Marcos:
O dia hoje tá pesado tem alguém rondando, vigiando, não sei de onde Saul tá em alerta máximo qualquer coisinha ele já estoura, e eu... eu corro, como bom irmão mais novo que ainda não quer amadurecer.
Tô aqui, encostado atrás de um fusca preto velho, sem rodas, rabiscando uma carta pra minha Ágatha quem diria? Um ano já passou desde que comecei essa maluquice de mandar cartas pra uma desconhecida.
Ela é porreta, mas foi osso até aceitar minhas palavras três meses mandando sem resposta, ela nem abria até que um dia resolveu me responder chamando de assediador ri sozinho dali em diante, a gente não parou mais.
Não posso visitar ela sou procurado mas ela, esperta, me dá moral de vez em quando já falei que mando caixas balas de café, cigarro, uns mimos pra distrair nas cartas a gente fala por cima, nunca direto nunca se sabe quem pode abrir.
Eu conto os dias pra ela sair prometi que vou buscar ela ri, diz que sou doido talvez seja só sei que no dia em que a Lili cantar, eu vou mesmo sequestrar ela dane-se.
Saio do devaneio quando vejo Ivan e Susu chegando os dois sempre rindo, sempre juntos a Susu já tá com a barriga estourando, m*l consegue andar.
—Ivan: Aí, Marcos
Ele me chama.
-Ivan: preciso que me cubra na oficina a Susu tem médico.
Ela sorri, ofegante.
—Susu: Não adianta fazer essa cara, padrinho é pra essas coisas, ué.
— Tá que horas?
—Ivan: Daqui a meia hora.
— Fechou vou avisar o Saul que vou nessa.
Susu estreita os olhos.
—Susu: Teve intruso?
Respiro fundo.
— Não sei mas achei pegadas... tá estranho.
Ivan balança a cabeça, já irritado.
—Ivan: Falo sempre tem que colocar mais câmera nessa parte mas ninguém me ouve...
Vou até o anexo onde Saul costuma ficar, chego devagar, batendo leve na porta de ferro lá dentro o clima é outro silêncio de morte, só o barulho do rádio chiando Saul tá sentado, pistola desmontada sobre a mesa, limpando peça por peça como se fosse um ritual.
— Preciso sair
falo meio sem jeito.
— Ivan pediu pra cobrir ele na oficina, a Susu tem médico.
Ele ergue os olhos devagar, aquele olhar que atravessa não responde logo, deixa o peso do silêncio cair em cima de mim eu já conheço é o jeito dele medir até a minha respiração.
—Saul: E as pegadas?
ele pergunta, seco.
— Vi perto do portão não sei de quem pode ser nada...
—Saul: Aqui nada nunca é nada, Marcos.
Ele bate a mola da pistola na mesa, firme.
—Saul:Se eu mandar você não sair, você não sai. Entendeu?
Meu estômago aperta quero dizer que é só uma consulta, que a Susu não pode perder. nas engulo eu sei a tensão que ronda ele.
— Entendi
respondo, baixo ele encosta na cadeira, acende um cigarro, solta a fumaça sem pressa.
—Saul: Vai mas fica esperto um passo fora da linha e eu mesmo vou te buscar.
Assinto, quase aliviado me viro pra sair, mas antes de alcançar a porta, a voz dele me puxa de volta.
—Saul: Marcos.
Viro.
—Saul: Essa menina das cartas... não mistura o coração com a nossa guerra você sabe o preço.
Não digo nada só abaixo a cabeça e saio dentro de mim, um nó o medo do Saul, a ansiedade da Susu, e a vontade louca de ter logo a Ágatha nos meus braços.
Caminhei até a oficina por fora, parece só mais um buraco de bairro motores abertos, carro velho empilhado, cheiro de óleo queimado mas ali dentro é que os negócios de verdade acontecem.
Empurrei a porta enferrujada Sofia tava logo na entrada, sentada elegante, perna cruzada, xícara de chá na mão, como se nada no mundo pudesse atingi-la o olhar dela passou por mim rápido, avaliando.
Mais ao fundo, vi Mauro discutindo com um sujeito que não me cheirava bem cara nervoso, suado, voz grossa.
—xx: Tá faltando carga...
ele reclamava, batendo a mão na bancada.
—xx: Se vocês não entregarem o restante, eu não volto.
O tom dele era ameaça pura Mauro segurava firme, mas eu percebia que tava tirando forças da calma pra não explodir.
Fiquei quieto, na minha abri o capô de um Palio velho encostado e comecei a mexer, só pra parecer ocupado meus ouvidos, atentos cada palavra deles caía no ar como pólvora seca.
Sofia girou a colherzinha dentro da xícara, o barulhinho metálico quase abafava o clima tenso quase porque o sujeito não parava.
—xx: Eu pago caro, não aceito metade do combinado vocês acham que eu sou o****o?
Ele rosnava.
Mauro respirou fundo, olhando rápido na direção da porta eu entendi a mensagem: fica fora, moleque, isso não é pra você.
Mas como fingir? Eu já tava dentro.
E a cada segundo, aquela oficina simples cheirava menos a graxa e mais a pólvora prestes a estourar do nada, Sofia soltou a voz, calma demais.
—Sofia: Mauro... meu chá esfriou.
A frase simples me gelou a espinha eu sabia que vinha coisa.
Ela pousou a xícara na mesa, abriu a bolsinha de crochê que sempre carregava e, sem pressa, puxou uma pistola pequena, reluzente dois tiros secos ecoaram dentro da oficina o cara nem teve tempo de reagir caiu com a testa explodida sobre a bancada.
O silêncio que veio depois era ensurdecedor Sofia nem piscou só me encarou, séria, e falou como quem pede pão na padaria.
—Sofia: Vota a água esquentar meu chá esfriou.
Eu congelei o cheiro de pólvora misturado ao de óleo queimado grudou na garganta.
Olhei pra Mauro ele tava de braços cruzados, impassível, apenas deu um passo de lado, pegou o corpo pelo colarinho e arrastou pros fundos, sem dizer uma palavra.
Fiquei ali, parado no mesmo lugar, com a mão ainda dentro do motor do Palio, fingindo que mexia em alguma coisa
naquela oficina, até o chá da Sofia podia ser sentença de morte.