20 Arthur Narrando

1601 Palavras
Voltar da casa do Enzo deveria ter sido simples. Um dia em família, comida demais, risadas, crianças correndo, tudo dentro do esperado. Mas nada em mim estava normal desde que Victoria tinha voltado para nossas vidas daquele jeito tão… definitivo. Assim que entramos no apartamento, fui direto para o quarto. Precisava esfriar a cabeça. Tirei a camisa, joguei no cesto e segui para o banheiro. A água quente caiu sobre meus ombros, mas nem isso foi capaz de aliviar a pressão que se acumulava no meu peito. O problema tinha nome, sobrenome e um sorriso que me tirava do eixo. Victoria. Saí do banho, vesti uma roupa confortável e peguei meu notebook. Camille, Alana e Benício já estavam animados demais, se arrumando para sair. — Vamos pra balada — Camille avisou, empolgada. — Aproveitem — respondi, sem tirar os olhos da tela. Eles saíram rindo, deixando o apartamento em silêncio. Silêncio suficiente para eu voltar a ser quem sempre fui quando precisava trabalhar: focado, frio, eficiente. Abri os arquivos, comecei a responder mensagens criptografadas, conferir pedidos, autorizar entregas. A Máfia não espera. Nunca esperou. E eu aprendi cedo que erros custam caro. Eu estava concentrado. Ou pelo menos tentando estar. Até sentir. O perfume. Levantei os olhos no mesmo instante. Victoria descia as escadas. Porra. Ela estava linda. Não… linda era pouco. O vestido marcava o corpo de um jeito que parecia feito sob medida para me provocar. O cabelo solto caía pelos ombros, a maquiagem realçava ainda mais os olhos. O celular na mão, a postura confiante, como se soubesse exatamente o efeito que causava. E sabia. — Vou sair — disse, simples. Fechei a expressão. — Com quem? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta. — Com o Murilo. E saiu. Sem olhar para trás. Sem pedir permissão. Sem se importar com o estrago que deixava. Fechei o notebook com força. Murilo. Eu conhecia Murilo melhor do que ela imaginava. Conhecia o sobrenome, o sangue que corria nas veias dele, o império que o aguardava. Ele não era apenas um cara apaixonado. Era herdeiro. Assim como eu. E isso mudava tudo. Respirei fundo, tentei voltar ao trabalho, mas era inútil. As palavras na tela não faziam sentido. O pensamento voltava sempre para a mesma imagem: ela entrando naquele carro com ele. Peguei o celular e disquei um número. — Fala — o segurança atendeu. — Eles já saíram? — Sim. Estão indo jantar. — Fica de olho. Não importa a hora, quero saber quando saírem de lá. Desliguei. Abri o w******p sem pensar. Storie após storie. Até ver. Duas fotos dela sozinha. Sorrindo. Linda demais para o meu bem. Depois outra. Ela e Murilo dentro do carro. Meu maxilar travou. Fechei o aplicativo e larguei o celular no sofá. Fui até o bar, peguei a garrafa de whisky, um copo, gelo. O líquido desceu queimando, mas não o suficiente para apagar a raiva. O tempo passou lento. Cada minuto parecia uma provocação. Quando o celular vibrou de novo, já era tarde da noite. — Eles entraram em um condomínio agora — o segurança avisou. — Qual condomínio? Ele disse o nome. Engoli seco. Era o mesmo prédio dela. Subi para o quarto sem dizer mais nada. Bebi mais um pouco, sentei na cama, a cabeça girando não pelo álcool, mas pela ideia de que ela tinha levado aquele homem para tão perto de mim. Acabei dormindo m*l, pesado, inquieto. Acordei com o celular tocando. — Ele está indo embora agora — o segurança disse. — Sozinho. Sentei na cama no mesmo instante. — Onde? — Do condomínio dela. Fechei os olhos por um segundo. Então levantei. Tomei um banho rápido, me vesti sem pensar muito e fui direto para o quarto dela. Bati na porta. Nada. Girei a maçaneta. A porta abriu. O quarto estava intacto. A cama arrumada. Nenhum sinal de que ela tivesse dormido ali. Desci as escadas com o coração acelerado. Na cozinha, Camille estava sentada à mesa com Alana e Benício, rindo, já tomando café. — Bom dia — disse, tentando parecer normal. — Bom dia — responderam quase em coro. Peguei uma xícara e me sentei. Foi então que ouvi passos. Victoria entrou. Cabelo molhado, roupa trocada, expressão tranquila demais para alguém que tinha passado a noite fora. Meu olhar encontrou o dela. E ali, naquele segundo silencioso, eu soube. Depois que todos terminaram o café, a cozinha foi se esvaziando aos poucos. Camille e Alana subiram juntas, falando sobre cabelo, maquiagem e vestidos, animadas com o salão. Benício se despediu rápido, dizendo que precisava resolver algumas coisas no apartamento dele antes da festa. Victoria também subiu, levando a xícara para a pia, o rosto calmo demais para alguém que tinha passado a noite fora. Fiquei alguns minutos parado na sala, tentando convencer a mim mesmo de que não devia fazer nada. Que o