⚖️ O CREPÚSCULO DO FANTASMA: ENTRE O AFETO E O AÇO
[NARRADO POR MURILO FERREIRA]
O sol se pôs, tingindo o céu da Vila com aquele laranja pesado, denso, uma cor de brasa que parece anunciar para todo mundo que o tempo de brincar acabou e que a noite, a verdadeira dona do morro, está assumindo o trono. Mas dentro de casa, entre as paredes que eu blindei com suor e sangue, o clima era outro. Eu tava jogado no tapete da sala, sentindo o corpo moído da lida, cada músculo gritando, mas com a mente a milhão por causa da missão que ia rolar daqui a pouco. No meio daquela bagunça de brinquedo espalhado, tava a Aurora.
Cinco anos de pura energia, um furacão de laço no cabelo e uma língua que não para um segundo, parece um radinho de pilha com a bateria infinita. Se a Melissa é a Dona da Lei, a Aurora é a Dona do Morro inteiro sem precisar disparar um único tiro ou fazer um bico de brabeza. A pequena tava ligada no 280, pulando em cima de mim como se eu fosse um pula-pula, contando uma história mirabolante de um desenho que ela viu, enquanto eu fazia um malabarismo mental pra não deixar ela ver o ferro que tava no meu coldre, ali no canto da cintura, escondido sob a camisa larga.
— “Papai, papai! Você tá ouvindo? O unicórnio voou por cima da montanha de chocolate!” — Ela gritava, rindo, puxando minha orelha com aquelas mãozinhas gordinhas e cheirosas.
— “Tô ouvindo, princesa. Esse unicórnio é brabo mesmo, o terror dos céus.” — Falei, dando um beijo estalado no topo da cabeça dela, sentindo aquele cheiro de xampu de morango e infância que parece que limpa qualquer rastro de pólvora e ódio da minha alma, pelo menos por uns minutos.
Dali do sofá, com o canto do olho, eu observava o Murilinho. Treze anos. O moleque já tá com corpo de homem, esticando, fazendo flexão e abdominal no canto da sala com uma seriedade que me dava até um aperto no peito. Ele se exercitava como se tivesse se preparando pro front, pra uma guerra que eu rezava toda noite pra que ele nunca conhecesse. Ele tem aquela disciplina rígida que eu tive que aprender na marra, no tapa e na cadeia, mas ele faz por pura vontade. Sentei no tapete com a Aurora no colo, mas meu olho tava fixo no meu herdeiro.
— “Aurora, vai lá com a tua mãe, vai, gordinha.” — Falei baixinho, dando um tapinha carinhoso na b***a dela. — “Dá um beijo na Mel e tenta fechar esse olho, que amanhã tem escola e o papai precisa resolver uns bagulhos sérios de gente grande, umas coisas de trabalho.”
Ela resmungou, fez aquele biquinho que é a cara da Melissa quando tá brava, mas me deu um beijo babado no rosto e saiu saltitando, com os cachinhos balançando, pra dentro do quarto. Quando o silêncio baixou um pouco na sala, eu levantei, sentindo as juntas estalarem, e fui até o Murilinho. Ele tinha parado os exercícios e tava sentado numa mesinha de canto, concentrado num caderno de capa dura.
Me aproximei devagar e vi o que era. Não era dever de escola, nem conta de matemática. Eram desenhos. Táticas de campo, posicionamento de jogador, um rascunho detalhado de um estádio lotado com o nome dele brilhando no telão. O sonho do moleque era o gramado, não o asfalto quente; ele queria a chuteira de craque, não o fuzil de assalto. E eu, como pai, sentia um orgulho que chegava a doer na boca do estômago, porque eu ia fazer o impossível, o improvável e o ilegal pra garantir que ele nunca precisasse carregar o peso morto que eu carrego nos ombros.
— “Tá bonito pra c*****o o desenho, filho.” — Falei, colocando a minha mão pesada e calejada no ombro dele. — “O olheiro do clube me mandou uma mensagem dizendo que tu tá voando baixo no treino, que tá dando aula de bola.”
