Acordei com o corpo pesado e a cabeça confusa, demorando alguns segundos para entender onde estava. O teto não era o do meu quarto. O silêncio era diferente, quase estranho. Quando me mexi, senti o couro frio sob minhas mãos e então tudo voltou de uma vez: eu tinha dormido no sofá do apartamento do Enzo. Nem forças tive para subir para o quarto naquela noite.
Sentei devagar, passando a mão pelo rosto. A conversa com Murilo ainda ecoava na minha mente, palavra por palavra, como se tivesse sido gravada dentro de mim. Respirei fundo, tentando afastar aquele aperto no peito, e subi para o quarto que eu mantinha ali. Um espaço simples, mas que sempre me acolheu quando precisei fugir do mundo — ou de mim mesma.
No banheiro, liguei o chuveiro e deixei a água quente cair sobre meus ombros. Lavei o cabelo com calma, como se aquele gesto pudesse organizar meus pensamentos. Deixei os fios soltos, ainda úmidos, porque mais tarde tinha horário marcado no salão. O aniversário das gêmeas exigia atenção, presença, sorriso no rosto — mesmo quando por dentro tudo parecia em desalinho.
Quando terminei minha higiene, vesti uma roupa confortável e peguei o celular. Ignorei as mensagens por enquanto. Saí do apartamento e segui para o meu, atravessando o caminho com passos lentos, sentindo o ar da manhã despertar meus sentidos.
Assim que abri a porta, encontrei Benicio, Alana, Camille e Arthur sentados à mesa, tomando café da manhã como se fosse apenas mais um dia comum.
— Bom dia — falei, tentando soar natural.
As respostas vieram quase ao mesmo tempo. Sentei-me e me servi de café, percebendo imediatamente o silêncio de Arthur. Ele não disse nada. Apenas me olhava. O olhar carregado, intenso, duro demais para aquela hora da manhã.
A conversa girou em torno do aniversário das meninas. Camille comentava sobre os últimos detalhes da festa, Alana ria, Benicio falava distraído. Eu participava, mas sentia a presença de Arthur como uma pressão constante. Ele continuava sério, observando cada gesto meu.
Quando terminamos, cada um lavou o que tinha usado. Subi para o meu quarto para trocar de roupa antes do salão. m*l fechei a porta quando ouvi passos atrás de mim. A maçaneta girou e Arthur entrou, fechando a porta com firmeza.
Virei-me devagar.
— A noite foi boa? — ele perguntou, direto, sem rodeios. — Já que você nem dormiu em casa.
Cruzei os braços, decidida a não recuar.
— Foi — respondi. — E isso não te diz respeito.
Ele se aproximou, invadindo meu espaço. Minhas costas quase tocaram a parede quando senti as mãos dele segurarem minha cintura. Meu corpo reagiu antes da razão. Por instinto, minha mão pousou no peitoral dele, sentindo o coração acelerado sob meus dedos.
— Você não tem permissão pra ficar com ninguém — disse, a voz baixa, carregada de algo perigoso.
Soltei uma risada curta, incrédula.
— Permissão? Eu sou solteira, Arthur.
— Não é — respondeu, os olhos escuros queimando nos meus. — Se eu vir qualquer homem perto de você, eu mato ele.
— Você não manda em mim — falei, firme. — Eu fico com quem eu quiser. Ainda mais se for pra ter uma noite boa como a que eu tive com o Murilo.
A reação foi imediata. Arthur me beijou com força, um beijo intenso, feroz, cheio de posse e raiva contida. Meu corpo tremeu, o mundo girou por um segundo. Quando ele se afastou, ainda muito perto, sussurrou:
— Você é minha.
E saiu, me deixando sozinha, com o coração disparado e a mão sobre a boca. Demorei alguns segundos para recuperar o fôlego. Só voltei a mim quando ouvi Alana me chamando, avisando que já estava na hora de irmos para o salão.
O salão estava cheio, barulhento, perfumado. Entre risadas, secadores e conversas cruzadas, fui me permitindo relaxar. Fiz cabelo, maquiagem, unhas. Camille sentou ao meu lado, comentando sobre a festa, enquanto Alana mostrava fotos no celular. Por algumas horas, consegui esquecer tudo o que não queria sentir.
Quando terminamos, já estávamos todas prontas. Vestidos impecáveis, maquiagem leve, sorrisos ensaiados. Seguimos juntas para o salão de festas onde aconteceria o aniversário das gêmeas.
O lugar já estava cheio. Luzes, decoração delicada, mesas organizadas, música suave preenchendo o ambiente. Várias pessoas conversavam animadas. Reconheci familiares, amigos, crianças correndo de um lado para o outro.
E então eu vi.
Murilo estava ali, conversando com Laís. Próximo a eles estavam Gabriel, Ruan, minha tia Madalena, minha tia Rayane, Taylor e outras pessoas queridas. Meu coração falhou uma batida. Não esperava vê-lo ali, muito menos tão cedo depois de tudo.
Respirei fundo e continuei andando, cumprimentando alguns convidados, tentando manter a naturalidade. Foi então que senti.
O olhar.
Arthur estava mais afastado, observando tudo. Quando nossos olhos se encontraram, senti um arrepio percorrer minha espinha. Ele me olhava como um predador faminto, intenso, atento a cada movimento meu, como se estivesse apenas esperando o momento certo para agir.
E eu soube, naquele instante, que aquela noite estava longe de ser apenas uma festa de aniversário.
Respirei fundo antes de seguir em frente. Não podia deixar que ninguém percebesse o turbilhão que estava acontecendo dentro de mim. Caminhei até a mesa junto com as meninas, tentando manter o sorriso no rosto, o corpo relaxado, a postura impecável. Mas bastou um rápido olhar para entender que aquela noite seria tudo, menos tranquila.