melhor era deixá-la em paz, fingir que nada me afetava, seguir com o dia como se eu não estivesse sendo consumido por dentro. Não funcionou. Subi as escadas decidido, o sangue quente correndo nas veias. O quarto dela estava com a porta encostada. Empurrei devagar e entrei. Victoria estava de costas, escolhendo uma roupa em cima da cama. Usava apenas um roupão leve, o cabelo ainda úmido caindo pelas costas. Fechei a porta atrás de mim. Ela se virou no mesmo instante, surpresa nos olhos. — Arthur… Não dei tempo para ela terminar. Cruzei o quarto em dois passos e a segurei pela cintura, puxando-a contra mim. Senti o corpo dela enrijecer por um segundo, antes de relaxar, como se aquela proximidade despertasse algo que ela não queria admitir. — Isso acaba agora — falei baixo, firme. — Eu não quero você perto de homem nenhum. Ela piscou, incrédula, e então riu. Um riso curto, provocador. — Você enlouqueceu? — perguntou. — Eu sou solteira. Não te devo explicação nenhuma. Aquela risada foi como gasolina no fogo. Apertei um pouco mais a cintura dela, sentindo a respiração acelerar. — A noite foi boa? — perguntei, a voz carregada. Ela ergueu o queixo, desafiadora. — Foi — respondeu sem hesitar. — E se eu quiser, posso ter outras iguais. Com ele ou com quem eu quiser. Alguma coisa em mim se rompeu naquele instante. Não pensei. Não calculei. Apenas inclinei o rosto e a beijei. Foi um beijo bruto, carregado de tudo que eu vinha segurando há tempo demais. Não pedi permissão. Não fui delicado. Era como se meu corpo exigisse aquilo. Victoria arfou, surpresa, mas não se afastou. Pelo contrário. As mãos dela subiram para o meu peito, me empurrando por um segundo… e depois me puxando de volta. Ela correspondeu. O mundo se estreitou naquele quarto. O gosto dela, o perfume, o calor do corpo colado ao meu. Minha mão subiu pelas costas, sentindo cada curva, cada reação involuntária. O beijo era fome, raiva, desejo e algo mais perigoso que eu não queria nomear. Quando me afastei, foi com esforço. Mantive o rosto próximo ao dela, as testas quase encostadas, a respiração pesada. — Você sentiu — murmurei. — Eu senti. Ela não respondeu. Os olhos estavam escuros, os lábios levemente inchados. Aquilo me atingiu mais forte do que qualquer palavra. Endireitei o corpo, dando um passo para trás antes que perdesse completamente o controle. — Não importa o que você pense — falei, agora mais frio. — Você é minha. Virei as costas antes que ela pudesse responder. Saí do quarto com o coração disparado, a mente em caos. Entrei no meu quarto e fechei a porta, apoiando as mãos na madeira por um instante. Aquilo não era o plano. Nunca foi. Mas também não havia mais volta. Troquei de roupa em silêncio, tentando reorganizar os pensamentos. A imagem dela me encarando depois do beijo não saía da minha cabeça. Eu sabia que tinha cruzado uma linha. Sabia que aquilo mudava tudo entre nós. E, ainda assim, não me arrependia. Algum tempo depois, ouvi movimento no corredor. Vozes, risadas, passos apressados. Elas estavam se arrumando para sair. Permaneci no quarto até ouvir a porta se fechar atrás delas. Só então respirei fundo e saí. O apartamento ficou silencioso novamente. Sentei no sofá, passando a mão pelo rosto. Eu conhecia aquele tipo de tensão. Já tinha vivido situações piores, decisões mais perigosas. Mas nada era tão instável quanto Victoria. Ela não era um acordo. Não era um jogo de poder. Não era uma missão. Era um risco. Mais tarde, me arrumei também. Banho rápido, roupa escura, perfume discreto. Quando desci para a garagem, o motorista já me esperava. Seguimos em silêncio até o salão de festas. O lugar estava iluminado, decorado com cuidado. O aniversário das gêmeas era importante para a família, e isso se via em cada detalhe. Assim que entrei, reconheci rostos conhecidos. Enzo e Catharina recepcionavam os convidados, orgulhosos. As meninas corriam de um lado para o outro, felizes. Vi Madalena conversando com Rayane, Ruan perto de Gabriel, Laís rindo com Taylor. E vi Murilo. Meu maxilar travou por um segundo. Ele estava ali, confortável demais, como se tivesse todo o direito do mundo. Cumprimentei algumas pessoas no caminho, mantendo a expressão neutra. Quando meus olhos finalmente encontraram Victoria, o tempo pareceu desacelerar. Ela estava linda. Vestido elegante, sorriso contido, postura confiante. Conversava com Camille e Alana, mas parecia distante, como se estivesse em outro lugar. Quando nossos olhares se cruzaram, algo silencioso passou entre nós. Não houve sorriso. Não houve desvio. Apenas reconhecimento. Predador e presa. E eu soube, com uma clareza incômoda, que aquela guerra tinha acabado de começar. NÃO DEIXEM DE COMENTAR MENINAS
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