O ESTRATEGISTA DO CAOS: MAPAS, MUNIÇÃO E A VERGONHA ALHEIA
[NARRADO POR NEGUIM — Vinícius Andrade]
O céu da Vila tava num tom de azul profundo, quase preto, aquele momento exato em que a luz da cidade lá embaixo, com seus prédios de luxo e playboys dormindo, começa a humilhar a escuridão do morro. Eu tava ali, no meu canto de sempre, com as costas apoiadas no reboco gelado da parede de um barraco em construção, observando o movimento das vielas. Os anos passaram voando, o asfalto esquentou, o chumbo voou em direção a muita gente, mas o Bonde do Ferreira continua sendo o eixo gravitacional que faz essa terra girar. Se cair um, cai geral esse não é só o nosso lema de guerra, é a nossa constituição não escrita. Mas eu vou te falar a real... tem hora que a vontade de abreviar o CPF do Pulga e do Faísca é muito maior que o meu instinto de sobrevivência.
Olhei praqueles dois lá embaixo, na frente da boca, rindo de alguma presepada homérica, e balancei a cabeça. O tempo passa e eles continuam com o mesmo espírito de quinta série B, achando que a vida é um eterno feriado com open bar de adrenalina. Eu, por outro lado, sinto o peso de cada decisão. Vinícius Andrade... o Neguim. Eu sou o cara dos mapas, das câmeras, da logística cirúrgica que faz o Fantasma ser invisível pro sistema. Se o Murilo é o coração pulsante e o Gargalo é a mão pesada que aperta o gatilho, eu sou o cérebro que garante que ninguém se perca no caminho do inferno.
Minha aparência não mudou muito nesses anos todos. Ganhei uns traços mais fortes, aquele olhar de quem já viu o filme inteiro e sabe exatamente como é o final. Continuo com a minha pele retinta brilhando no suor da noite, o corte de cabelo sempre na régua disfarçado no capricho e aquela postura de quem tá pronto pra sumir na sombra ou aparecer no meio do clarão do tiroteio, se precisar. O estilo é o mesmo: discreto, funcional, peça preta, mas com aquela marra que só quem é cria e não precisa gritar pra ser respeitado.
O pessoal vive me perguntando por que eu sou o último da resistência. O Murilo tá lá, todo derretido, perdendo o juízo pela Melissa; o Júlio virou colono no interior por causa da Bianca; e até o Gargalo, o homem de gelo, agora tem o ponto fraco chamado Juliana. Eu? Eu continuo solteiro, no vácuo sentimental. Mas não é porque eu sou igual ao Faísca, que quer passar o rodo em tudo que tem batom e respira, nem igual ao Pulga, que faz do amor uma piada de boteco de esquina. A real, lá no fundo, é que eu ainda não encontrei aquela que faça meu rádio parar de chiar, aquela conexão que mude a frequência da minha vida.
Cá entre nós, princesa, eu sou um romântico à moda antiga, por mais que eu esconda isso atrás dessa cara de poucos amigos e dessa pistola na cintura. Eu acredito naquela conexão que faz o peito arder mais que tiro de raspão de .40. Eu quero a mulher dos meus sonhos, aquela que não precise de legenda, que entenda meu silêncio tático e que seja minha parceira na estratégia e na vida. Enquanto ela não vem, eu fico aqui, sendo o guardião da liberdade dos outros, fingindo que não ligo pra solidão, mas com o coração sempre em alerta, tipo sentinela em noite de invasão de blindado.
Eu desci as escadas na manha, sentindo o peso da pistola no coldre e o radinho já dando aquele estalo de prontidão na frequência. Quando pisei no chão batido da boca, a cena era a mesma de sempre: um hospício a céu aberto, um hospício armado. O Faísca tava conferindo o pente do fuzil enquanto tentava dar um grau desnecessário na moto, e o Pulga... p***a, o Pulga tava fazendo uma dancinha ridícula, gravando story pro i********: com um capuz na cabeça e o radinho na mão, achando que era o dono da internet.