Ele deu um sorriso de lado, aquele jeito tímido e reservado que ele herdou de mim, mas logo o olhar dele ficou distante, nublado. Ele fechou o caderno devagar, como se estivesse escondendo um tesouro, e olhou pra janela, pro horizonte onde as luzes artificiais do asfalto playboy brilhavam.
— “Valeu, pai.” — Ele soltou um suspiro pesado, um som que não combina com alguém de treze anos. — “Mas... às vezes eu fico pensando... sinto uma saudades absurda da vovó Jussara. Queria que ela visse eu jogando, que ela estivesse lá no teste. Ela ia ficar feliz e gritar muito, né?”
O golpe veio seco no meu peito, um soco de realidade que me deixou sem ar. A saudade da minha coroa é uma ferida que nunca fecha, só cria uma casca fina que qualquer lembrança arranca. Engoli seco, apertando o ombro dele com força, sentindo a lealdade de sangue que a gente tem.
— “Ela tá vendo tudo, Murilinho. De algum lugar privilegiado, ela tá lá na arquibancada principal gritando teu nome mais alto que todo mundo, aposto que até o juiz tá ouvindo ela.” — Minha voz saiu um pouco mais rouca, mais carregada. — “E o pai tá aqui, firme, pra garantir que tu chegue lá no topo. Ninguém vai te parar, ouviu bem? O que depender de mim, tu só vai conhecer o brilho dos holofotes, o barulho da torcida, nunca a sombra desse caminho que eu tive que caminhar.”
Ele assentiu, os olhos brilhando com uma determinação que eu conheço bem — a marca dos Ferreira. Mas o relógio na parede não perdoava, cada tique-taque era um passo mais perto da missão. Beijei a testa dele, ajeitei minha jaqueta preta de couro e senti o peso da responsabilidade dobrar. Eu tinha que limpar o terreno pro Murilinho brilhar, e o primeiro entulho no caminho era o tal do Cavalcanti.
— “Dorme agora, campeão. Amanhã cedo a gente conversa mais sobre o treino.” — Saí da sala sentindo o sangue começar a gelar, a adrenalina assumindo o controle.
A saudade da minha mãe e o sonho do meu filho eram o combustível de alta voltagem que eu precisava. O Cavalcanti achava que tava lidando com um bandido comum, um marginal sem rumo, mas o comédia não fazia ideia que tava mexendo com um pai que não tem nada a perder e tudo a proteger.
Eu já tava com a mão na maçaneta da porta de entrada, o corpo todo tencionado pra guerra, a mente já mapeando os fundos da mansão do promotor, quando ouvi o som suave da porta do quarto abrir.
— “Murilo.” — A voz da Melissa veio baixa, mas carregada de uma eletricidade, de uma autoridade que eu conhecia bem.
Eu nem tive tempo de virar o corpo direito. Senti o impacto macio e firme do corpo dela contra o meu, aquelas curvas generosas que são meu único porto seguro e, ao mesmo tempo, minha total perdição. Ela pulou no meu colo com uma agilidade de novinha, as pernas grossas e macias prendendo minha cintura com uma pressão que eu adoro, e os braços apertando meu pescoço como se quisesse fundir a alma dela na minha pra eu não ir sozinho.
— “p***a, Mel... assim tu me quebra no meio, gordinha.” — Rosnei, enterrando meu rosto no pescoço dela, sentindo aquele cheiro de mulher rica, de perfume caro misturado com o calor da pele dela que me faz esquecer até como se respira de forma normal.
— “Tu é louco, Murilo Ferreira. Vocês quatro são uns dementes, uns suicidas!” — Ela sussurrou contra a minha boca, os olhos brilhando com fogo e preocupação naquela penumbra do corredor. — “Ir na casa do Octávio Cavalcanti? Dar um salve num promotor dentro da toca dele? Tu sabe o tamanho do vespeiro que tá cutucando com essa tua vara curta? Se isso der errado, Murilo, não tem habeas corpus que te tire do buraco.”
Eu segurei firme naquela raba monumental dela, apertando a carne com aquela possessividade vulgar de quem não aceita ninguém encostando no que é seu.
— “O vespeiro já tá atiçado por conta própria, Mel. Esse arrombado mexeu com a pessoa errada. Ele achou que tu tava sozinha, que era só uma advogada de corpo bonito tentando fazer justiça em terra de cego.” — Encarei o fundo dos olhos dela, a voz saindo pesada, sem filtro, o dialeto do crime assumindo a voz. — “Ele precisa entender na alma que por trás de cada palavra tua, de cada tese jurídica, tem o cano de cem fuzis apontado pra testa dele. Se eu não der esse salve agora, amanhã esse verme tá na tua porta com um mandado de prisão preventiva inventado. Hoje a gente corta a asa do urubu antes dele achar que pode voar alto demais no nosso céu.”
A Melissa encostou a testa na minha, a respiração dela batendo quente no meu rosto, o fogo subindo.
— “Toma cuidado, por favor. Se alguma coisa acontece contigo, esse morro desaba, minha vida perde o sentido e eu morro junto por dentro. Não faz nenhuma merda que não dê pra eu consertar depois na base da lei.”
— “Fica tranquila, minha rainha. O Fantasma sabe caminhar no escuro sem deixar rastro, sem deixar digital e sem deixar rastro de pólvora pra quem não deve ver. Vou lá, dou o recado no pé do ouvido e volto correndo pra esse teu colo, que é o único lugar desse mundo cão que eu me sinto realmente em paz e em casa.” — Dei um beijo daqueles de tirar o fôlego, um beijo que era um selo de promessa de volta, uma transa mental antes da guerra.
Coloquei ela no chão devagar, sentindo a falta do contato na hora. Dei um último tapa estalado naquela b***a de respeito, um estalo que ecoou no corredor, e saí sem olhar pra trás, porque se eu olhasse mais uma vez pro rosto dela, eu não saía dali nem que o morro estivesse pegando fogo.
Desci as escadas de dois em dois degraus, o som da bota tática batendo no concreto. O sangue já não era mais sangue, era pura adrenalina e ódio destilado. A imagem do Murilinho querendo ser jogador e a saudade doída da minha coroa tavam ali, martelando o meu juízo. O Cavalcanti ia ser o saco de pancadas de toda a frustração e de toda a injustiça que a vida já me jogou no peito.
Cheguei na rua e o ar frio e cortante da noite bateu no meu rosto, me acordando pro abate. O Neguim, o Gargalo, o Faísca e o Pulga já tavam lá, em volta das motos, as máquinas roncando baixo, um ronco gutural como bicho esperando o sinal pra sair pra caçar. O brilho dos faróis cortava a neblina.
— “O homem desceu da torre!” — Pulga gritou, já ajeitando a luva tática com aquele deboche de sempre. — “E aí, patrão? O beijo de despedida foi cinematográfico ou a Doutora te deu um sermão jurídico de trinta páginas sobre invasão de domicílio?”
— “Cala a boca, sobe nessa p***a e foca na missão, Pulga.” — Falei, montando na minha XT preta, sentindo o peso do ferro na cintura e a máscara de caveira já pronta no bolso da jaqueta. — “Neguim, puxa o bonde por dentro da mata, nada de via principal. Gargalo, tu fica na contenção da retaguarda, visão limpa. Faísca, se algum segurança de prédio quiser brincar de herói, tu já sabe o que fazer. Hoje o asfalto vai tremer e esse condomínio de luxo vai descobrir que o verdadeiro terror não tá nos jornais, o terror mora na vizinhança deles.”
Demos a partida sincronizada. O som dos quatro motores subindo o tom em uníssono foi o grito de guerra que a Vila precisava ouvir pra saber que o bando tava na pista. A gente partiu cortando o vento, quatro sombras em cima de cavalos de aço cavalgando direto pro centro do sistema que tentava nos destruir.
O Cavalcanti não perdia por esperar. O Bonde do Ferreira tava com sede, e no escuro da mansão dele, a lei do morro ia ser ditada no cano gelado da pistola, sussurrada por quem ele chama de "escória". Hoje o Doutor Morte ia conhecer quem realmente manda no inferno.