🏛️ O ACERTO DE CONTAS: O FANTASMA NO NINHO DOS CORRUPTOS
[NARRADO POR MURILO FERREIRA]
Parei a XT num beco escuro, a duas quadras da mansão que brilhava com aquela luz branca, fria e arrogante, típica de Alphaville. O motor estalava — tec, tec, tec — esfriando aos poucos, enquanto os outros encostavam as máquinas logo atrás, apagando os faróis em sincronia perfeita, como sombras se fundindo ao asfalto. O silêncio daquele bairro de rico chegava a dar nojo, era um silêncio comprado, artificial, de quem acha que muro alto, cerca elétrica e segurança de guarita barram o destino quando ele decide cobrar a conta. Cada fachada de mármore que a gente passou no caminho parecia uma lápide de luxo, um monumento à hipocrisia de quem dita a lei de dia e dorme sobre o sangue dos outros de noite.
Desci da moto e tirei o capacete, sentindo o ar gelado da madrugada bater no meu rosto suado. O Neguim já tava com o tablet na mão, a luz da tela refletindo nas lentes escuras dele, mapeando cada fóton de segurança daquele mausoléu; o Gargalo verificava a luneta num ponto estratégico, sumindo na escuridão de um terreno baldio lateral com a precisão de um espectro; e o Pulga e o Faísca tavam ali, checando os carregadores com aquela eficiência letal que escondiam por trás das piadas. Olhei pra mansão e um filme de terror passou na minha cabeça, a memória vindo como um soco de direita direto no estômago, lembrando de cada porta que se fechou na nossa cara quando a gente só queria o direito de existir.
— "Parem um pouco." — Falei, a voz saindo baixa, gutural, carregada de um peso que fez o Pulga travar a piada i****a que já tava na ponta da língua. — "Olhem pra esse asfalto... olhem pra essa estrutura toda. Vocês lembram de anos atrás? Quando a gente ainda era um bando de moleque com o nariz escorrendo, o pé sujo de barro, mas com o peito explodindo de um ódio que não cabia na Vila? Quando a gente olhava pra essas luzes e achava que era outro planeta?"
Eles me olharam. O Neguim abaixou o tablet devagar. O Gargalo parou o ajuste da mira. A gente sabia exatamente do que eu tava falando. O sangue que nos unia era o mesmo que tinha manchado o chão lá atrás, no tempo em que a gente não tinha nada além de raiva e lealdade.
— "A gente era nada pro sistema. Só estatística de rodapé de jornal, bucha de canhão pra delegado fazer média. Quando o Tenente Lisboa mandou matar meu pai na covardia, ele achou que tava apagando um problema, uma ponta solta no esquema de propina dele. Ele não sabia que tava acendendo um incêndio que ia queimar a p***a da cidade inteira e forjar o aço que a gente é hoje." — Apertei a coronha da pistola na cintura, sentindo a mesma raiva vulcânica que senti no dia em que invadi a Central de Polícia pela primeira vez, com o coração saindo pela boca e o dedo coçando no gatilho. — "A gente travou aquela guerra sem ter metade do que tem hoje. Era só a gente, a coragem cega e uma sede de justiça que queimava mais que o sol do meio-dia no asfalto quente. A gente invadiu delegacia, peitou político graúdo, fez o Lisboa ajoelhar no milho e sentir o gosto metálico do próprio sangue antes de eu apagar a luz dele com o cano da arma na nuca. Aquele dia, o Fantasma nasceu das cinzas de um pai enterrado."
Dei um passo à frente, encarando os quatro, meus irmãos de vida, de crime e de alma. O asfalto de Alphaville parecia pequeno diante da nossa história.
— "O Cavalcanti olha pra gente hoje e vê apenas 'criminoso'. Ele vê alvo pra currículo, escada pra virar desembargador. Ele não sabe que a gente já nasceu morto pro Estado. Ele esquece que quem já foi pro inferno e voltou pra buscar o que é seu, não tem medo de um promotorzinho que se esconde atrás de toga, de papel timbrado e de segurança terceirizado que ganha salário mínimo. A gente vingou meu pai quando ninguém acreditava que a gente ia passar dos dezoito anos. E hoje... hoje a gente vai proteger a Melissa, a rainha desse império, a mãe dos meus filhos e o futuro da minha Aurora com a mesma fúria devastadora que derrubou o Lisboa."
