Gustavo
Fecho meus punhos para tentar me concentrar naquele almoço em família, que de família realmente não tinha nada.
Meu pai e o pai de Débora sentados frente a frente discutindo sobre nossas empresas. Nada daquilo fazia sentido para mim... Comecei a estudar direito porque era a única coisa onde eu me sentia produtivo. Estudei muito para chegar onde estou agora, antes era apenas um garoto que não queria que o pai se metesse em sua vida. Hoje sou o CEO de um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil. Meu pai coloca as mãos em meus ombros me tirando de meu devaneio.
—Então Gustavo está pronto para a viagem? —ergo a sobrancelha sem entender.
—Que viagem seria essa? Não fui informado—digo segurando meu copo de uísque.
Sr. Alfredo, meu futuro sogro se levanta e diz animado:
—Então Gustavo, temos alguns acionistas em Nova York e precisamos de um representante de nossas empresas lá. Sabemos que você tem muito trabalho aqui, mas você é o único que pode nos representar nesse momento—diz segurando o copo em minha direção.
—Sim Senhor, mas tenho uma empresa para administrar aqui e como poderia ir? —digo incrédulo.
—Nós cuidaremos disso—diz meu pai. A porta se abre e entram Débora com sua mãe, e logo o assunto muda.
—Poderiam aproveitar essa viagem para passar algum tempo juntos. Meu pai diz e eu quase viro os olhos, enquanto Débora sorri quase até as orelhas. Ela não é má pessoa, me ajudou em um momento r**m da minha vida, mas sei que não é a pessoa certa para mim. Tenho certeza de que não sou para casar.
Débora me tira dos pensamentos com um beijo que não consigo corresponder.
—Creio que como será uma viagem a negócios não seria adequado levar Débora, ela ficará a maior parte do tempo no hotel e não seria legal, não é amor—digo forçado.
Ela sorri, mas sei que já está furiosa.
—Claro que não amor! Seria ótimo ir e passear pelas ruas de NY estou precisando de roupas novas mesmo—diz dando de ombros.
Acabo concordando com toda aquela pressão, continuamos conversando amenidades sobre a viagem e sobre a empresa. Mais tarde sigo para meu apartamento onde tomo um banho demorado, confiro os meus e—mails. Vejo que tenho mensagens de Marcelo, o respondo e Felipe através de nosso grupo. Não posso deixar de rir com todas as palhaçadas deles, parece que com eles eu sou o mesmo homem de sempre. Aquele que ela fez questão de levar embora quando partiu.
Ana
Meu telefone toca e é Artchie meu amigo.
—Hey Anny! — Ele diz animado. Artchie é meu melhor amigo aqui em NY junto a Milla. Eles são completamente diferentes, mas juntos somos três pessoas estranhas muito amigas.
—Oi Artch! E aí como vão as coisas?
—Estão ótimas bebês! Liguei para saber se podemos fazer aquela noite de Netflix ai no final de semana? —Nós sempre nos reunimos ou aqui em casa ou em algum lugar que tenha café ou milk—shake. Penso em como o trabalho foi pesado hoje e decido que preciso relaxar.
—Huum, por que não hoje meu bem? —digo animada, podíamos ver algum filme e pedir pizza.
—Fechou! Ele diz com a língua enrolada, não posso deixar de rir, meu amigo pega todas as minhas gírias brasileiras e as usa com glamour.
——Nooossa que linda falando portuguese—digo gargalhando.
—Me respeita sua safada, eu sou uma gringa culta. Ele diz imitando uma voz fina—Por onde anda Milla?
—Deve estar por aí com algum boy—digo estalando a língua. Ficamos no telefone ainda conversando amenidades e depois desligo e ligo para Milla que estava juntamente com seu boy magia. Duas semanas de ficada e ela já quer se casar, Milla é muito avoada e apaixonada pela vida, fala pelos cotovelos, ama uma música e faz de tudo pelos amigos.
Arrumo as coisas em casa, minha mãe decidiu ir à casa de uma amiga que fez aqui na cidade e disse que voltaria mais tarde. E Katie ficou comigo porque ela ama o tio "atie" e a tia Milinha como ela mesma diz.
Dou um banho em Katie e coloco seu pijaminha de unicórnio, lá pelas oito da noite meus amigos chegam e tudo vira uma bagunça! Minha filha rola no chão com meu amigo enquanto Milla e eu vemos Jane in the Virgin, e nós acabamos de rir.
—Então tio Atie—digo brincando—como está em seu primeiro emprego?
Ele suspira e sei que há algo de errado.
—Sabe como é Ana, nem todo mundo aceita o meu jeito, me olham torto... Mas na maioria das vezes ocorre tudo bem. Semana que vem a configuração das salas dos empregados e estagiários irão mudar por conta do dono que virá para visita—ele diz.
—Huuuum—digo tomando um copo de refrigerante.
Milla chega com um balde de pipocas.
—Já pensou ser um desses CEO gostosão, aiin eu queeroo—ela fez uma voz fininha e um biquinho. Que não aguentei e comecei a rir.
