Deixei Victoria em casa já passava da meia-noite. Esperei até vê-la entrar no prédio, até a porta se fechar atrás dela e o corredor se iluminar. Só então liguei o carro. Antes de ir embora, fiz uma ligação curta, objetiva.
— Mandem alguém agora — falei. — O pneu do carro dela precisa estar cheio. Levem o veículo até a garagem e deixem exatamente onde estava.
Não era um favor. Era uma ordem. Desliguei e segui para o meu apartamento com a sensação incômoda de que, mesmo longe, ela ainda ocupava espaço demais na minha mente.
Não quis dormir. Eduardo havia me mandado o endereço de uma balada exclusiva, longe de curiosos e de gente que faz perguntas demais. Passei em casa, tomei um banho rápido, me arrumei sem pensar muito. Camisa escura, calça preta, relógio no pulso. O reflexo no espelho mostrava alguém seguro. Por dentro, eu estava longe disso.
A balada estava cheia. Luz baixa, música alta, copos se chocando, risadas ensaiadas. Encontrei Eduardo em uma mesa reservada, acompanhado de três mulheres lindas demais para parecer coincidência. Apenas balancei a cabeça e me sentei.
Uma loira logo se aproximou. Conversa fácil, sorriso treinado, toque calculado. Em algum momento, ela sugeriu irmos para um lugar mais reservado. Aceitei. Não por desejo, mas por distração. Aquele lugar tinha quartos privados para clientes. Silêncio, nenhuma explicação, nenhuma promessa.
Quando o dia começou a clarear, me levantei, vesti-me e fui embora sem olhar para trás.
Cheguei em casa exausto. Tomei um banho demorado, tentando afastar pensamentos insistentes. Vesti uma roupa leve. Era sábado. Dia de viagem. Itália. Aniversário das filhas de Enzo e Catharina. Victoria iria. Camille também. Benicio. Família reunida.
Pedi ao piloto do jatinho para organizar tudo. Horários, rota, segurança. Tudo como deveria ser.
As batidas na porta vieram pouco depois. Abri já sabendo quem era. Camille entrou sorrindo, mala em mãos, me abraçando com força.
— Bom dia — disse animada.
Preparei café para nós dois. Sentamos à mesa enquanto conversávamos sobre banalidades. Ela falava, eu ouvia. Em algum momento, comentou sobre nossa mãe, sobre os preparativos para o Natal na ilha da família. Decorações, tradição, reunião de todos.
Depois do café, nos arrumamos. Pegamos as malas e seguimos para buscar Victoria e Benicio. No caminho, Camille conversava com nossa mãe ao telefone, rindo, comentando detalhes da viagem. Eu dirigia em silêncio, absorto em pensamentos que insistiam em voltar para a mesma pessoa.
Quando chegamos em frente ao prédio, eles já estavam ali. Victoria usava algo simples, elegante sem esforço, com apenas uma mochila nas costas. Benicio também carregava pouco. Fazia sentido. Na Itália, tinham roupas tanto na casa dos pais quanto nos próprios apartamentos.
Descemos. Cumprimentos rápidos. Bom dia de todos os lados. Nada estranho. Nada forçado.
Seguimos direto para onde o jatinho nos aguardava. Dentro da aeronave, Camille e Benicio sentaram juntos, conversando animados. Victoria foi para o fundo. Parecia estar falando ao telefone. Sentei-me na poltrona à frente dela, observando discretamente.
Quando terminou a ligação, nossos olhares se encontraram. Conversamos. Sem ironias. Sem provocações. Coisas simples. Viagem, festa, família. Aquilo me pegou desprevenido. Era fácil falar com ela quando nenhum de nós tentava se defender.
Em algum momento, senti o peso do corpo dela se apoiar em meu ombro. Victoria havia adormecido. Fiquei imóvel. Observei seus traços relaxados, a respiração tranquila, o cabelo caindo de forma desordenada. Bonita demais. Perigosa demais.
Acabei adormecendo também.
Acordei com o toque suave de alguém chamando meu nome. A aeromoça avisou que estávamos chegando. Toquei Victoria com cuidado. Ela despertou aos poucos. Pedi para que viesse comigo para a parte da frente. Acordamos Camille e Benicio.
Ao pousarmos, um carro já nos aguardava. Camille e eu seguiríamos para o apartamento da Victoria. Benicio iria para a casa dos pais, que ficava em frente ao condomínio dela.
