Começo a entender. Ele só pode ser o cara que passa drogas aqui no bairro.
Acendo o baseado e começo a fumá-lo freneticamente na frente dele, enquanto ele me observa. Tudo para poder vê-lo, como ele havia me prometido. Quando acabo o cigarro, estou tonta, lerda e quase caindo no chão. Tudo gira ao meu redor, as árvores estão se embaçando, parece que o banco onde ele está sentado dança.
Levanto seus óculos, mesmo assim, e então vejo um par de olhos verdes muito bonitos, uns cílios grandes, tão grandes que chegam até a ser femininos de tão belos. Muitas sardas de sol perto desses olhos.
Minha pressão abaixa e ele me segura.
─ Você está bem? - ele pergunta.
─ Não muito. - Respondo.
─ Quer algo? Água? Algo de comer? - sugere, preocupadíssimo.
Não parece tão perigoso.
─ Não, bobo. Quando eu fumo maconha me dá vontade de rir e de dançar. É só isso. Estou contendo essa vontade porque você parece ser muito sério, aí minha pressão abaixou.
Começo a gargalhar e a fechar os olhos, de vergonha.
Danny acaba rindo também.
─ Ah, é? Ok, então. Podemos dançar aqui nesse parque. - Ele responde.
Entre risos e, diga-se de passagem, chapada, eu acendi o meu celular e coloquei alguma canção de hip-hop. Escolhi esse ritmo para agradá-lo
Nós fizemos uma festinha particular por algum tempo. Comentávamos a letra, dançávamos, ficávamos de palhaçada.
Num momento eu olhei pro céu. Estava bem estrelado, então comecei a sorrir. E a sentir uma brisa fria passando por meu ombro.
─ Sabe, Danny... Desculpa ser assim, louca... foi legal te conhecer hoje. - Digo, viajando na maionese.
─ Tudo bem, Malvina. - Ele responde, e me olha. Sinto como me abraça por trás e me dá um beijo no rosto.
Mais alguns segundos passam em silêncio.
─ Quem sabe nós não nos vemos outra vez, como eu disse? - ele sussurra.
─ Quem sabe. - Respondo.
É estranho como as drogas às vezes te dão capacidades premonitórias, e extra-sensoriais.
Nesta noite eu voltei para casa às 4am da manhã e me enfiei debaixo da coberta.
Durante o resto do verão, eu tive mais um par de encontros anônimos com esse vizinho.
E também transei com vários caras diferentes neste mês de agosto, sem compromisso.
Eu não dava a mínima.
Era legal...
Acho...
* * *
Hoje é o primeiro dia de aula, setembro de 2014.
Advinha só: não sei o que vestir!
Esse foi basicamente o meu tormento de manhã por uma hora inteira. A outra hora foi para me arrumar. Hoje tenho que dar uma ótima impressão, não é mesmo?
Eu fiz a minha mochila com uma Tablet, um lápis óptico e materiais de desenho técnico. A verdade é que estou animada para começar. Esse grau superior parece interessante e vai me ajudar muito com o meu futuro.
Hoje não teremos que vestir uniforme. Que bom, assim minha mãe tem mais tempo para criar vergonha na cara e comprar um para mim.
Por isso vesti uma saia de tecido grosso, com bordados étnicos, e um "crop-top" do mesmo estilo. Arrumei o meu cabelo bem liso, e passei muita maquiagem, mesmo de manhã.
Quando eu estava a ponto de chegar, recebi uma ligação da Elisa.
─ Alô? - respondo.
"Você já está chegando?" ela me pergunta, animadíssima.
─ Estou a uma rua. - Digo, olhando para todos os lados. Vejo como algumas pessoas estão subindo para a mesma direção que eu. Garotas com o cabelo excessivamente repicado, meias rasgadas, piercings, e caras do mesmo estilo.
"Quando chegar para no bar que tem na frente da EA." Diz ela, enquanto alguém dá uma gargalhada do seu lado.
─ Como é o nome?
"Cafetus." Responde Elisa.
─ Estou indo. - Digo.
Ai.
Começo a alisar a minha roupa, tirando os pelos de cachorro que a July deixou na minha meia preta. Em pouco tempo avisto esse bar-cafeteria que tem na frente do colégio.
Vejo Elisa sorrindo do lado de fora, lindíssima, acenando para mim. Do lado dela há um garoto enorme, de quase 1.90cm, com os cabelos azuis, e os olhos azuis. Ele tem a pele muito branca, uns dentes imaculados. Parece de outro planeta de tão lindo. Ele está usando um paletó azul escuro e uma camisa, todo formal.
Me aproximo deles, exibindo um sorriso também. Dou dois beijos na Elisa e puxo uma cadeira para mim. Antes de me sentar, escuto a voz da loira.
─ Malvi, este é o André. Eu conheci ele agora a pouco e o melhor de tudo é que ele vai estudar moda junto comigo. Na minha sala! - ela exclama, empolgadíssima com um sorriso enorme.
Acabo ficando contagiada.
Para quem tem depressão uma pessoa como a Elisa é algo mágico de se ter por perto. Todos os dias eu me sinto abençoada. É como se ela sempre estivesse bêbada. Maravilhosa.
─ Oi! - diz o garoto, acenando para mim, com um grande sorriso. Ele também está rindo do empolgue da Elisa, sutilmente.
─ Oi! - exclamo de volta, e me aproximo para cumprimentá-lo. Nos damos dois beijos. Ele tem cheiro de Johnson's Baby.
Me sento na cadeira ainda sorrindo.
─ Sou Malvina, Lynn... - e antes que eu pudesse dar uma definição para mim mesma, sinto Elisa me abraçando e me agarrando lateralmente contra ela com força.
─...Minha melhor amiga. - Ela completa, sorrindo. Eu me deixo levar como uma onda no mar.
E sigo sorrindo para André, enquanto sinto o amor dela.
─ "Nya". - mio ternamente como resposta para sua frase.
Além de sofrida ainda por cima sou Otaku. p**a que pariu comigo.
─ Hahaha! - Ri André. ─ Que fofas! - ele espreme os lábios numa careta, daquelas que você faz quando está se aguentando para não espremer um poodle fofinho para c*****o, lindo de morrer. Logo não consegue se conter e faz uma brincadeira, fingindo que captura o meu nariz entre seu indicador e o dedo do meio, e logo fazendo o mesmo com a Elisa. ─ Nha! - diz André, exagerando a articulação da letra "a" de um jeito muito terno.