Já passava das sete da noite quando decidi ir embora. A casa do Enzo ainda estava cheia, as meninas corriam de um lado para o outro, e as conversas se misturavam em um ruído confortável. Mesmo assim, eu sentia que precisava sair dali. Precisava de espaço. Precisava organizar meus pensamentos antes que eles me engolissem por completo.
Me despedi de todos com abraços demorados, prometendo voltar no dia seguinte. Minha mãe percebeu meu olhar distante, mas não perguntou nada. Apenas me beijou na testa, como sempre fazia quando sabia que algo dentro de mim estava fora do lugar.
Caminhei de volta para o apartamento com a cabeça cheia. Murilo. Nós dois tínhamos muita coisa para conversar. Coisas que estavam pendentes havia tempo demais. Eu já sabia, no fundo, que não havia como seguirmos juntos. Não daquele jeito. Ele nunca quis assumir um namoro de verdade. Sempre foi tudo implícito, escondido, suspenso no ar. E eu estava cansada de viver entre promessas que nunca se concretizavam.
Assim que cheguei, fui direto para o banho. A água quente escorreu pelo meu corpo, levando embora parte da tensão do dia. Fechei os olhos, respirei fundo e deixei que meus pensamentos corressem livres. Quando saí, me arrumei com cuidado. Nada exagerado, mas o suficiente para me sentir bem. Passei perfume, deixei o cabelo solto, escolhi uma roupa que refletia exatamente como eu me sentia: firme por fora, confusa por dentro.
Desci pouco depois.
Arthur estava na sala, sentado à mesa, notebook aberto, completamente concentrado. A cena era quase íntima demais para algo tão simples. Ele levantou o olhar assim que me viu.
— Vou sair — avisei, tentando manter a voz neutra. — Vou jantar com o Murilo.
Houve um segundo de silêncio. O olhar dele mudou. Não disse nada. Apenas assentiu lentamente. Aquilo me incomodou mais do que qualquer discussão teria incomodado.
Saí antes que pudesse pensar demais.
No térreo, Murilo já me esperava dentro do carro. Elegante como sempre, expressão séria demais para alguém que dizia sentir saudade. Entrei e seguimos.
No caminho, conversamos sobre coisas banais. A França. Se eu estava gostando da cidade. O trabalho. Perguntou sobre a joia da Clara, se eu estava conseguindo avançar com os desenhos. Respondi tudo de forma automática, como se estivéssemos ensaiando um diálogo que já conhecíamos de cor.
— Preciso conversar sério com você — ele disse, quebrando o ritmo leve da conversa.
Meu coração apertou.
— Depois do jantar — completou.
Assenti, mesmo sabendo que aquela conversa não seria fácil para nenhum de nós.
Chegamos ao restaurante pouco depois. Murilo entregou o carro ao manobrista e seguimos para dentro. O ambiente era sofisticado, discreto, exatamente o tipo de lugar que ele gostava. Fomos conduzidos até a mesa reservada. Ele pediu o vinho, a entrada e até a sobremesa antes mesmo de olhar o cardápio com atenção. Era um hábito antigo. Controle em tudo.
Quando o vinho chegou, o garçom serviu nossas taças com cuidado e se afastou, nos deixando a sós enquanto a comida não vinha.
Segurei a taça entre os dedos e respirei fundo.
Sabia que aquela noite mudaria muita coisa.
Só ainda não sabia exatamente o quê.
O vinho ajudou a aliviar um pouco a tensão inicial. Murilo parecia mais solto, menos contido do que de costume. Conversávamos sobre lembranças antigas, viagens, situações bobas que vivemos quando ainda acreditávamos que tudo era simples. Rimos em alguns momentos, daqueles risos sinceros que vêm acompanhados de saudade. Por instantes, quase esqueci o peso que pairava entre nós.
Foi então que ele ficou sério de repente.
— Preciso te contar uma coisa — disse, apoiando os cotovelos na mesa. — Mas preciso que você não fique brava.
Meu estômago se contraiu.