O Gargalo tava num canto, encostado num pilar de concreto, limpando a lente da luneta com uma calma que chegava a dar agonia. O cara é um monge do crime, mas eu sabia que por trás daquela quietude, ele tava era contando os minutos pra voltar pros braços da Juliana. O Murilo ainda não tinha chegado; o patrão devia estar naquelas despedidas demoradas com a Melissa, o que eu não julgava, porque se eu tivesse uma rainha daquela me esperando com o perfume dela, eu também não teria pressa nenhuma de ir trocar tiro com o Estado.
Parei do lado do Gargalo, cruzei os braços e fiquei olhando pro Faísca, que agora tava tentando equilibrar um copo de café fervendo no guidão da moto enquanto o Pulga gritava: "CUIDADO, NOIVINHA! VAI MANCHAR O VESTIDO DE NOIVA!". Apertei a ponte do nariz, sentindo o início de uma enxaqueca que só aqueles dois conseguiam me dar com cinco minutos de conversa.
— “Aí, Gargalo…” — Chamei baixo, sem tirar o olho dos dois retardados. — “Na moral, tu que é o especialista em ocultação de cadáver e limpeza de área... será que dá tempo da gente matar esses dois, enterrar ali atrás do galpão de carga e falar pro Murilo que eles foram sequestrados por alienígenas antes dele chegar na boca?”
Gargalo nem levantou a cabeça. Só deu um suspiro fundo, aquele suspiro de quem já aceitou o destino trágico de ser o babá de luxo da Vila.
— “Tempo até que dá, Neguim.” — Ele respondeu, a voz saindo arrastada e fria como aço. — “O problema é que os alienígenas iam devolver os dois em cinco minutos e ainda iam pedir desculpa pelo transtorno galáctico. Ninguém aguenta a frequência desses fdp, nem em Marte.”
— “Pois é.” — Balancei a cabeça, soltando um riso curto e sem vontade. — “O Cavalcanti acha que tá enfrentando uma organização criminosa internacional de alta periculosidade. m*l sabe ele que o maior perigo aqui é eu morrer de vergonha alheia antes de encostar no portão da mansão dele.”
— “TÔ OUVINDO, HEIN!” — Pulga gritou, parando a dancinha e apontando o dedo pra gente com aquela cara de p*u monumental. — “O Neguim tá com inveja porque o meu brilho ofusca o mapa dele! E o Gargalo tá é com saudade da Ju! Relaxa, tropa, que hoje o pai tá inspirado! Vou entrar naquela mansão igual um ninja... um ninja bonito, cheiroso e letal!”
— “Ninja o c*****o, Pulga! Tu tá mais pra Power Ranger defeituoso que foi montado errado!” — Faísca rebateu, jogando a tampinha do café nele, dando início a uma nova rodada de baixaria que ecoou pelos becos.
Eu olhei pro relógio. O tempo tava correndo, e o tempo na guerra é vida. O plano tava todo na minha cabeça: entrada pela lateral norte, anulação das câmeras de infravermelho, neutralização silenciosa dos seguranças da guarita. Tudo milimetricamente calculado. Mas olhar praqueles dois era como planejar um assalto ao Banco Central e levar dois macacos com chocalhos pra dar cobertura.
— “Se concentra, bando de verme!” — Falei, elevando o tom pra autoridade de estrategista aparecer e calar a zona. — “O Murilo tá descendo. Se ele pegar essa bagunça, o salve no Cavalcanti vai ser cancelado pra ele dar um salve no lombo de vocês. O negócio hoje é sério pra c*****o. É a vida da Melissa em jogo, é a nossa firma no tabuleiro. Quem vacilar hoje vai conhecer o fundo do rio Tietê com bota de cimento, entenderam?”
Os dois deram uma murchada rápida, mas eu sabia que era temporário. A neurose do Bonde do Ferreira é essa: a gente ri na cara da morte pra ela não achar que a gente tem medo dela. Mas ali, no olhar de gelo do Gargalo e na minha mente, a gente sabia: a noite ia ser de sangue, e o Dr. Octávio Cavalcanti ia descobrir que o "tumor" da favela tem dentes de aço temperado.