capitulo 14 Murilo

1909 Palavras
O CALABOUÇO DO PROMOTOR: SANGUE, HONRA E O RUGIDO DO FANTASMA [NARRADO POR MURILO FERREIRA] Subimos a escadaria de granito imperial como se fôssemos feitos de fumaça preta, sombras desgarradas do inferno prontas para cobrar o dízimo da hipocrisia. O silêncio daquela mansão em Alphaville era tão profundo, tão artificial, que eu conseguia ouvir o tique-taque do meu próprio coração batendo no peito um tambor de guerra ritmado, treinado para não oscilar nem diante do abismo. Não era medo, nunca foi medo. Era uma sede de justiça cega, um ódio destilado que queimava as minhas entranhas como ácido, lembrando-me de cada humilhação que o sistema já jogou nas costas da minha família. No corredor vasto do segundo andar, iluminado por arandelas de cristal que custavam o preço de uma vida na Vila, o Faísca não aguentou a própria natureza caótica. Ele sacou uma lata de spray preto fosco que tinha trazido escondida no colete e, com a agilidade de quem já pichou muito muro de delegacia fugindo da Civil, começou a riscar a parede de seda importada, destruindo a estética de milhões com a tinta da rua. — "O FANTASMA TEVE AQUI." — Ele escreveu em letras garrafais, o chiado do spray no reboco fino parecendo um tiro de fuzil no meio daquele silêncio de museu. O Pulga, vendo a arte e sentindo o cheiro da rebeldia, deu um sorrisinho malicioso por baixo da máscara de caveira. Ele puxou um batom vermelho deus sabe de onde aquele infeliz tirou aquela p***a, provavelmente de alguma novinha no baile e desenhou um coraçãozinho ridículo do lado da frase do Faísca, escrevendo embaixo com uma letra trêmula: "Com amor, sua noivinha preferida." Eu senti o sangue subir pra têmpora. Me virei com a rapidez de uma mola de gatilho e dei um tapão seco na nuca de cada um, um estalo que ecoou pelo corredor como um chicote estralando no couro. — “Cês tão de brincadeira com a minha cara, seus arrombados?” — Rosnei, a gíria saindo num sussurro violento, carregado de uma autoridade que fez o ar gelar. — “A gente tá no meio do ninho da serpente, com o Estado querendo o nosso couro, e vocês tão agindo como se tivessem em excursão escolar da prefeitura? Guarda essa p***a agora e foca no objetivo antes que eu use a cabeça oca de vocês pra limpar essa parede na base da porrada!” Eles murcharam na hora, guardando os "brinquedos" e voltando pra posição de guarda, os fuzis curtos apontados pro nada, tentando recuperar a dignidade de soldado. Eu já tava com a mão na maçaneta de carvalho da suíte master, pronto pra chutar o mundo perfeito do Cavalcanti pra baixo e arrancar ele da cama pelos cabelos, quando um som diferente cortou a frieza da noite. Não vinha da suíte. Era baixo. Um lamento agudo, um pedido de socorro abafado, rasteiro, que vinha de uma porta de madeira pesada no fim do corredor, onde o mapa do Neguim indicava ser o escritório ou um quarto de hóspedes isolado. Fiz um sinal tático com a mão. O Gargalo colou no topo da escada, cobrindo a retaguarda com a luneta varrendo o andar de baixo, enquanto eu, Pulga e Faísca avançamos em silêncio absoluto em direção ao som. Eu não esperava por aquilo. O plano era simples: dar o salve no promotor, mostrar o dossiê e sumir. Mas o Morro não ignora grito de mulher, e o Fantasma não deixa covardia passar batido sob o seu nariz. Chutei a porta com tudo, sem sutileza. O estrondo da madeira batendo na parede foi o sinal definitivo de que a "visita social" tinha virado uma operação de resgate no meio do inferno. — “MAS QUE p***a É ESSA?” — O Faísca soltou, a voz travada, o choque quebrando a sua marra de bandido mau. Lá dentro, a cena fez meu sangue virar brasa viva, uma explosão de ódio que quase me fez perder os sentidos. Uma moça, devia ter uns vinte e poucos anos, tava jogada num canto, encolhida em cima de um tapete de pele de animal que custava mais que um carro importado. Ela tava só de sutiã e calcinha, as peças de renda rasgadas, penduradas no corpo sujo de sangue seco. O rosto dela era uma carnificina: um olho completamente fechado pelo inchaço, o lábio partido e marcas de dedos roxos, profundas, no pescoço claro. Ela tremia tanto que o som dos dentes batendo era audível no quarto gelado. — “P-por favor... não me bate mais... eu faço o que você quiser... eu juro...” — Ela soluçou, escondendo o rosto com as mãos algemadas pra frente, tentando se encolher pra virar nada. Eu senti o ódio subir pela garganta como um gosto de ferro. O Octávio Cavalcanti, o paladino da justiça, o homem que queria prender a minha Melissa em nome da moralidade e da "limpeza social", tinha um calabouço particular dentro de casa. O cheiro de uísque caro, suor e medo impregnava o ar, deixando tudo mais nojento. — “Calma, garota. Respira. A gente não é ele. A gente não bate em mulher.” — Falei, baixando o cano da pistola por um segundo, mas sentindo uma vontade quase incontrolável de descarregar o pente inteiro na primeira sombra que se movesse naquele corredor. O Pulga, que é o mais debochado do bando mas tem um coração de ouro que ele tenta esconder atrás do crime, tirou a própria jaqueta tática num movimento rápido e se aproximou devagar, agachando perto dela como se falasse