Então miro na direção que o rosto dela aponta. Vejo Luíz, o ex-namorado da Elisa, aparecer com um sorriso ladeado sobre um cavalo branco muito bonito, vestido inteiro de preto. Começo a rir baixinho do lado da minha amiga. Onde eu estou, num conto de fadas? Uau.
O animal dá passos lentos com ele em cima, o corpo do loiro se move com calma e segurança sobre ele. Seus braços puxando as cordas são bem sensuais. Eu posso intuir seus músculos por baixo do seu suéter de gola alta, e os do seu peitoral. Diferente de Luigi, ele se cobre do sol, com um chapéu de cowboy.
Vejo como ele o tira e se senta na minha frente. Sério. Com um olhar profundo, com um semblante calmo. Acabo de ficar arrepiada.
─ Oi. - Ele diz, após se sentar, e coloca os dois cotovelos na mesa e o queixo sobre suas duas mãos unidas.
─ Oi... - respondo. Elisa já não olha para mim. Calma. Então é essa a pegadinha dessa v***a? Ela com um irmão, eu com outro?
Olho para o rosto dele, corando. Luíz tem um olho vermelho, rosado, e um olho azul. É uma coisa bem estranha e esquisita, mas como ele é muito bonito, é algo que fica bem nele.
Para ser sincera, ele é do tipo de cara que é tão lindo que se você fica olhando demais dá vergonha. Ele está, totalmente, dentro dos padrões de beleza. E como sempre tive ranço de pessoas assim, digamos que não sou uma das suas fãs. E ele tem muitas, apesar de ser super calado e reservado. Lá na Escola as meninas não param de cochichar sobre ele.
─ Bem-vinda. - Ele diz para mim.
─ Obrigada. - Respondo.
─ Espero que fique à vontade e sinta-se em casa. - Segue ele, sério. Um garoto cheio de bons modos. Sua voz tem um timbre grave e melancólico, como a dos cantores de música gótica. Parece com a do vocalista da banda HIM.
Sou um pouco observadora, e agora que os dois irmãos estão do lado um do outro, noto que suas feições são muito similares. Mas eles diferem mesmo é na cor. Será que é uma pergunta impertinente?
─ Como você é branquinho, não? - digo, com medo de ter dito algo r**m imediatamente. O cavalo que veio com ele acaba de se sentar numa árvore, como se ele fosse um cachorro; manso e extremamente lindo.
"Este cara é muito pra você." Diz a minha voz interior malvada.
─ Eu sou albino. - Ele responde, calmamente. Vejo como suas bochechas se pigmentam, como se isso houvesse lhe dado vergonha. Tadinho. Ele disfarça o olho vermelho com sua franja. É verdade. Só reparo nisso porque sou empática demais. Merda, acho que eu não deveria ter perguntado.
─ Ah, sim. Desculpa. - Digo, sem jeito e desvio um pouco o olhar.
─ Tudo bem. - Ele responde, abrindo um sorriso de lado.
Luigi vem e serve um filé enorme em cada prato, enquanto observo seus movimentos de ida e vinda desde a churrasqueira até a mesa.
─ Você quer que eu parta a carne para você? - Luíz me pergunta, avançando perto no meu prato, me deixando boquiaberta.
─ Em? Ah, não precisa... - respondo, tímida e nervosa, e olho para o lado, buscando alguma orientação da Elisa. Mas ela e Luigi estão conversando e parece até de propósito o jeito que eles deixam eu e o Luíz num mundinho particular agora.
─ Não faz m*l. - ele insiste. Então pega meus talheres e começa a parti-la para mim, concentrado, olhando apenas meu prato. Meu deus. Eu nunca fui tratada assim, por que ele está fazendo isso?
Acabo de ficar boba.
─ Está bem. Obrigada. - Dou um risinho tímido. A sombra das árvores sobre o rosto dele, e as flores ao redor do jardim, que são de várias cores, amarelas, vermelhas, e rosas, parecem se misturar com o semblante do Luíz, dando-lhe uma aura nostálgica, misteriosa e mística.
─ Prontinho. - Ele diz, ao acabar. ─ Mhuhuhum. - E solta esse risinho, super terno e fofo. Meus ombros se descontraem da timidez após ouvir isso. Eu começo a comer, sorrindo com ternura para ele. Luíz está me observando enquanto como. Eu deveria me sentir coibida, mas apenas me sinto a vontade. Sei lá o porquê. ─ Você quer passear de cavalo quando acabarmos de almoçar? - ele me pergunta.
─ Pode ser. - Respondo, tampando a boca enquanto mastigo.
Ele abre um sorriso ladeado.
Logo coloca os braços sobre a mesa e apoia o queixo nela, se curvando todo e me olhando nos olhos, muito corado. Parece um cachorrinho.
Meu Deus, que fofo.
Um cara de mais de 1,85cm me olhando, todo encantado.
Acabo dando um risinho, e o sorriso dele se expande.
Agora que estamos num lugar mais privado, decido perguntar:
─ Por que você sempre fica olhando para mim? - ergo uma sobrancelha e tomo um gole de vinho.
─ Ern... - ele se atrapalha um pouco, olha para a esquerda, vermelho. E depois olha de novo nos meus olhos, firmemente, mas ainda de um jeito submisso. ─ Digamos que... Eu gosto de olhar para você, simplesmente. - Até paro de comer, escutando o que ele está dizendo. ─ Você é linda, sabia? - sigo atenta, e surpreendida.
