Capitulo 16 Continuação

1807 Palavras
Ouvimos o ronco das XT à distância, um som gutural que era música pros meus ouvidos. O Neguim já tava no ponto de extração. Olhei pro Gargalo e vi o mesmo brilho de vinte anos atrás, a mesma centelha de revolta. O Bonde do Ferreira podia ter crescido, podia ter mansão, família e conta no banco, mas quando a neurose batia e o sistema tentava nos encurralar, a gente ainda era o mesmo grupo de sombras que ninguém nesse asfalto conseguia segurar. A gente já tava quase sentindo o cheiro da liberdade e o ronco das XT no pé da trilha clandestina, quando o estalo seco de um cão de arma sendo puxado travou nossos pés no meio do matagal fechado. — “PARADOS! Mãos onde eu possa ver agora! Larguem os ferros ou a gente abre um buraco de ventilação em cada um!” — Uma voz grossa, vinda de trás de umas árvores de paisagismo, deu a ordem final. Eram quatro caras. Seguranças da elite pessoal do Cavalcanti, mercenários que tinham feito o cerco por fora, prevendo a nossa rota. Eles tavam com a adrenalina no talo, as lanternas táticas caindo em cima da gente, cegando a visão. Eu senti o peso do fuzil na mão e olhei de soslaio pro Gargalo. Ele nem piscou. A gente se olhou por meio segundo. Aquele olhar malandro de quem já cansou de brincar de estátua com a dona morte e já perdeu o respeito por ela. O Gargalo deu aquele sorrisinho de lado, o tipo de sorriso que ele só dá quando sabe que alguém vai precisar de cirurgia reconstrutiva facial em breve. — “E aí, Gargalo?” — sussurrei, a voz saindo estalada e fria. — “Tu escolhe o da esquerda ou o da direita? Porque eu tô com o corpo pedindo uma atividade física das braba pra desestressar.” — “Tô doido pra meter a mão na massa, Murilo.” — Ele respondeu baixo, a voz vibrando como gelo picado. — “Balística é uma arte linda, mas resolver no soco é uma terapia que eu tava precisando.” Os seguranças, achando que a gente tava se entregando de puro medo, chegaram mais perto, diminuindo a distância de segurança. O líder deles, um cara que parecia um armário de três portas de tanto músculo sintético, cuspiu no chão, vitorioso, se achando o herói da noite. — “Acabou a palhaçada seus vermes! Larguem as armas no chão, agora!” Eu soltei o fuzil devagar, deixando ele cair na grama molhada com um baque surdo. O Gargalo fez o mesmo com a sniper dele, desarmando o mito por um instante. Levantamos as mãos, mas com os dedos flexionados, prontos pra virar garra. Os caras tavam crentes que tinham vencido a guerra, que iam levar a cabeça do dono do morro numa bandeja pra ganhar um bônus gordo do promotor. Coitados. m*l sabiam que tavam entrando num moedor de carne. — “Chega mais, comédia. Não mordo não.” — Falei, a voz mansa, o veneno puro destilado na língua. — “Vem algemar o pesadelo de vocês pessoalmente.” Quando o primeiro segurança deu o passo fatal pra me revistar, eu explodi. Não foi um simples golpe, foi um desastre natural. Eu girei o corpo com a força de um furacão e meti uma cotovelada ascendente que afundou o nariz do cara direto pra dentro do crânio. O som do osso quebrando foi como música clássica pros meus ouvidos. Ao mesmo tempo, o Gargalo virou uma sombra borrada. Ele não apenas bateu no segundo cara, ele atravessou o maluco. Pegou o braço do segurança, quebrou no cotovelo com um estalo seco e usou o próprio corpo do infeliz como escudo humano pra chutar o terceiro cara no meio do peito, jogando ele longe. O líder tentou puxar a pistola do coldre, mas eu fui mais rápido que o pensamento dele. Segurei o pulso dele, torci até ouvir o tendão gritar e dei uma cabeçada tão violenta, osso com osso, que o mundo dele deve ter ficado colorido por um segundo antes de apagar. Aproveitei o atordoamento e meti um soco de direita na boca do estômago que fez o cara perder até o batismo. — “Tu achou que era fácil assim, seu bosta?” — Rosnei, pegando ele pelo pescoço com uma mão só enquanto ele tentava desesperadamente recuperar o ar, o sangue jorrando do nariz dele e manchando o meu braço. — “Tu achou que o Fantasma se entrega pra funcionário de playboy que bate em mulher?” O Gargalo tava terminando o serviço dele com uma frieza de dar medo. O último cara tentou correr pro mato, mas o Gargalo deu um carrinho por trás, catou o pescoço do maluco num movimento de jiu-jitsu de rua e deu uma gravata tão justa que o cara apagou em três segundos, caindo mole. O silêncio voltou a reinar no matagal, quebrado apenas pelo som da nossa respiração pesada e pelos gemidos abafados daqueles quatro comédias estirados no chão, moídos. O Gargalo soltou o último cara, que caiu como um saco de batatas podres, e limpou o sangue alheio na calça tática com um desdém absoluto. A gente se olhou e, por um segundo eterno, o peso de todos os anos, das mortes e das responsabilidades sumiu. Éramos