Saul:
Chegamos perto do muro do setor oeste o vento bate, trazendo cheiro de ferrugem e óleo queimado o Davi anda ao meu lado, os passos dele leves demais para um cara daquele tamanho ele sabe se mover como sombra.
A lanterna dele corta o mato perto da cerca. O chão tá pisado, terra mexida, mas não sei se foi bicho ou gente agacho, passo a mão terra fofa demais, como se alguém tivesse tentado subir.
— Foi bicho?
Pergunto baixo Davi só balança a cabeça de um lado pro outro
-Davi: Não.
Meus músculos endurecem pego a pistola na cintura o silêncio daqui é estranho, pesado até os corvos que rondam a sucata calaram.
— Se tinha alguém, saiu rápido.
murmuro, quase pra mim o Davi ergue o braço, apontando pro mato um galho quebrado outro mais à frente sigo com os olhos até ver a pegada não é animal bota, tamanho médio tecentes.
Meu coração dispara, mas o rosto não mostra nada soldado aprende a guardar a emoção sinalizo com a mão pro Davi abrir em meia-lua ele obedece sem pensar.
Andamos devagar, atentos o sol tá nascendo por trás das carcaças de ferro, pintando o horizonte de fogo uma cena bonita, mas eu só vejo ameaça em cada sombra.
De repente, o rádio chia na minha cintura a voz do Marcos, irritada
—Marcos; Saul, volta aqui Priscila tá chamando teu nome.
Congelo olho pro Davi, que franze o cenho, a barra de ferro pronta Priscila não fala meu nome desde que chegou a respiração me pesa no peito se ela lembrou… ou se alguém entrou no quarto…tanto faz tenho que correr.
— Fica aqui.
digo pro Davi, antes de disparar de volta pelo caminho da sucata meus pés batem forte na terra, cada passo mais rápido o ferro-velho parece um labirinto, mas eu conheço cada canto o rádio volta a chiar. Marcos agora grita
—Marcos: Saul! Anda logo, mano, ela tá chorando!
Aperto o passo e dentro de mim, um medo maior do que qualquer inimigo me atravessa o medo de que a Priscila esteja acordando… ou de que já não seja mais só minha chego no quarto onde ela vive em tempo recorde a porta tá entreaberta, e a primeira coisa que vejo é a Sofia limpando o jaleco, mãos trêmulas só olho.
— Sofia: Ela teve uma crise… e parece lembrar coisas não dei calmante, esperei você.
Assenti com a cabeça, já me preparando pro pior entro.
Priscila tá encolhida num canto do quarto, tremendo, as mãos puxando os próprios cabelos o choro dela corta o ar isso me dói mais que qualquer bala que já levei.
— Oi, Priscila…
Ela levanta o rosto devagar os olhos vermelhos me encaram fixos, duros.
— Priscila: Tu é o Saul… não é médico.
Respiro fundo o coração acelera.
— Tá te lembrando?
Ela morde o lábio, a respiração falha.
— Priscila: Quanto tempo eu tô aqui?
Engulo seco quero dizer a verdade, mas não assim, não desse jeito.
— Amor, preciso saber… o que tu tá lembrando me fala primeiro.
Ela grita, a voz rasgada, se descontrolando.
— Priscila: Me fala você!
Faço sinal pra Sofia preparar o calmante, mas não tiro os olhos dela.
— Tu lembra que tava em um hospício?
O rosto dela se contorce ela balança a cabeça rápido, como se quisesse arrancar a memória pra fora.
— Priscila: Não! Não me traz isso de volta! Não me… não…
As unhas arranham o próprio braço corro até ela, seguro os pulsos antes que se machuque mais ela esperneia, mas não solto.
— Calma… tá segura aqui.
Minha voz sai baixa, quase uma súplica ela tenta se soltar, mas os olhos encontram os meus por segundos e nesse olhar tem raiva, tem dor… e uma fagulha de reconhecimento.
Sofia se aproxima com a seringa pronta eu só balanço a cabeça ainda não.
Prefiro enfrentar esse inferno do que dopá-la de novo.
- Priscila… olha pra mim. Tu tá segura.
Ela esta chorando, respirando rápido tremendo.
Priscila: Segura? Não mente pra mim… eu lembro das paredes brancas, do cheiro… das agulhas.
- Isso continua o que mais tu lembra?
Priscila: Que me diziam que eu era louca! Que eu não tinha ninguém!
ela me olha fixo
-Priscila: Mas tu ia lá… tu… tu não era médico.
-Eu ia pra te ver pra te tirar de lá.
Ela balança a cabeça, desesperada
-Priscila: Então… quanto tempo? Quanto tempo eu tô aqui, Saul?
-Um ano.
Priscila: Um… ano?
Ela se encolhe, tenta puxar os braços.
-Priscila: Tu me prendeu aqui…
- Não eu te salvei.
-Priscila: Salvar não é trancar!
Sofia se aproxima, segurando o calmante na mão eu só erguo a mão, mandando esperar eu continuo olhando nos olhos de Priscila.
-Tu confia em mim? Mesmo sem lembrar de tudo?
-Priscila: Eu… eu não sei.
Do nada ela grita, puxando os braços me afasta com força
-Priscila:Eu não sei quem tu é! Me larga! Me larga!
Ela começa a se debater, o corpo inteiro tremendo as unhas arranham meu braço, os olhos perdidos, dilatados.
-Priscila, olha pra mim eu sou o Saul eu nunca ia te machucar nunca!
Ela chora alto, se encolhendo e batendo a cabeça contra a parede grita
-Priscila:Mentira! Vocês todos mentem! As vozes falavam isso… que eu era uma cobaia!
num desespero aperto o rosto dela entre as mãos, quase implorando
- Não, amor isso acabou tu não tá mais lá.
Mas ela não ouve o choro vira grito, o corpo se contorce tentando escapar o meu coração dispara
Sofia dá um passo à frente, firme, seringa em punho.
-Sofia: Saul, não tem mais jeito.
eu olho pra ela, hesito, o peito queimando mas Priscila já se bate contra mim, ofegante, quase sem ar.
respiro fundo olhos marejados, solto baixinho
-Faz logo.
Sofia se agacha rápido, pega o braço de Priscila e aplica a injeção ela grita mais uma vez, depois o corpo começa a amolecer, a respiração voltando pesada.
eu a seguro contra o peito, as mãos tremendo.
-Sofia: Se não fosse agora, ela ia se machucar de verdade.
eu não respondo só encosto o queixo na cabeça dela, sentindo o corpo dela apagar nos braços dele.
-Eu te prometo… um dia tu vai lembrar de mim sem dor.