Chegando ao apartamento, Victoria nos mostrou os quartos. Tudo simples, organizado, com a personalidade dela em cada detalhe. Agradeci e entrei no quarto que ficaria hospedado.
Fechei a porta atrás de mim e fui direto para o banho. Precisava descansar. Mas, mesmo com a água quente escorrendo pelo corpo, eu sabia: aquela viagem não seria apenas uma visita familiar.
Algo estava mudando.
E eu estava no centro disso, querendo ou não.
Acordei com a sensação estranha de ter dormido demais. O quarto estava silencioso, a luz da tarde entrando pelas frestas da cortina. Olhei no relógio e suspirei. Já passava das três. Eu realmente precisava daquele descanso, mesmo sem admitir. Levantei devagar, tomei outro banho rápido, troquei de roupa e desci.
O cheiro de café me alcançou antes mesmo de chegar à sala. Victoria e Camille estavam ali, sentadas à mesa, conversando baixo e rindo de alguma coisa. As duas tinham uma sintonia natural que sempre me chamou atenção. Camille me viu primeiro.
— Finalmente resolveu aparecer — ela provocou.
Victoria levantou o olhar para mim. Sorriu de leve. Nada exagerado. Nada forçado. Apenas… confortável.
— Dormiu bem? — ela perguntou.
Assenti, puxando uma cadeira.
— Precisava.
Ela trocou um olhar rápido com Camille, como se compartilhassem um segredo silencioso. Foi então que Victoria se levantou e falou:
— Estávamos pensando em ir até a casa do Enzo. Ver como estão as coisas da festa das meninas… e tomar café da manhã lá. Querem ir?
Camille aceitou na hora. Eu apenas concordei com a cabeça. Qualquer desculpa para observar Victoria em um ambiente familiar parecia mais interessante do que deveria.
Seguimos pouco depois. No caminho, Victoria ia à frente, falando animada sobre detalhes da decoração, das cores que escolheu, das lembrancinhas. Ela tinha aquele brilho no olhar quando falava da família. Algo genuíno. Difícil de ignorar.
A casa de Enzo estava cheia. Logo na entrada já era possível ouvir risadas, vozes misturadas, crianças correndo. Assim que entramos, fomos recebidos por um cenário caótico e caloroso ao mesmo tempo. Exatamente como uma família grande deveria ser.
Enzo veio nos cumprimentar primeiro, com aquele sorriso largo de quem parece carregar o mundo nas costas, mas ainda assim consegue ser leve. Catharina estava logo atrás, segurando uma das meninas no colo, enquanto a outra corria em círculos pela sala.
Jasmine apareceu pouco depois, ao lado de Nick, com o filho nos braços. Ela parecia feliz. Serena. O tipo de felicidade que só quem fez escolhas difíceis e acertadas carrega. Cumprimentou Victoria com carinho, trocaram algumas palavras rápidas, cheias de i********e.
Os pais de Victoria também estavam ali. Pietro e Melinda. Elegantes, atentos, observadores. Melinda me cumprimentou com um sorriso gentil, daqueles que parecem enxergar além da superfície. Pietro apenas assentiu, firme, como se avaliasse tudo ao redor em silêncio.
Sentamos todos à mesa. Café, pães, frutas, conversas cruzadas. As crianças falavam ao mesmo tempo. Enzo comentava sobre a festa. Catharina dava ordens suaves enquanto organizava algumas coisas. Jasmine ajudava. Camille logo se levantou para colaborar também.
Victoria circulava pela casa com naturalidade, como se aquele espaço ainda fosse tão dela quanto sempre foi. Em alguns momentos, nossos olhares se encontravam. Não havia tensão. Não havia desafio. Apenas algo tranquilo, quase perigoso de tão confortável.
Enquanto as mulheres organizavam detalhes da festa, fiquei observando de longe. Victoria concentrada, rindo com Jasmine, explicando algo para Catharina. Percebi como ela se encaixava ali. Como era impossível não notar sua presença. Não pelo barulho, mas pela forma como tudo parecia se alinhar ao redor dela.
Em algum momento, ela se aproximou de mim com uma xícara de café.
— Está tudo bem? — perguntou.
— Está — respondi. — É bom ver todo mundo junto.
Ela sorriu, concordando.
— Faz falta quando não estamos assim.
Concordei em silêncio. Porque fazia mesmo.
Fiquei ali, sentado, enquanto a tarde avançava, observando aquela família que, de alguma forma, agora também me incluía. E, pela primeira vez em muito tempo, senti algo raro.
Paz.
NÃO DEIXEM DE COMENTAR.