Por uma ironia c***l do destino — ou talvez apenas uma coincidência muito bem arquitetada pelo universo — só havia um lugar disponível.
Exatamente entre Murilo e Arthur.
Meu coração acelerou no mesmo instante. Hesitei por um segundo, mas não podia simplesmente recuar. Seria estranho demais. Então me sentei, sentindo a tensão se instalar no ar como algo quase palpável.
Murilo me olhou e sorriu de leve, educado, contido. Arthur, por outro lado, nem tentou disfarçar. Seus olhos escuros percorriam cada centímetro meu, como se estivesse marcando território.
As conversas começaram a fluir. Risadas, comentários sobre a festa, lembranças da infância das gêmeas, histórias engraçadas que arrancavam gargalhadas da mesa. Eu participava, respondia, sorria, mas minha atenção estava dividida demais.
Murilo se inclinou levemente na minha direção.
— Você está linda — disse em voz baixa.
— Obrigada — respondi, sincera, sem encará-lo por muito tempo.
Conversamos um pouco mais, sobre a decoração, sobre a festa, sobre coisas banais. Tudo parecia normal demais para quem, poucas horas antes, tinha colocado um ponto final em algo que nunca chegou a começar de verdade.
Foi então que senti.
A mão de Arthur.
Quente, firme, pressionando minha coxa por baixo da mesa, os dedos se fechando lentamente, num gesto possessivo, calculado. Meu corpo reagiu de imediato, um arrepio subindo pela espinha. Mantive o rosto neutro, mas meu coração quase saiu pela boca.
Virei o rosto na direção dele, lançando um olhar de aviso.
— Para — sussurrei, quase sem mover os lábios.
Ele apenas sorriu de canto, como se estivesse se divertindo com aquilo. A mão continuou ali por mais alguns segundos antes de se afastar lentamente, deixando minha pele em chamas.
Murilo pareceu perceber algo. Seu olhar desceu rapidamente, depois voltou para Arthur, sério.
— Preciso atender uma ligação — disse ele, se levantando. — Já volto.
Antes de sair, lançou um olhar direto para Arthur. Não disse uma palavra, mas o recado estava dado.
Arthur inclinou-se um pouco na minha direção.
— Ele não manda em mim — murmurou, apenas para eu ouvir.
— Nem você — respondi, firme.
Levantei-me antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. Precisava de ar. Precisava de distância.
Segui até onde minhas sobrinhas estavam, perto de Catharina e do Enzo. As meninas riam, animadas, vestidas como verdadeiras princesas. Assim que me viram, correram até mim.
— Tia Vick! — gritaram juntas, me abraçando.
Sorri de verdade pela primeira vez naquela noite.
— Vamos tirar fotos — Catharina disse, já puxando o celular.
Nos posicionamos, rimos, fizemos poses engraçadas. Enzo passou o braço pelos ombros da esposa, orgulhoso, feliz. Aquele momento simples me trouxe um pouco de paz.
Depois das fotos, continuei circulando pela festa. Cumprimentei parentes, conversei com amigos antigos, evitei ao máximo me aproximar tanto de Murilo quanto de Arthur. Não queria mais tensão. Só queria aproveitar.
Quando a música mudou, mais animada, Camille me puxou pela mão.
— Vem dançar!
E eu fui.
Dancei com minhas amigas, com minhas primas, ri alto, girei, deixei o corpo acompanhar o ritmo. Por alguns minutos, esqueci olhares, mãos, palavras m*l ditas. Era só música e movimento.
Mas mesmo ali, no meio da pista improvisada, eu sentia.
O olhar de Arthur.
Sempre presente. Sempre atento.
Depois de um tempo, fomos chamados para o jantar. As mesas foram reorganizadas, os convidados se acomodaram. Sentei-me perto da minha mãe, buscando conforto na sua presença. Conversamos sobre coisas leves, sobre a festa, sobre a família reunida.
Ainda assim, eu sentia.
Os dois.
Murilo, do outro lado, me observava com uma expressão indecifrável. Arthur, mais afastado, parecia cada vez mais sério, mais fechado. Era como se uma linha invisível ligasse nós três, carregada de tensão.
Fingi não perceber.
Comi, conversei, sorri quando necessário. Mas meu corpo estava alerta, como se esperasse algo acontecer a qualquer momento.
As luzes diminuíram um pouco, e o som ambiente mudou. As conversas foram cessando aos poucos. Um telão foi ligado.
— Agora, vamos iniciar a homenagem de aniversário das gêmeas — anunciou alguém.
Fotos começaram a aparecer. Imagens delas bebês, depois aprendendo a andar, rindo, brincando, crescendo. Vídeos curtos, cheios de momentos felizes. Catharina levou a mão à boca, emocionada. Enzo enxugou discretamente os olhos.
Meu coração apertou.
Era impossível não se emocionar.
A família reunida, o amor estampado em cada detalhe, em cada sorriso capturado. Por alguns minutos, tudo parecia perfeito.
Quando o vídeo terminou, as luzes se acenderam um pouco mais e os parabéns começaram. As meninas foram colocadas no centro, diante do bolo impecável. Cantamos juntos, palmas, vozes misturadas, risadas.
Observei a cena com um sorriso suave no rosto, tentando guardar aquele momento na memória. Independentemente de tudo o que estivesse acontecendo ao meu redor, aquilo era real. Aquilo importava.
Quando as velas foram apagadas e os aplausos ecoaram, senti uma estranha certeza se instalar dentro de mim.
Aquela noite era apenas o começo.
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