Chapter 16

1498 Palavras
Sem um pingo de vontade de voltar para casa, para a companhia de Rubinho, começo a dirigir sem um destino. Quando percebo, estou perto da zona sul, o quê me faz por impulso, dirigir até onde costumava ser minha casa. O trânsito intenso, pela primeira vez me acalmou, me trouxe a sensação de familiaridade, como se tudo estivesse novamente em seus devidos lugares. Me lembrou o tempo no qual vinha da faculdade, estressada com tantas matérias e provas, querendo apenas sair daquele trânsito infernal e me trancar em meu quarto. Mas não era bem isso que acontecia. Precisava ser a filha exemplar que eles tanto queriam, tendo que mencionar tudo que havia feito em um dia. Dentro daquele carro, naquele momento, senti falta disso. Mesmo com momentos dolorosos. Dirijo até a frente do condomínio de luxo, permanecendo parada ali por longos minutos, apenas observando a movimentação contínua. Não querendo chamar atenção, continuo a dirigir, indo dessa vez no lugar em que mais gostava de ficar, quando queria me esconder do mundo. Praia do Inferno. De dentro do carro, podia ver as ondas quebrando ao longe e sentir o cheiro do mar. Inspiro profundamente, refrescando aquele cheiro na minha memória, desbloqueando dessa forma, lembranças que estavam esquecidas. Foram incontáveis as vezes em que fui para aquele lugar com Bianca, aonde bebíamos até não aguentar ficarmos em pé e ficamos ali, esperando ter alguma condição para dirigir. Foi ali também que me senti apaixonada por Gael, que achei que tinha encontrado o homem ideal para mim. O homem dos meus sonhos. Também foi ali, que transei com Rubinho e que o fato de gostar de Gael, não ajudou em nada. Aquele lugar havia me proporcionado momentos bons e ruins, uns no qual queria esquecer. Manobrando o carro, deixo a praia do inferno para trás, agora dirigindo para o lugar que achei que nunca sentiria falta quando me formasse. As vezes sentia tanta falta, que chegava a doer. Alguns alunos entravam e saiam da faculdade particular, completamente envolvidos em seus próprios mundos e alheios o mundo ao redor. Uma vez, estive no lugar deles. Indo de festa em festa, cabulando aulas e dormindo na sala de aula. Agora era procurada, estava grávida e quase sendo presa. Por mais algum tempo, permaneço no centro da zona sul. Já passava do meio dia e mesmo com meu estômago roncando de fome ainda, não podia parar em nenhum lugar ali. Então continuei dirigindo, esperando ter forças para voltar para casa e fingir que estava tudo bem. Foi nessa indecisão que uma mulher chamou atenção na calçada, em uma praça. Ela arrumava papelões no chão, enquanto conversava com meia dúzia de cachorros. Como a maioria dos moradores de rua ali perto, também se parecia com um, mas o quê chamava atenção era suas fisionomias familiares. Indo contra aos princípios da minha segurança , estaciono o carro mais a frente e passo a rua, me aproximando devagar. - Hoje vai fazer muito frio. Muito - dizia ela baixo, entretida em arrumar o lugar. Olho com atenção a mulher com cabelo desgrenhado, roupas rasgadas e sujas, lembrando claramente Marco. Quando ela nota minha presença, sorri sem jeito. - Oi - digo baixo. -... Oi - diz voltando a arrumar os papelões. Olho ao redor, notando mais moradores de ruas, além de pessoas transitando ali como se eles fossem invisíveis. - Está com fome? - Ela assenti sem me olhar - Tá. Vou comprar comida - Me afasto, trêmula, me questionando se poderia ser ela ou não. Mesmo na dúvida, encontro um restaurante que fazia marmitex e compro duas, voltando para o lugar que ela estava. - Não sabia do que você gostava, então... - murmuro, ao lhe entregar uma das sacolas. - Como qualquer coisa - diz com um leve sorriso, pegando a sacola, se apressando em se sentar em um dos bancos mais próximos - Deus lhe abençõe. Os cachorros se amontoam a nossa volta, quando nos sentamos. Fingindo não estar incomodada, abro minha marmitex, encarando por alguns segundos a comida, antes de pegar o garfo de plástica, completamente frágil e começar a comer. A mulher ao meu lado, começa a alimentar os cachorros um por um, se revezando em comer. - Faz muito tempo que você mora na rua? - pergunto, lhe dando uma rápida olhada. Ela assenti mastigando. - Faz sim. Nunca entendi como algumas