O REFÚGIO DAS SOMBRAS: ENTRE O DEBOCHE E O RESGATE [NARRADO POR MURILO FERREIRA] O ronco das nossas XT foi morrendo aos poucos, num lamento metálico e grave, conforme a gente encostava na penumbra úmida do setor 4, o canto mais reservado e estratégico da boca. O motor estalava — aquele tec, tec, tec característico de quem forçou a máquina no limite do giro, fugindo de cerco e cortando vento em Alphaville. O cheiro de pneu fritado se misturava com o sereno frio da madrugada e o odor de pólvora que ainda impregnava a minha jaqueta. Desci da moto sentindo cada músculo do corpo vibrar como se estivesse ligado na tomada. A adrenalina tava baixando, e quando essa maré desce, parceiro, a realidade bate na cara com o peso de uma marreta de dez quilos. O Faísca desceu da garupa dele com uma deli