— "O recado foi dado pro Lisboa naquela época com pólvora, grito e sangue na calçada..." — O Faísca soltou, o olhar vidrado na mansão, a mão firme no fuzil curto, o corpo já em transe de combate. — "Hoje o recado é pro Judiciário aprender que o Morro não esquece e não perdoa vacilo com a família."
— "Exatamente." — Falei, puxando a máscara de caveira e cobrindo o rosto, sentindo o tecido gelado esconder o Murilo e libertar o Fantasma. — "O Cavalcanti acha que o passado morreu e apodreceu na vala. Mas o passado tá aqui, de bota tática, fuzil na mão e sede de vingança, pronto pra cobrar o juro abusivo que ele tentou impor pra Mel. Neguim, apaga o sistema de segurança desse castelo de cartas. Gargalo, cobre a nossa retaguarda lá do alto, se um passarinho piar errado ou um segurança bocejar na direção errada, tu abate no silêncio. Pulga e Faísca, vamos entrar. Quero que ele sinta o cheiro de pólvora queimada e o suor da rua impregnando o lençol de cetim de mil fios dele."
— “Aí, chefe... tu tem certeza absoluta que vai levar esses dois patetas junto pra dentro da suíte master? É sério mesmo?” — O Neguim soltou, sem tirar o olho da tela do tablet que já tava triturando o firewall da segurança e colocando as câmeras em loop, mas com aquele sorrisinho de canto que entregava a diversão macabra que ele sentia. — “Levar o Pulga e o Faísca pra uma infiltração cirúrgica é tipo levar dois alto-falantes estourados tocando funk pro meio de um enterro real com o Papa presente. É pedir pra ser notado pela NASA, pela Interpol e por todos os satélites de espionagem do governo.”
O Pulga parou na hora de conferir o pente da pistola e colocou a mão no peito de forma dramática, fazendo uma cara de quem tinha levado um tiro de .50 direto no coração, um verdadeiro drama de novela mexicana da madrugada.
— “Oh, meu Deus! Quanta crueldade gratuita com a minha pessoa! Eu sou um incompreendido!” — Ele dramatizou, jogando as costas contra o muro chapiscado com uma mão na testa, quase desfalecendo de deboche. — “Logo eu, o alicerce emocional, o suporte psicológico e o brilho que ilumina esse bando de gente amarga, m*l amada e sem graça! O mundo não está preparado para o meu talento tático de elite, Murilo! Sinto que minha alma está sendo pisoteada pelo Neguim e o seu ego de TI!”
O Faísca não ficou atrás, entrando na onda da palhaçada como se estivessem num palco de stand-up e não na frente de um alvo de alto escalão. Ele esfregou os olhos com as costas das mãos enluvadas, forçando um soluço falso que parecia o motor de um Chevette velho engasgando no álcool em manhã fria de inverno.
— “É sempre assim... a gente dá o sangue, dá a vida, abre mão do beijo da novinha no baile, e o que recebe em troca? Bullying corporativo em plena operação! Eu tô sentindo um vazio existencial aqui dentro, patrão! Me diz que você ainda me ama, diz que eu sou o seu soldado favorito, o seu fiel escudeiro!” — Ele fez um biquinho ridículo, fingindo que tava secando uma lágrima invisível com o dedo indicador, enquanto ajustava o coldre na perna.
Eu fechei os olhos por dois segundos, respirando fundo o ar gelado e úmido pra não mandar os dois pro espaço sideral ali mesmo com um chute bem dado. A adrenalina da missão tava querendo subir, mas a vergonha alheia tava ganhando a corrida de cem metros rasos com folga.
— “Na moral...” — Falei, a voz saindo seca, vulgar, com aquele tom que faz o pelo do braço arrepiar de quem sabe que o limite foi atingido, enquanto eu ajustava o silenciador na boca do cano da pistola com um movimento mecânico e frio. — “Eu não sei por que eu não vim sozinho nessa p***a. Juro por Deus. Às vezes eu acho que eu pequei muito na outra vida, devo ter sido um inquisidor ou coisa pior, pra ter que carregar essa creche de luxo nas costas em plena noite de invasão estratégica. Vocês são a minha cruz, sabiam disso? O peso morto do meu juízo.”