pessoas largam o conforto de suas casas, para simplesmente morarem no relento. Correndo diversos perigos. O caso da minha mãe, sabia que era diferente, entendia que os vícios das drogas, a fez abandonar tudo, inclusive os filhos pequenos e dar uma para uma mulher estranha. - Você tá grávida é? - Ela pergunta de repente, olhando para minha barriga volumosa. - Estou sim. - É menina ou menino? - Menina - Ela fixa os olhos meramente arregalados na rua movimentada em frente, o rosto se tornando pensativa - Você tem filhos? - Marco. Dom. Marcone e Raissa - diz pausadamente. Engulo em seco, não me dando por satisfeita. - Só tem uma menina? - Só - diz sem hesitar, voltando a comer. Faço o mesmo, sentindo uma certa dificuldade em engolir a comida, já que um bolo havia se formado em minha garganta. Não queria acreditar que ela havia me apagado de vez de sua vida. - Não devia tá aqui sentada comigo - diz de repente, uso o garfo para remexer a comida, sem sentir mais fome. - Por quê? - Olha pra mim - Ela sorri, mostrando os dentes amarelados - Toda suja. Fedendo. Enquanto você... - Ela inclina o rosto para o lado, me olhando com atenção, sem tirar o sorriso do rosto - toda bonita. Cheirosa. Se alguns meses atrás, alguém me dissesse para sentar em praça pública com um morador de rua, me sairia da melhor forma da situação, sem querer parecer preconceituosa. Mas muita coisa havia mudado. - Roupa não quer dizer nada - digo com a voz firme - O quê vale é o caráter e o quê se tem no coração. Ela se movimenta para frente e para trás, com o olhar distante. Acabei dando minha comida, quase intocada, para os cachorros, passando os minutos seguintes os observando. Até aquele momento, nunca havia parado para observar o mundo com os olhos de um morador de rua. Eram poucas as pessoas que nos olhava, me olhava, as que olhava, me olhavam com atenção, confusos, se afastando com uma pergunta estampada no rosto. Foi contadas as pessoas, que pararam para ajudar um morador ou outro que pedia comida. Aqueles que não paravam, se afastavam em passos largos, temendo que lhe passassem alguma doença. Me vi em muitas pessoas que passaram por ali, fingindo não enxergar a dura realidade, enquanto fechavam os vidros fumê dos carros. Por um momento, entendi por que uma vez por semana, Gisele saia para distribuir comida para os moradores de rua. Não era por uma obrigação, era uma espécie de gratidão, por uma moradora de rua lhe dar o quê havia perdido. Já estava escurecendo, a quantidade de pessoas na rua diminuía e os poucos moradores de rua ao nosso redor, procuravam um lugar para passar a noite, enquanto outros, tentava pela última vez, encontrar alguém que lhes desse um prato de comida. De cabeça baixa, sinto as lágrimas caírem em meu colo, quentes. - Você realmente não se lembra de mim? - pergunto com a voz trêmula para a mulher que continuava do meu lado. Ela me olha, franzindo levemente o cenho. - Quem é você? Ergo a cabeça, encontrando seu olhar. - Como você pôde me esquecer? - questiono irritada - Como pôde me dar como se não fosse nada?! - A expressão dela congela e num movimento rápido, ela se coloca de pé, andando em direção a sua cama improvisada - Não me ignora! - Sigo ela no mesmo instante - Nunca quis saber onde eu estava ou se pelo menos estava viva! - Por que veio atrás de mim? Não queria ver você - Sustento o olhar dela incrédula - Pra ser sincera, nunca quis você. Vai embora daqui e me faça o favor de não vir mais atrás de mim. Como se cordas estivessem me movimentando, deslizo minha mão para dentro da minha bolsa, segurando com firmeza a arma que estava no fundo. - Se dei você, era por que não te queria! - Esbraveja. Lentamente puxo a arma para fora, puxando o gatilho quase sem perceber, vendo apenas o corpo dela tombar. Dando dois passos na direção dela, ouço seus gemidos baixos e sua expressão assustada num misto de dor. Só quando atiro pela segunda vez, agora perto de seu coração, que ela para de se mexer e os gemidos cessam. Permaneço segurando a arma em frente de seu corpo, até que pisco diversas vezes e me dou conta do que havia acabado de fazer. Com o coração martelando dentro do peito, olho ao redor, me afastando dali o mais depressa que conseguia.
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