Chapter 17

1406 Palavras
Só conseguia dirigir alguns metros. Todo meu corpo tremia, além de eu estar sentindo uma raiva descomunal. Matar ela com duas balas, não havia sido suficiente. Havia sido uma morte rápida demais. Meu celular começa a tocar de repente, em algum lugar, distante. Começo a procurá-lo desesperadamente dentro da bolsa, até que o encontro. - Só liguei pra saber se ainda estava viva, já que o jeito que jeito que saiu, me deu a impressão que iria se enfiar em baixo do primeiro caminhão que encontrasse - diz Guilherme do outro lado. - Não dá pra mim falar agora - digo entre lágrimas. Breve silêncio. - Aconteceu alguma coisa? - Não respondo, já que só conseguia chorar de raiva - Marcela? - Ele insiste. - ...eu matei ela - murmuro. - Você matou quem, Marcela? Mordo meu lábio inferior com força, até sentir o gosto de sangue. - Minha mãe. Outra pausa. - A sua mãe adotiva?! - pergunta alarmado. Apesar de tudo, apesar de Gisele fechar os olhos dela para certas atitudes de Ricardo, não me sentia capaz de machucá-la. Ela havia cuidado da melhor maneira de mim e tentado reverter a situação diversas vezes. - Minha mãe biológica. Dessa vez uma longa pausa se fez, até que a voz de Guilherme soasse baixa, pasma. - Por que fez isso? Por quê? Debruçada sobre o volante, mantendo meus olhos fechados, repetindo as palavras dela na minha cabeça. - Ela nunca me quis. Guilherme solta o ar dos pulmões. - Você tem ideia de quantas mulheres abandonam seus filhos? Em ruas, hospitais, orfanatos ou dão para estranhos? - diz calmamente - É um número absurdo e até onde eu saiba, os casos de vingança contra essas mães pelos próprios filhos, é quase nulo. - É que você não ouviu o quê ela me disse! - digo enfurecida. - Imagino como deve estar se sentido... - Não! Não tem como você imaginar! Sua mãe não descartou você como lixo! - grito enfurecida - A minha sim! E na cabeça drogada dela, ela só tinha quatro filhos!! - Ás lágrimas continuam molhando sucessivamente meu rosto - É tudo culpa dela!Tudo! Por causa dela, Ricardo me tratava m*l, me agredia e não me via como uma pessoa a altura dele! Se ele está morto, é por causa dela! Guilherme ouve tudo em silêncio, o quê por parte, ajudou a tirar parte da raiva de dentro de mim. Não me sentia 100% bem. Mas 80% já era um avanço. - Você tem razão - diz por fim, para meu espanto - A culpa não é somente sua. Toda ação tem uma reação e essa foi sua reação, sua consequência - Tento segurar um soluço - E você acabou de matar outra pessoa, a sangue frio, mesmo não ter sido premeditado. Seco meu rosto, inspirando profundamente. - Vai me prender. É isso? - É o meu dever - diz baixo - Só que se eu fizer isso, a história vai se repetir. - Não quero isso pra minha filha - digo sentindo as lágrimas retornarem aos poucos. - Sei que não. Por isso que não vou prender você agora. Fungo, assentindo. - Toda essa merda está acabando comigo - Admito. - Onde você está? - Na zona sul. - Vou dar um endereço. Só vem, tá bom? O endereço é enviado por mensagem, não hesito ao estender minha mão até a ignição e girar a chave, contrariando meu sexto sentido que não deveria ir. Não foi surpresa para mim, quando o Google Mapas me levou direito para a Rocinha. Pelo menos quatro quarteirões de onde estava morando. A rua era pouco movimentada e as poucas casas que haviam ali, era precária. Diferente de uma. Do lado de fora, um cômodo feito de tijolos. Quando desligo o motor o carro, a porta se abre e Guilherme aparece no meu campo de visão, apenas de bermuda. Caminho até ele, mantendo alguns passos de distância entre nós. - Você está péssima - diz ele, com os braços cruzados sobre o peito. - Eu sei - murmuro - E me sinto suja também. - Aqui tem chuveiro elétrico e toalha limpa. Encurto o pequeno espaço entre nós. - Vou aceitar. Ele dá um passo para o lado, permitindo que adentrasse no cômodo sem reboco e chão de cimento, entretanto, arrumado. Pegando uma toalha branca de uma mala num canto, Guilherme