— Isso nunca é um bom começo — respondi, tentando brincar.
— Eu nunca te contei porque não queria te colocar em risco — continuou. — Porque eu gosto muito de você.
Segurei a taça com mais força do que pretendia.
— Murilo… fala logo.
Ele respirou fundo, como se estivesse se preparando para algo que ensaiou muitas vezes, mas nunca teve coragem de dizer.
— Meu pai é o chefe da máfia Ndrangheta.
Por alguns segundos, o mundo pareceu parar. Pisquei algumas vezes, tentando processar o que tinha acabado de ouvir. Meu coração acelerou, e senti um frio subir pela espinha.
— O quê? — foi tudo o que consegui dizer.
— Quando eu era pequeno, minha mãe e eu fomos para a Itália porque estávamos sendo ameaçados. Meu pai achou que era a única forma de nos proteger. Ele sempre quis que eu assumisse a máfia, mas eu nunca quis essa vida.
Observei o rosto dele, procurando qualquer sinal de mentira. Não havia. Só cansaço. E medo.
— Então… — engoli em seco — você já tem uma noiva, não é? Porque todo mafioso precisa se casar com alguém escolhido pelo pai. Alguém da máfia.
Ele assentiu lentamente.
— Tenho. Mas isso não é um problema.
Ri, sem humor.
— Como não é um problema, Murilo?
— Porque eu já disse ao meu pai que abro mão desse casamento. E da máfia. Por você.
Balancei a cabeça em negação imediata.
— Não. Isso não faz sentido. Você não pode simplesmente largar tudo assim.
— Posso sim — insistiu. — Eu faria isso por você.
O silêncio entre nós ficou pesado.
— Então é por isso — falei, sentindo um nó se formar na garganta. — É por isso que você nunca quis assumir um namoro comigo. Que sempre precisou ser escondido.
Ele desviou o olhar.
— Sim. Mas não foi por m*l. Eu só… não queria te envolver nisso.
A comida chegou naquele momento, interrompendo a conversa. O garçom serviu os pratos, desejou uma boa noite e se afastou. Murilo e eu comemos em silêncio. Nenhum de nós parecia realmente sentir o gosto da comida. Meus pensamentos estavam longe demais.
Depois da sobremesa, ele sugeriu que saíssemos para conversar melhor. Disse que poderia ser na casa dele. Neguei imediatamente.
— Estou com visita no meu apartamento.
Pensei por alguns segundos antes de completar:
— Podemos ir ao apartamento do meu irmão. Ele não mora mais lá. Fica no mesmo prédio que o meu.
Ele concordou.
Seguimos até lá em silêncio. O caminho pareceu mais longo do que realmente era. Ao entrar no apartamento vazio, senti um arrepio estranho. Acendi a luz da sala e nos sentamos no sofá, mantendo uma distância segura entre nós.
— Murilo — comecei — eu não quero mais viver escondida.
Ele me olhou com atenção.
— Eu vou morar na França. Vou estudar lá. Trabalhar na empresa do meu pai. Assumir minha vida.
— Não vai — ele disse, quase implorando. — Fica comigo. A gente se casa.
Meu coração apertou.
— Não — respondi com firmeza, apesar da dor. — Isso não é amor. É fuga.
Ele tentou argumentar, tentou me convencer de que tudo daria certo. Mas eu sabia. Sabia que aquele caminho não era meu.
— Podemos ser amigos — falei por fim. — Se você quiser.
Ele fechou os olhos por alguns segundos antes de assentir.
— Não é o que eu quero… mas eu aceito.
Conversamos mais um pouco. Coisas soltas. Sem promessas. Sem ilusões. Quando ele foi embora, fiquei sozinha naquele apartamento silencioso. Decidi dormir ali mesmo. Não queria explicar nada para ninguém. Não naquela noite.
Me deitei no sofá, olhando para o teto, sentindo o peso das escolhas que acabara de fazer.
NÃO DEIXEM DE COMENTAR E TEM DE VOTAR COM BILHETE LUNAR.