─ Exagerado. - Olho para baixo, ficando com vergonha.
─ Não estou exagerando, eu prometo. - Ele aproxima a mão até a minha, de um jeito lento e hesitante. Sua cabeça vai se erguendo. Permito que ele pegue quatro dedos da minha mão, com seu indicador. E algo surpreendente acontece. Luíz se põe em modo galã e agora até entendo por que ele tem essa fama de poeta Don Juan e sedutor. Ele apoia a sua cabeça na outra mão, me olhando de lado, com seu rosto calmo. ─ Você é linda como uma princesa. É por isso que eu fico te olhando. - Ele entrelaça a mão na minha. Acho que vou derreter. ─ E tem a pele bem suave, como eu supunha. - Sinto o polegar dele acariciando o peito da minha mão, enquanto ele não tira os olhos de mim.
Que coisa mais romântica, delicada e fofa. Meu coração não está preparado para isso. E nem sou este estilo de garota. Eu, definitivamente, não sei como reagir.
Sorrio com ternura.
Ele solta a minha mão lentamente, enquanto volta a me olhar como antes, com os dois braços na mesa, apoiando o queixo nela, como um menininho pequeno.
─ Você vai me perdoar por não conseguir tirar os olhos de você, linda princesinha? - ele ladeia um sorriso, após dizer isso com sua profunda e afável voz sussurrada.
Ele me põe tão alto num pedestal que acabo até erguendo os ombros. Então gargalho, me sentindo à vontade.
─ Sim. Mas, hm... Você não me engana, viu? - digo, apoiando meu rosto na mão, e o cotovelo na mesa também.
É. Dizem que quando você gosta e aceita alguém, acaba por imitar sua postura corporal. Parece ser verdade.
─ Haha. O que você quer dizer com isso? - a voz dele fica mais sensual, e lenta. ─ Eu nunca vou enganar você, linda. - Após uma pausa e uma troca de olhares, Luíz continua. ─ Eu realmente penso isso. E inclusive tenho provas. - diz o rapaz, de um jeito malicioso e levemente engraçado.
─ Provas? - Rio baixinho.
─ Mmm... Uhum. - Ele se ergue e se encosta na cadeira. Ladeia o seu rosto, sensualmente. ─ Eu estou escrevendo uma prosa pensando em você. Você quer ler? - ele abre um sorrisinho malicioso.
─ Uma prosa pensando em mim? - Sorrio.
Que safado...
─ Sim, espero que isso não seja... Ern... Uma impertinência para você. Eu... - ele tenta se corrigir, fazendo alguns gestos nervosos, com a vergonha preenchendo seu rosto.
─ Tudo bem! - exclamo, cortando-o. ─ Eu sempre quis ser a musa de alguém. - Digo, bem-humorada, tentando fazer com que ele não se sinta m*l por isso, e me achando. Apesar de que sigo corada, consegui relaxá-lo. Ele começa a rir baixinho.
─ Certo. Então vamos beber um pouco mais de cachaça, e eu prometo que vou ter coragem de ler um pedaço para você. - diz Luíz, sério. E apesar do seu tom de voz, soa bastante cômico, então acabo rindo.
Começo a me sentir bem valiosa e importante. E é culpa dele estes sentimentos. O cara precisa beber para me mostrar as coisas que ele escreveu pensando em mim. Nossa, eu nem sou isso tudo.
De todos modos, os quatro acabamos de comer, e logo nos sentamos nos sofás rústicos que eles têm do lado da cozinha, onde havia uns coquetéis preparados. A Elisa só sussurrou no meu ouvido:
─ Tem uns pós mágicos nas bebidas, entende? - ela murmura. ─ Se não quiser, eu troco a sua. - Ela pisca um olho.
─ Obrigada por avisar. - Sorrio.
E meu sorriso vai ficando malicioso.
─ Não vou trocar, duh. - Nós duas rimos após o que acabo de dizer.
─ Pois é, vamos ficar os quatro loucões nadando pelados no rio. - Ela diz bem alto, levantando a sua taça. Os quatro brindamos entre gargalhadas.
E realmente, conversa vai, conversa vem, estávamos todos ficando bêbados e chapados. Os assuntos começavam a ser fora de lugar para dois cavalheiros educados como esses irmãos, e duas princesas.
Princesas, eu e Elisa?
É piada isso?
* * *
─ Pois é, aí a Malvina Lynn aqui transou com o seu amigo Casandro no banheiro. - Diz Elisa, super bêbada.
─ Hm... - Luíz sussurra. ─ Não é novidade, eu já sabia. - Ele rebate, assentindo.
Parece até que respondeu ela m*l.
Dessa treta eu não entendo.
─ Não é como se eu me importasse. - Ele se gira e me olha profundamente.
Abro um pequeno sorriso ladeado.
─ O que eu tenho curiosidade é por saber o porquê de você ter ficado interessada por ele. - Ele se aproxima, e nossas coxas se grudam lateralmente, enquanto já vamos pelo segundo coquetel mágico.
Estou sentindo calor, Luíz está ainda mais atrativo que de costume, assim perto de mim.
Assim.
Me olhando nos olhos.
Como gosto de chocar os outros, e já estou para lá de Bagdá, decido ser super sincera. Faço uma careta, e logo começo a soltar a brava.