Olhei pro Gargalo, que só balançou a cabeça de longe, lá do escuro, com aquele olhar de "eu te avisei que a castração química era o melhor caminho pra esses dois", e voltei a encarar os dois palhaços do crime organizado que tavam na minha frente.
— “Acabou o show das poderosas ou eu vou ter que chamar o empresário de vocês?” — Rosnei, e o tom de morte real na minha voz fez o Pulga endireitar a postura como um soldado de elite da SWAT e o Faísca travar o riso na hora, ficando em posição de sentido absoluto. — “O sistema tá cego, o muro tá ali e o Cavalcanti tá dormindo o sono dos injustos, sonhando com a nossa queda e com a promoção dele. Se eu ouvir um pio de piada lá dentro, ou se um de vocês escorregar numa casca de banana imaginária e fizer barulho, eu mesmo apago a luz de vocês antes de encostar no promotor. Entenderam a visão ou preciso desenhar no asfalto com o sangue de vocês?”
— “Cristalina, Fantasma. Silêncio de cemitério chinês.” — O Pulga respondeu, a voz agora séria, a máscara de caveira já escondendo o deboche e revelando o predador de sangue frio que ele se tornava quando o ferro esquentava.
— “Pela ordem, Murilo. Sem erro, sem rastro, sem brincadeira.” — Faísca completou, batendo o punho fechado no peito, o barulho do colete tático ecoando baixo.
— “Neguim, dá o sinal de entrada. Abre o portal do inferno pra esse playboy.” — Ordenei.
— “Câmeras em loop de vídeo gravado de ontem, sensores de movimento em standby, alarme silencioso interceptado. Vocês têm exatamente dez minutos até o backup do sistema dar um bip lá na central de monitoramento do bairro. Podem ir, sombras da Vila. O caminho tá pavimentado pro inferno do Doutor Morte.”
A gente se moveu com a precisão milimétrica de um mecanismo de relógio suíço de ouro. Pulamos o muro lateral de cinco metros, ignorando a cerca elétrica que o Neguim já tinha fritado com um bypass eletrônico, com a leveza de quem faz isso desde que aprendeu a engatinhar fugindo de enquadro no Morro. O jardim da mansão era enorme, um deserto de grama esmeralda perfeitamente aparada, cheio de estátuas de mármore bregas que pareciam estar vigiando o nada em nome de quem tem dinheiro mas não tem classe. Atravessamos o gramado perfeito, as botas táticas não faziam um ruído sequer, nem o barulho da grama sendo amassada chegava ao ar denso da noite.
Chegamos na porta de vidro da varanda que dava pra sala de estar monumental, um palácio de vidro e soberba. Eu fiz o sinal de mão tático. O Faísca tirou o kit de gazua do bolso, mas nem precisou encostar na fechadura; o Neguim, remoto do seu tablet lá no beco, já tinha destravado a fechadura eletrônica via Bluetooth. O "clique" foi quase imperceptível, um som de liberdade pra gente e de fim de jogo irremediável pro Cavalcanti.
Entramos. O cheiro lá dentro era de lavanda, móvel de carvalho caro e dinheiro acumulado por gerações de corrupção. Um silêncio mortal, interrompido apenas pelo tique-taque arrogante de um relógio de pêndulo na parede que parecia contar os últimos minutos de paz do dono da casa. Eu apontei pra cima com o cano da pistola, indicando a escadaria monumental de granito que levava à suíte master. A cada degrau que eu subia, o ódio de anos atrás pulsava no meu pescoço, batendo no ritmo frenético da minha respiração controlada. O Cavalcanti tava lá em cima, enrolado em lençol de seda de mil fios, achando que o mundo terminava na sua segurança eletrônica e no seu sobrenome importante.
Ele ia descobrir agora, da forma mais traumática e inesquecível possível, que pro Bonde do Ferreira, cerca elétrica, muro alto e toga de promotor são só decoração de Natal pra quem não tem mais nada a temer e já conhece o caminho do abismo de cor. A conta chegou, e o cobrador tá usando máscara de caveira.