só nós dois de novo, os moleques que o sistema tentou engolir e acabou engasgado, com a garganta cortada. — “Tu tá ficando lento, Murilo. Tá ficando mole com a vida de luxo.” — O Gargalo soltou, a voz seca, mas com aquele brilho de deboche e lealdade no olho que só ele tinha coragem de ter comigo. — “Aquele primeiro ali ainda tentou respirar duas vezes depois da tua cotovelada. Antigamente, tu já entregava o corpo pro IML com o atestado de óbito assinado em três vias.” — “É a idade, pô. O amor pela gordinha amolece o soco, mas endurece a vontade de não ser preso pra não perder o jantar.” — Respondi, cuspindo no chão o gosto de adrenalina e ódio. — “O teu chute continua parecendo um coice de mula. O maluco ali vai precisar de um tórax novo e uma alma nova pra amanhã.” De repente, o mato estalou de novo, seco. Outros dois vultos surgiram da penumbra, vindo da direção da estrada de terra lateral. Eu e o Gargalo abaixamos pro ferro num reflexo só, mas logo vimos o brilho das correntes de ouro no pescoço e o jeito maluco de andar que eu reconheceria até no inferno. Eram mais dois seguranças que tinham ficado na contenção da via e vieram ver o que era o barulho de osso quebrando. — “p***a, mais dois? Isso aqui virou rodízio de segurança de condomínio ou o quê?” — Gargalo resmungou, destravando a pistola com um clique sinistro. — “Tô perdendo a paciência com esses figurantes.” — “Chega de gastar munição e fazer barulho, Gargalo. Vamo na mão, pra eles sentirem o peso da Vila.” — Dei um passo à frente, limpando o sangue do rosto com a manga da jaqueta preta. — “Esses aí são brinde da casa. Vamo mostrar pra eles por que a gente virou lenda no asfalto quente.” Os dois caras pararam, paralisados, vendo os colegas de elite tudo moído, sangrando no chão como se tivessem passado por um moedor. Eles tavam com o fuzil na mão, mas a mão tremia tanto que parecia britadeira de obra. Um deles abriu a boca pra gritar por reforço, mas eu não dei tempo nem pro oxigênio entrar. Fui pra cima igual um animal selvagem saindo da jaula depois de anos de fome. Desviei do cano da arma, agarrei o cara pelo pescoço e puxei pra um abraço de morte, metendo uma joelhada no abdômen que fez o fígado dele pedir demissão. O outro tentou mirar no Gargalo, mas o sniper deu um giro por baixo, catou a canela do infeliz, derrubando ele e já montando em cima pra dar aquela sequência de soco técnico que faz o cara esquecer até o próprio nome e a data de nascimento. — “CHEFE, PARA DE BRINCADEIRA DE LUTA LIVRE!” — O grito agudo veio do radinho no meu peito, quase estourando meu tímpano. Era o Neguim, perdendo a paciência lá na extração. — “As motos tão ligadas, o consumo de bateria tá no limite e o giroflex da PM já tá iluminando a copa das árvores aqui do lado! Se vocês não brotarem em trinta segundos exatos, eu vou embora e deixo vocês dois pra casar com o Cavalcanti na tranca!” — “Tá ouvindo a bronca, né?” — Falei, dando o último soco no segurança que já tava entregando a alma. — “O Neguim tá estressado, o estrategista vai enfartar.” — “Aquele ali nasceu com setenta anos nas costas e um relógio no lugar do coração.” — Gargalo guardou a peça e a gente começou a correr de verdade, cortando o mato fechado, saltando tronco podre e ignorando os espinhos que cortavam a pele. Chegamos na margem da estrada de terra onde as sombras das XT tavam vibrando, o som do escape sendo a melodia mais linda do mundo. O Pulga e o Faísca tavam em cima das motos, inquietos, com a garota protegida entre eles. Quando nos viram saindo do mato, sujos de sangue alheio, barro e folha seca, o Pulga quase caiu da moto de tanto rir da nossa aparência de bicho do mato. — “OLHA SÓ OS IDOSOS DA VILA! Achei que tavam colhendo flor pra levar pra patroa e se perderam na trilha!” — Pulga gritou, já acelerando o motor pra acordar a vizinhança. — “Bora, Fantasma! O circo tá pegando fogo e a audiência já tá chegando pra pedir autógrafo!” — “Cala a boca e rala daqui agora, Pulga!” — Montei na minha XT, sentindo o calor do motor roncando entre as pernas, uma extensão do meu próprio corpo. — “Faísca, mantém a garota em segurança total! Neguim, puxa o caminho das sombras, nada de asfalto principal!” A gente arrancou, levantando uma nuvem de poeira e vingança. O som dos cinco motores em uníssono foi o último "vai se f***r" pro condomínio de luxo e pro sistema que o Cavalcanti representava. A gente cortou o asfalto nas sombras, sumindo no breu da madrugada, deixando pra trás o rastro de uma invasão que o Octávio Cavalcanti nunca ia conseguir explicar pra corregedoria sem se enforcar na própria corda. O Fantasma tava voltando pra casa com o troféu, e a guerra jurídica... essa aí só tava começando, mas agora o xeque-mate tava na nossa mão.
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