me entrega. No banheiro apertado, não faço questão de fechar a porta. A água quente contra minha pele foi um bálsamo, mas que trouxe lembranças nada boas. Lembranças essas nas quais muitas vezes, preferia chorar em baixo do chuveiro para que ninguém visse, principalmente Ricardo, após suas agressões. Meu corpo se retraí completamente, quando sinto a presença de Guilherme em minhas costas. Seus dedos começando a deslizar gentilmente pelos meus ombros. Estava me perdendo, de forma lenta e certeira. Estava sendo atraída para a órbita sombria do crime, devorada pela sede de vingança. Sabia disso havia algum tempo, obviamente. Estivera observando minha própria transformação com um misto de horror distante e curiosidade. As coisas que antes pareciam horríveis para mim agora eram parte da minha vida cotidiana. Assassinato, tortura, tráfico de drogas... Intelectualmente, ainda condenava tudo aquilo, mas não me sentia mais tão incomodada como antes. Minha bússola moral fora gradualmente mudando de curso e deixara que isso acontecesse. Deixara que o mundo de Gael me modificasse sem nem lutar contra isso. Mesmo antes de saber como minha mãe biológica se sentia, a respeito da minha “adoção”, a situação que ela se encontrava, nas ruas, não me afetava de forma profunda. Estive morbidamente curiosa, em vez de abalada. E agora que sabia o quê ela pensava a respeito de mim e que nunca se importou comigo, o ódio que corria em minhas veias deixava pouco lugar para pena. Entendia que havia sido errado matar ela daquela forma, mas não sentia o erro disso. Eu queria que ela sofresse, que pagasse pela agonia pela qual me fez passar. O fato de conseguir pensar naquele momento, além de analisar minhas emoções desconcertantes, foi bizarro. Estava no banho e Guilherme me beijava, afetando meus sentidos com seu toque. As mãos dele seguravam meu rosto e meu corpo respondia a ele estranhamente. A água quente sobre a pele aumentava o calor dentro de mim. Mas meus pensamentos eram frios e claros. Havia apenas uma solução que eu conseguia ver, apenas uma forma pela qual poderia tentar salvar o que sobrara da minha alma. Precisava mover minhas peças. Encontrar um jeito de continuar avançando até chegar no Rei. Gael estava mais perto e acessível, mas do que imaginei e agora era só questão de estratégia. Precisava recuperar a perspectiva, mergulhar novamente no mundo em que eles estavam já a bastante tempo. Se não fosse pelo meu bem, que fosse pelo bem da vida minúscula que eu carregava. Mas aquilo tinha que acabar. — Guilherme... — Minha voz treme quando ele finalmente libera meus lábios e desliza a mão pelas minhas costas, fazendo com que meu sexo pulsasse de desejo. — A matança ainda não acabou. Ele para abruptamente e ergue a cabeça, ainda me segurando contra seu corpo. O olhar dele ficou duro e o calor do desejo se transformou em algo frio e ameaçador. — Do que você está falando? Engulo em seco, sustentando seu olhar. Ainda não tinha um plano formado, o quê tinha era apenas um rascunho, uma pequena certeza de que conseguiria matar Gael. - Precisa convencer o Samuel de invadir o Alemão. Ele balança a cabeça em negativa, como esperado. - Já falamos sobre isso. - Diga a ele que estou lá. Ele não vai pensar duas vezes e vai dar um jeito de invadir. Ele entra em baixo do chuveiro, passando as mãos pelo rosto, apoiando as mãos na parede, enquanto respirava pela boca com os olhos fechados. - Você já deve ter parado para pensar, que se ele colocar as mãos em você, não vai chegar viva na delegacia. Não apenas uma vez, mais várias. Na cabeça de Samuel, havia sido ingrata. Seus pais haviam dado tudo do bom e do melhor e, para agradecer, matei o patriarca. Sem respondê-lo, enrolo a toalha ao redor do meu corpo e saio do banheiro, sentindo meu corpo uma verdadeira brasa, notando o celular dele sobre a cama. Para minha sorte, o aparelho não tinha senha e foi fácil encontrar o quê queria.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR