
Um ano, já faziam 365 dias que estava presa aos solos da capital. Havia feito um pouco de tudo desde o pouso do avião há 12 meses atrás, mas ainda sentia que faltava algo. Ao fim, era sempre assim, papai me alertou quando o visitei algumas semanas depois de me firmar naquela que ainda era nossa propriedade. Em uma de nossas muitas conversas, ele me contou como era ter que se ausentar quando mamãe estava perto de dar a luz a sua segunda filha, ou seja, eu. Diante tudo aquilo, ouvindo as suas palavras e o modo como a emoção se refletia em seu olhar, me perguntava se estaria mesmo fazendo exatamente aquilo que julgava ser o certo, ou se estava apenas tentando fazer juízo ao seu legado. Era difícil, a única verdade dentro de todo o ocorrido era essa, não tinha mais nada para pensar ou aceitar.
Resolver inúmeras questões 'burocráticas' se tornava o meu maior afazer dentro do escritório onde recebia todo o auxílio necessário vindo do tio Sam, mas isso não era tudo. De volta aos treinamentos que me fizeram odiar a persona do irmão do meu pai, conseguia enxergar a minha mudança ao passar de cada dia, ao fim de cada semana corrida dentro de academias e testes de resistência. O mês parecia voar, e assim o ano chegou ao seu fim como uma brisa passageira.
Presa ao que agora se tornava o meu único negócio de progresso, me pondo frente ao espelho durante todas as manhãs observava o modo como aquela nova rotina foi capaz de me modificar no decorrer do longo, porém curto tempo. Algo em mim havia mudado, aquele ar de menina marrenta parecia não existir mais, havia dado lugar para alguém mais cabeça, mais responsável, mais madura e dona das próprias ações. Karina Velásquez estava de férias, Rina Vasconcellos era quem comandava a crescente Velavaz, a máfia que nos últimos meses se tornou a organização criminosa mais procurada pelas autoridades mais capacitadas.
Não devia ser sinal de orgulho, mas sim de preocupação, porém, meu pai não soube esconder o orgulho que sentiu ao receber tal notícia. Afinal, estar no radar da Polícia Federal brasileira e na mira do FBI significava estar crescendo frente aos grandes.
– Não esquece de me mandar aqueles arquivos até o fim da tarde, mandarei uma mensagem quando chegar – checando o chamado do voo, o vi respirar fundo enquanto negava tudo o que ouvia – Não fique assim tio, é só para garantir mesmo.
– Estou ficando velho garota, mas ainda sou capaz de fazer com apenas um braço o que sua geração não faz com os dois – me tirando um divertido sorriso, levou as mãos até os bolsos ao observar a área de embarque ser tomada pelos passageiros. Estava na minha hora.
– Me ligue se precisar, mas não se preocupe em mandar ninguém atrás de mim. Dessa vez eu quero agir por conta própria, assim chamarei menos atenção – não que ele estivesse completamente de acordo, mas desde o fim do meu treinamento, independente de qual fosse a situação, a última palavra seria sempre a minha. Todos os envolvidos naquele processo de cadeia de comando estava ciente disso, ou estava perto de entender.
– Tome cuidado, mas faça o que tem de ser feito. Voltamos a nos ver em breve – aquela era a nossa despedida, não havia mais nada para ser dito naquele momento. Embarcar no avião para mais uma viagem em meu currículo, foi isso o que me restou para mais um passo daquela nova caminhada em minha vida repleta de aventuras.
Não estava planejando retornar para o Rio tão cedo, mas algumas circunstâncias se uniram para mudar o meu caminho nos últimos dias. Uma situação inesperada no morro da roçinha atraiu a minha atenção, e apesar de ter encostado aquele ocorrido quando devia ter dado fim a tudo o que me desafiava, ainda não havia me esquecido de tudo o que me custou aquela ação descuidada e m*l pensada. A pedido meu, tio Sam e seus aliados seguiam trabalhando no caso, arquivando tudo o que julgavam ser necessário até o dia de deixar toda sua pesquisa em minhas maos.
Era um trabalho longo, uma dedicação descabível desse mundo. Se existisse um mosquito envolvido naquele processo de tentativa de homicídio, tio Sam e sua equipe teria o achado sem ter tantas dores de cabeça. O trabalho dói demorado, mas muito bem feito. A pasta com a pequena, porém extensa lista de nomes havia sido feita, e os pequenos começariam a cair como uma peça de dominó até chegar em seu superior. Estava ansiosa para estudar aqueles documentos, mas o faria apenas quando estivesse tudo tranquilo. Por hora, tentaria me concentrar no tempo de viagem que iria possuir ao longo do minutos que seguiriam o complemento de mais algumas horas. Havia escolhido um bom horário, chegaria no estado perto do meio dia.
Não estava carregando muita coisa, com uma pequena mala ao meu lado, apenas uma mochila era levada em meus ombros quando passei pela área de desembarque ao pisar em solo carioca outra vez depois de um ano completo e sem manter muito contato com outras pessoas que não fossem minha prima, e bem de vez enquando minha irmã mais velha.
Do lado de fora, assim como o agendado quando programei todo o meu horário para o decorrer deste dia até chegar no local marcado, o jovem rapaz já me esperava com a simples plaquinha que entregava sua agência. Aquele carro me representava muito bem, não precisava de nada mais até aquele momento.
– Srta Vasconcellos, agradecemos a confiança depositada em nossa agência, e a felicitamos pela excelente aquisição – me entregando as chaves do Civic Sport daquele ano, o rapaz sorriu carismático antes de me ceder as costas e se retirar junto à uma moça muito bonita que o esperava na vaga logo atrás. Então respirei fundo, depositei minhas coisas no porta malas e finalmente me pus a guiar o carro naquela movimentada via urbana, enfim sentindo a sutileza oferecida pelo seu volante, junto a todo conforto encorporado pelo estofado. De fato era uma ótima aquisição, não tinha do que reclamar naquele momento, e duvidava encontrar motivos para o fazer futuramente.
Em uma velocidade dentro daquilo que era permitido, não demorei para enfim estar subindo a comunidade que me abrigou quando pensei ter visto o meu mundo desabar. Era difícil a aparição de carros desconhecidos, sabia disso tão bem quanto qualquer um naquele lugar, por isso não fiquei surpresa ao perceber que olhos de águia se mantinham ariscos sobre a minha movimentação.
Sem me importar com as conversas que pareciam estar sendo trocadas pelo rádio de comando, mantive os vidros fechados e parei o carro apenas quando estava frente ao canto que ainda me lembrava ser o de Lia. Não tinha certeza de nada desde a minha saída do morro, por isso optei por bater a porta ao invés de já ir entrando como era do meu costume anteriormente. Com as mãos presas aos bolsos e o óculos escuros cobrindo os meus olhos enquanto os longos fios do meu cabelo cobriam as costas da camisa social que combinava perfeitamente com o jeans escuro da calça que vestia, esperei que alguém viesse me atender, e não evitei sorrir ao ver que ainda era a casa dela ali.
– Kar? – diante o seu tom de surpresa, removi os óculos e encarei a emoção do seu olhar antes de a receber dentro do meu abraço.
– É muito bom te ver outra vez, Lia – deixando que as palavras fluíssem de modo natural, aceitei o leve distanciando enquanto adentrava o espaço da sala ao fechar a porta logo atrás de mim.
– Já estávamos nos perguntando quando você iria voltar, e se ficaria por algum tempo considerável quando o fizesse – atraindo a minha atenção de um modo diferente, disse me deixando alerta para quem seria a pessoa ligada a sua frase. Mas pude respirar aliviada ao ouvir sua voz surgindo logo atrás de mim.
– Lia, a comida vai esfriar, já pôs o VG pra correr? – a questão era interessante, mas nada superava a minha felicidade por voltar a vê-la tão bem quanto conseguia me lembrar, e não em pedaços como quando parti daqui – Pirralha! – se não estivesse pronta para as surpresas da vida, teria ido de encontro ao chão no momento em que senti seu peso sendo jogado sobre mim sem prévio aviso. Meus braços imediamente seguraram o seu corpo, e meu peito pôde se aliviar ao ter minha postura reestabelecida naquele momento – Estávamos falando de você agora mesmo.
– Espero que bem, é o mínimo que podem fazer – segurando seu olhar tão castanho quanto o meu, brinquei a vendo negar com um divertido sorriso no canto dos lábios.
– Senti muito a sua falta, i****a filha mãe – desalinhando meu cabelo assim como quando éramos mais jovens, Lia disse se posicionando ao lado de Erika.
– Nós duas sentimos – se aproveitando o efeito da frase da prima, minha querida irmã enfatizou toda radiante. Realmente sentiram a minha ausência, o brilho em seus olhares enquanto me fitavam intensamente era a única prova necessária para tal certeza acumulada. Era muito bom saber que além do meu pai e o tio Sam, ainda existia mais alguém que continuava a me querer sempre por perto. Talvez nem tudo tenha se resumido em mudanças no fim das contas.
– Eu ouvi que o almoço está esfriando? – tentando não dar tanta atenção para aqueles sentimentos em questão, busquei mudar de assunto rapidamente, algo que deu muito certo. Sorrisos de negação ao se virarem para a cozinha eram a prova irrefutável disso.
– Esfomeada, não tem se alimentado direito na capital? – não era uma pergunta que precisasse ser respondida, o tom de brincadeira deixava tal ponto muito claro. Então apenas dei de ombros, aceitando em seguida o prato já servido que Erika depositava em minha frente enquanto sorria para o comentário de Lia.
– Faz algum tempo que não sei o que é provar do seu tempero, podia me dar um desconto, não acha? – levando um pedaço considerável do bife m*l passado até a boca, me deliciei com todo aquele sabor. Era mesmo muito diferente daquela repetitiva culinária de diferentes restaurantes ao passar desse último ano.
– Esses momentos são os que mais fizeram falta, o que sempre me lembra de quando você chegou aqui – me observando a todo momento, a ruiva comentou me levando de volta para a minha primeira semana nesse ambiente.
– Vocês falavam tão alto que não me deixaram dormir, não tem como me esquecer daquele dia, o meu eu interior queria por fogo em vocês – confessando o meu sentimento daquele dia em questão, vi as duas trocarem um olhar cúmplice pouco antes de sorrirem largo ao me fitarem outra vez. Erika estava certa, esses momentos faziam muita falta.
O clima dividido naquela mesa era o mais agradável possível, os assuntos que se faziam presentes não levava desconforto para nenhuma partes. Estávamos bem, eliminando uma parte da saudade causada pela minha ausência nos últimos meses. O momento era nosso, a recusa de chamadas e mensagens a todo momento ignoradas tornava tudo ainda mais evidente. Porém, devia ser óbvio que em algum momento aquilo seria cobrado.
Negando ambas as atitudes pela terceira vez no decorrer da última hora, observei as duas desligarem seus celulares enquanto viravam por completo todo o conteúdo presente em seus copos. Uma garrafa de vinho nos acompanhava após desistirmos de terminar o que deveria ser um almoço completo. Nosso reencontro parecia ser mais importante naquele momento, mas para quem era posto de segundo plano, isso pouco importava.
– Quem você pensa que é pra desligar a porr@ do telefone na minha cara, Cecília?! – aquele tom não me agradou. Mesmo entendendo o seu ponto, ele não possuía o direito de agir assim, e com certeza não esperava que fosse me encontrar ali. A grosseria com a porta foi aberta me fez retornar para o mesmo alerta que se apossou de mim quando cheguei há alguns momentos atrás.
– Olha como fala com ela, Vitor – me pondo em sua frente sem apresentar sorriso algum, notei seu semblante sofrer com mudanças – Já se esqueceu onde fica o seu lugar?
– Abaixa a bola um pouco VG, já falamos sobre isso mais de uma vez – vê-la ali não me afetou como pensei que fosse acontecer, e com isso eu respirei aliviada – Karina, não sabia que estava de volta, não me informaram nada.
– Minhas decisões Dayse, ninguém precisa ser informado quanto a isso.
– Verdade, havia me esquecido de quem você se tornou.