capitulo 15 Murilo

1247 Palavras
O RITUAL DO CHUMBO E A LEI DO CÃO: O DESPERTAR DO FANTASMA [NARRADO POR MURILO FERREIRA] O ar tava denso, saturado, carregado com aquele cheiro metálico e amargo de morte iminente e o mofo de segredos podres que aquela mansão de luxo em Alphaville escondia por trás das paredes de gesso acartonado e seda importada. O Faísca e o Pulga ainda tavam ali, estáticos, travados no meio do corredor, me encarando com uma lealdade que chegava a doer mais que qualquer estilhaço de bala. Aqueles dois moleques, que eu vi crescer no meio do tiroteio, tavam prontos pra morrer ali, dividindo o mesmo metro quadrado de inferno comigo. — “Se cair um, cai geral, Murilo! Esqueceu da nossa constituição de sangue, p***a?!” — O Pulga gritou, a voz saindo embargada, rasgando o silêncio, mas o dedo dele tava lá, firme, soldado no gatilho da 9mm. — “A gente não deixa o Fantasma pra trás nem se o próprio capeta subir o morro pra cobrar a conta! O bando morre junto, c*****o!” Eu vi o vulto dos seguranças de elite no pé da escadaria de granito, as luzes das lanternas táticas cortando o escuro e a fumaça como se fossem sabres de luz de um filme de terror. O tempo não tava mais correndo, ele tava voando, evaporando entre os meus dedos. — “Eu sei exatamente o que a gente jurou no alto da laje!” — Rosnei, sentindo a veia do pescoço saltar, empurrando os dois com uma força bruta que vinha da sola do pé, vinda do fundo da alma de quem comanda. — “Mas a prioridade agora é a prova viva, p***a! Se essa garota morre aqui dentro, o Cavalcanti vence a guerra no tapetão. Se vocês morrerem, a minha família morre junto de desgosto. Agora VAI, c*****o! É a última vez que eu falo como teu patrão e como teu irmão!” Vi a hesitação morrer e ser substituída pelo instinto de sobrevivência no olhar deles. O Faísca ajustou a garota nos braços uma carga preciosa, quebrada e leve demais pra ser perdida naquele lixo de mansão e pulou a balaustrada da varanda, sumindo na escuridão úmida do jardim. O Pulga me deu um último olhar de soslaio aquele olhar de quem tá gravando cada traço do rosto de um irmão caso o destino decida que aquela é a última cena e saltou logo atrás, cobrindo a descida com a arma em punho. Fiquei sozinho no corredor de mármore. O silêncio durou exatamente meio segundo antes do primeiro estouro quebrar a paz dos ricos. Descarreguei o primeiro pente do fuzil curto na direção do vão da escada. Os seguranças recuaram em pânico, o gesso caro das paredes estourando e voando como neve suja sobre o tapete persa. Eu não tava atirando pra fazer contagem de corpo, eu tava atirando pra construir um muro intransponível de chumbo e fumaça. Recuei pelo corredor, trocando o carregador com a memória muscular de quem faz isso desde os doze anos, sem olhar pra mão. O som do metal estalando no encaixe era a única música que fazia sentido naquela ópera de sangue. — "PEGA ELE! É SÓ UM! VAI PELA LATERAL!" — Uma voz de comando gritou lá embaixo, cheia de uma autoridade que ia sumir em breve. — "VEM BUSCAR O TEU BRINDE, SEUS ARROMBADOS!" — Berrei de volta, a voz ecoando como um trovão, jogando uma granada de fumaça densa que eu guardava pra quando o mundo decidisse acabar. O corredor virou um breu cinzento, um nevoeiro de guerra. Eu me joguei no chão, rolando por cima de um tapete que valia mais que o meu SUV, e cheguei no topo da escada. Vi dois vultos subindo, confiantes na escuridão. Não pensei. Não hesitei. Atirei de cima pra baixo, sentindo o recuo da arma socar meu ombro com a força de um cavalo. Um caiu rolando os degraus, um boneco de pano desarticulado; o outro recuou gritando, segurando o que sobrou do braço. Eu precisava sair dali, e precisava ser agora. Se a PM chegasse antes de eu tocar o asfalto, o cerco fechava e não tinha lenda de Fantasma que desse jeito em cerco de batalhão. Corri pro outro lado, mas a porta de serviço tava travada por fora. Merda. Voltei pro vão central, o pulmão queimando com o pó químico da fumaça e a adrenalina transformando meu sangue em lava. O único caminho era o vácuo. Me joguei sobre o corrimão frio de mármore, deslizando como um moleque no parque e caindo de pé no hall de entrada, um impacto seco que vibrou até nos meus dentes e fez meu joelho estalar. Quando tentei me levantar, a porta dupla da sala de jantar estourou. Três caras entraram de uma vez, fuzis apontados. Eu tava no meio do salão, sem cobertura, um alvo estático no meio do luxo. Pensei por um milésimo de segundo: "É agora, p***a. Morrendo no asfalto de Alphaville pra salvar uma desconhecida e honrar a toga da Mel." Mirei no primeiro, pronto pra levar quantos pudesse comigo, mas antes de puxar o gatilho, o som de um tiro seco, abafado e preciso veio lá de fora. Ploft. O segurança da direita caiu com um buraco perfeito na testa, sem nem saber que tinha morrido. Ploft. O da esquerda foi pro chão com o peito aberto antes mesmo de processar o som do silenciador. Olhei pro vidro da janela panorâmica, quebrado em mil pedaços de cristal. Agachado na sombra de um carvalho gigante no jardim, com o cano do fuzil de precisão ainda soltando uma fumaça quase invisível, tava o Gargalo. — "Achou mesmo que ia te deixar sozinho nessa diversão, Murilo? Tu me subestima demais, parça." — A voz dele veio pelo rádio, fria, calma, no tom de quem tá tomando um café na padaria da Vila. Eu soltei um riso curto, nervoso, a adrenalina começando a baixar só o suficiente pra dar lugar à malandragem de sempre. Corri em direção à saída, passando por cima dos corpos e do sangue que manchava o piso de mármore, e pulei a janela quebrada, caindo na grama molhada logo ao lado dele. — "Nunca achei isso, seu desgraçado. A gente é carne e unha." — Falei, batendo no ombro dele enquanto a gente começava a correr agachado em direção à mata lateral, fugindo das luzes dos giroflex que já começavam a tingir os muros altos de vermelho e azul como um pesadelo de Natal. — "Mas tu demorou pra dar o ar da graça, hein? Queria me ver suar?" Gargalo deu aquele sorriso torto dele, o olhar de sniper já varrendo o perímetro com a frieza de um computador pra garantir que o caminho tava limpo. — "Tava esperando o ângulo perfeito, Murilo. Sabe como é... qualidade acima de quantidade. Um tiro certo vale mais que cem pro alto." — Ele fez sinal pra gente se achatar atrás de um muro de pedra decorativa. — "Como nos velhos tempos, né? Tu entra, faz a bagunça, quebra tudo, e eu fico aqui fora limpando o rastro e garantindo o teu retorno." — "É..." — Respirei fundo, sentindo o cheiro da liberdade misturado com o da pólvora queimada e da terra úmida. — "Exatamente como nos velhos tempos. Mas a conta do Cavalcanti hoje só aumentou. Ele não tem a menor noção do que a gente vai fazer com esse segredinho sujo que ele guardava trancado no quarto."
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