—Mamain o que é gostosão? —Katie pergunta curiosa e eu olho feio para Milla .
—A tia Milla vai te explicar meu amor—digo.
Camilla fica vermelha, mas enfim diz:
—É quando uma coisa é muuuito boa—ela diz, Katie olha com seus olhinhos azuis e lhe abre um sorriso.
—Então minha pipoca está "gostosão"— ela diz e todos caem na gargalhada.
Precisava daquela noite para me distrair, ultimamente pensava demais em coisas que não faziam mais sentido para mim. Pessoas que eu precisava abandonar.
Pela manhã olho pela janela a paisagem fria de Nova York, árvores com suas folhas secas e caídas pelo chão. Eu amo essa época mesmo sendo muito fria, sinto uma mãozinha passar por meus braços e mesmo com os olhos fechados eu sorrio, pois sei que é uma sapequinha que sempre foge para a cama da mamãe no meio da noite. Eu e minha mãe levamos uma vida boa aqui e agora com o emprego novo, será ainda melhor. Dou um beijinho na testa de Katie e me levanto para fazer minha higiene pessoal, escovo meus dentes e tomo um banho e visto minha roupa para o trabalho, uma saia lápis preta com uma blusa branca de botões com mangas até o cotovelo e nos pés que antes sempre estavam com meus all stars queridos, hoje estão de saltos. Olho—me no espelho arrumando meus cabelos escovados e aprecio a mulher que me tornei. Amadureci aos trancos e barrancos, chorei o que devia chorar e um dia resolvi levantar e seguir a minha vida e enfrentar tudo o que viesse pela frente. E aqui estou eu. Suspiro. A nova contratada de umas das maiores empresas de NY. Acordo Katie com beijinho e a vejo reclamar que não quer sair da cama. Dou—lhe banho e vamos para a cozinha para o café da manhã.
Vejo mamãe já fazendo café e lhe abraço
—Bom dia D.Ruth— beijo o topo de sua cabeça, ela me olha com os olhos marejados.
—Ah minha filha! Como você está linda ela pega minhas mãos juntas e as beija—estou muito orgulhosa de você viu?! —ela me sorri.
Não consigo segurar minha emoção, mas respiro fundo, pego uma xícara de café e encosto no balcão, enquanto Katie come suas panquequinhas de morango.
—Ah mãe! Chega disso se não eu vou virar uma panda aqui! — Nós gargalhamos, conversamos amenidades e vejo que já está na hora de ir, sinto meu estômago revirar de ansiedade.
—Beijo meu amorzinho, mamãe vai trabalhar e já volta está bem? —digo a minha pequena e a abraço.
—Mamain voxe traz um pilulito grandão pra mim? —diz sorrindo com aqueles olhinhos azuis.
—Vou pensar sua formiguinha, agora tenho que ir—digo.
Peço um carro por aplicativo, e chego à empresa pela qual trabalharei na parte de Rh como psicóloga. A General Eletric é uma das maiores empresas automotivas de NY e me sinto nervosa só de olhar aquele prédio imponente. Passo pelas portas e encontro um lugar claro e sofisticado à esquerda um balcão com uma secretária daquelas que parece que só comem um pedaço de queijo por dia para não desmaiar lixando as unhas. Conforme vou chegando mais perto, vejo que ela para o que está fazendo e me olha com desdém. Jogo toda a minha neura para o lado e junto toda minha autoconfiança, que não é muita para perguntar.
—Bom dia. O Sr.Richard, por favor—digo.
Ela me olha nos olhos e põe a caneta nos lábios.
—E o que o Sr. Richard iria querer com alguém como você? —ela inquire levantando a caneta de cima a baixo. Respiro fundo, tento me acalmar... E quando me preparo para dar uma resposta sinto que a garota congelar, na mesma hora me viro e vejo um homem lindo com um terno que me parece ser muito caro.
—Bom dia, Srta. Olga—diz e olha para mim estendendo a mão—E a senhorita é..
—Bom dia senhor. Sou Ana, estava tentando falar com o sr. RICHARD, mas essa loira minguada fez questão de falar que pessoas com o meu porte não trabalhariam para ele—falo alisando minha saia.
O homem olha feio para a mulher e depois olha para mim e sorri.
—Por aqui, por favor—diz me conduzindo a uma sala ampla com uma janela imensa e uma mesa de mogno linda.
Ele se senta na cadeira e se debruça sobre a mesa.
—Então, muito prazer. Sou o Dr. Richard—ele sorri e eu perco meu chão, ele percebe no mesmo instante
—Não precisa ficar assim Ana, conversarei com meu sócio e está secretaria será trocada, não admitimos atitudes como essas vindas de qualquer funcionário.
—Mas senhor não precisa disso, ela—Ele não me deixa terminar.
— Já está decidido — ele dá o veredito.
Eu aceno com a cabeça baixa. Não sabia como agir perto deste homem, seu olhar lhe penetrava e fazia tempos que ela não sentia essa coisa.