Um dia tu vai lembrar de mim sem dor.

1050 Palavras
Saul: Chegamos perto do muro do setor oeste o vento bate, trazendo cheiro de ferrugem e óleo queimado o Davi anda ao meu lado, os passos dele leves demais para um cara daquele tamanho ele sabe se mover como sombra. A lanterna dele corta o mato perto da cerca. O chão tá pisado, terra mexida, mas não sei se foi bicho ou gente agacho, passo a mão terra fofa demais, como se alguém tivesse tentado subir. — Foi bicho? Pergunto baixo Davi só balança a cabeça de um lado pro outro -Davi: Não. Meus músculos endurecem pego a pistola na cintura o silêncio daqui é estranho, pesado até os corvos que rondam a sucata calaram. — Se tinha alguém, saiu rápido. murmuro, quase pra mim o Davi ergue o braço, apontando pro mato um galho quebrado outro mais à frente sigo com os olhos até ver a pegada não é animal bota, tamanho médio tecentes. Meu coração dispara, mas o rosto não mostra nada soldado aprende a guardar a emoção sinalizo com a mão pro Davi abrir em meia-lua ele obedece sem pensar. Andamos devagar, atentos o sol tá nascendo por trás das carcaças de ferro, pintando o horizonte de fogo uma cena bonita, mas eu só vejo ameaça em cada sombra. De repente, o rádio chia na minha cintura a voz do Marcos, irritada —Marcos; Saul, volta aqui Priscila tá chamando teu nome. Congelo olho pro Davi, que franze o cenho, a barra de ferro pronta Priscila não fala meu nome desde que chegou a respiração me pesa no peito se ela lembrou… ou se alguém entrou no quarto…tanto faz tenho que correr. — Fica aqui. digo pro Davi, antes de disparar de volta pelo caminho da sucata meus pés batem forte na terra, cada passo mais rápido o ferro-velho parece um labirinto, mas eu conheço cada canto o rádio volta a chiar. Marcos agora grita —Marcos: Saul! Anda logo, mano, ela tá chorando! Aperto o passo e dentro de mim, um medo maior do que qualquer inimigo me atravessa o medo de que a Priscila esteja acordando… ou de que já não seja mais só minha chego no quarto onde ela vive em tempo recorde a porta tá entreaberta, e a primeira coisa que vejo é a Sofia limpando o jaleco, mãos trêmulas só olho. — Sofia: Ela teve uma crise… e parece lembrar coisas não dei calmante, esperei você. Assenti com a cabeça, já me preparando pro pior entro. Priscila tá encolhida num canto do quarto, tremendo, as mãos puxando os próprios cabelos o choro dela corta o ar isso me dói mais que qualquer bala que já levei. — Oi, Priscila… Ela levanta o rosto devagar os olhos vermelhos me encaram fixos, duros. — Priscila: Tu é o Saul… não é médico. Respiro fundo o coração acelera. — Tá te lembrando? Ela morde o lábio, a respiração falha. — Priscila: Quanto tempo eu tô aqui? Engulo seco quero dizer a verdade, mas não assim, não desse jeito. — Amor, preciso saber… o que tu tá lembrando me fala primeiro. Ela grita, a voz rasgada, se descontrolando. — Priscila: Me fala você! Faço sinal pra Sofia preparar o calmante, mas não tiro os olhos dela. — Tu lembra que tava em um hospício? O rosto dela se contorce ela balança a cabeça rápido, como se quisesse arrancar a memória pra fora. — Priscila: Não! Não me traz isso de volta! Não me… não… As unhas arranham o próprio braço corro até ela, seguro os pulsos antes que se machuque mais ela esperneia, mas não solto. — Calma… tá segura aqui. Minha voz sai baixa, quase uma súplica ela tenta se soltar, mas os olhos encontram os meus por segundos e nesse olhar tem raiva, tem dor… e uma fagulha de reconhecimento. Sofia se aproxima com a seringa pronta eu só balanço a cabeça ainda não. Prefiro enfrentar esse inferno do que dopá-la de novo. - Priscila… olha pra mim. Tu tá segura. Ela esta chorando, respirando rápido tremendo. Priscila: Segura? Não mente pra mim… eu lembro das paredes brancas, do cheiro… das agulhas. - Isso continua o que mais tu lembra? Priscila: Que me diziam que eu era louca! Que eu não tinha ninguém! ela me olha fixo -Priscila: Mas tu ia lá… tu… tu não era médico. -Eu ia pra te ver pra te tirar de lá. Ela balança a cabeça, desesperada -Priscila: Então… quanto tempo? Quanto tempo eu tô aqui, Saul? -Um ano. Priscila: Um… ano? Ela se encolhe, tenta puxar os braços. -Priscila: Tu me prendeu aqui… - Não eu te salvei. -Priscila: Salvar não é trancar! Sofia se aproxima, segurando o calmante na mão eu só erguo a mão, mandando esperar eu continuo olhando nos olhos de Priscila. -Tu confia em mim? Mesmo sem lembrar de tudo? -Priscila: Eu… eu não sei. Do nada ela grita, puxando os braços me afasta com força -Priscila:Eu não sei quem tu é! Me larga! Me larga! Ela começa a se debater, o corpo inteiro tremendo as unhas arranham meu braço, os olhos perdidos, dilatados. -Priscila, olha pra mim eu sou o Saul eu nunca ia te machucar nunca! Ela chora alto, se encolhendo e batendo a cabeça contra a parede grita -Priscila:Mentira! Vocês todos mentem! As vozes falavam isso… que eu era uma cobaia! num desespero aperto o rosto dela entre as mãos, quase implorando - Não, amor isso acabou tu não tá mais lá. Mas ela não ouve o choro vira grito, o corpo se contorce tentando escapar o meu coração dispara Sofia dá um passo à frente, firme, seringa em punho. -Sofia: Saul, não tem mais jeito. eu olho pra ela, hesito, o peito queimando mas Priscila já se bate contra mim, ofegante, quase sem ar. respiro fundo olhos marejados, solto baixinho -Faz logo. Sofia se agacha rápido, pega o braço de Priscila e aplica a injeção ela grita mais uma vez, depois o corpo começa a amolecer, a respiração voltando pesada. eu a seguro contra o peito, as mãos tremendo. -Sofia: Se não fosse agora, ela ia se machucar de verdade. eu não respondo só encosto o queixo na cabeça dela, sentindo o corpo dela apagar nos braços dele. -Eu te prometo… um dia tu vai lembrar de mim sem dor.
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