com um passarinho ferido. — “Ei, olha pra mim... a gente veio tirar o lixo da casa, tá ligado?” — Ele falou, a voz mansa, cobrindo o corpo dela com a jaqueta pesada. — “Quem fez isso com você? Foi o porco dono dessa p***a toda?” Ela levantou o olhar devagar, o único olho bom arregalado de puro terror ao ver nossas máscaras de caveira, mas quando percebeu que a gente não tava ali pra castigar, ela simplesmente desabou, o choro vindo em ondas de agonia. — “O Dr. Cavalcanti... ele disse que eu era dele... que ninguém ia me ouvir... que a lei protegia ele e que eu era só um lixo de periferia que ele comprou...” O radinho no meu peito chiou alto, o som seco e urgente do Neguim cortando a tensão do quarto feito uma lâmina de guilhotina. — "PÉ NA ESTRADA, AGORA! Murilo, o sensor de pressão da garagem principal ativou. Três blindados de segurança privada tão subindo a rampa com sirene muda e a PM tá a duas quadras com o cerco montado. O Cavalcanti não tava dormindo p***a nenhuma, ele tava esperando o bote! Ele montou a ratoeira! SAIAM DAÍ AGORA!" — "Merda!" — O Faísca xingou, já colando na janela da sacada pra espiar o pátio lá embaixo. — "Tá cheio de lanterna tática lá embaixo, patrão! Os cara tão vindo no pique de execução, não é pra prender não, é pra apagar a gente!" Olhei pra moça encolhida no chão, agarrada na jaqueta do Pulga como se fosse a única coisa sólida no mundo. Ela m*l conseguia parar de pé, as pernas falhando. Olhei pra porta da suíte master, ali do lado, onde o promotor devia estar rindo, se achando o grande estrategista do Judiciário. O sangue ferveu de um jeito que eu nunca senti. A vontade era de meter o pé naquela porta, arrastar o Cavalcanti pelos cabelos e fazer ele engolir cada dente, cada centavo e cada artigo da lei por causa do que ele fez com essa garota. — "Chefe, a gente tem que ir! O Neguim não brinca com o tempo!" — Pulga me puxou pelo braço, os olhos arregalados por trás da máscara de caveira. — "Se a gente tentar pegar ele agora, a gente morre cercado junto com ela. O corredor vai virar um abatedouro!" — "Neguim!" — Falei no rádio, a voz num sussurro carregado de ódio puro. — "Cria uma distração, p***a! Explode o transformador da rua, joga o SUV no portão, faz qualquer merda pra dar cinco minutos de fumaça!" — "Tô no processo! Já fragmentei a rede elétrica! Gargalo, limpa o caminho da varanda com precisão! Faísca, Pulga, levem a garota, ela é a nossa única garantia agora!" — Neguim respondeu, o som frenético de digitação vindo do outro lado. De repente, um estrondo monumental lá fora. O transformador da rua estourou numa chuva de faíscas azuis e brancas, mergulhando a mansão e o quarteirão inteiro na escuridão mais absoluta e sombria. No segundo seguinte, o som seco dos disparos começou. O Gargalo tinha começado a trabalhar da contenção, o estalo do fuzil dele ecoando como um relógio da morte, segurando os seguranças que tentavam cercar a casa por baixo. — "Vamo, p***a! É agora ou é a vala!" — Gritei, a adrenalina assumindo o comando total do meu corpo. O plano original tinha ido pro ralo, a casa tava caindo em cima das nossas cabeças e o cheiro podre da traição do sistema tava impregnado em cada centímetro de mármore daquela mansão maldita. O Cavalcanti era um monstro de toga, e agora a gente tinha uma prova viva, carne e osso, nos braços. — “Faísca, pega a garota agora! Tira ela daqui por essa varanda lateral, desce pelo jardim usando a corda de rapel rápida e some no mato até o ponto de encontro!” — Gritei, a voz rouca de tanto ódio, empurrando a moça, que pesava quase nada, pros braços dele. — “Pulga, tu vai junto. Esquece o deboche. Cobre o flanco dele com a 9mm. Se algum segurança ou policinha botar o focinho pra fora do arbusto, tu deita ele sem pensar duas vezes.” O Faísca segurou a menina com uma mão e o fuzil com a outra, mas o Pulga travou o pé no chão. O moleque, que vivia de piada e risada, tava com o olhar fixo em mim, uma mistura de medo, fúria e uma lealdade que me deu um nó na garganta. — “E o senhor, chefe? Tu não vem com a gente?” — O Pulga perguntou, a voz firme pela primeira vez na noite, sem nenhuma gíria de comédia. — “A gente entrou junto nessa p***a, e o combinado do Bonde é sair junto. Não vou te deixar aqui pra ser troféu de promotor comédia, pra ele posar de herói em cima do teu corpo, não!” — “É a visão, Murilo. O bando é um só, c*****o!” — Faísca também parou na borda da varanda, mesmo com o peso da garota nos braços. — “Se tu fica pra trás, a gente vira alvo fácil lá fora tentando te esperar no vácuo. Vamos embora todo mundo junto!” Ouvi os passos pesados subindo a escada de granito. O som de metal contra metal, o engatilhamento dos fuzis dos seguranças privados de elite. O tempo de conversa tinha evaporado. — “É UMA ORDEM, p***a! VAI AGORA!” — Berrei, dando um empurrão violento no Pulga em direção à varanda. — “Eu vou cobrir vocês! Vou segurar esses desgraçados nesse corredor estreito e ganhar os três minutos que vocês precisam pra chegar na mata. O Fantasma não morre em Alphaville, seus idiotas! Eu encontro vocês no galpão em vinte minutos. AGORA SUMAM DA MINHA FRENTE!”
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