Terminado meu banho, fui à cozinha. Isa já não estava, porém, Zayn ainda estava sentado na cozinha, parecia pensar.
Sentei à mesa, olhando-o, um pouco desconfiado.
— Tem trabalho, garoto… — disse ele. — Felizmente, já conhece a responsabilidade e isto é positivo. Agora que sua vida mudará, tem muito que nunca experimentará porque infelizmente, aqueles desgraçados acabaram com a mínima possibilidade de você ter uma infância razoavelmente saudável.
Continuei comendo, tentando não pensar nas palavras dele.
— Trabalhar e estudar será difícil. Na ausência de um pai, você é o homem; na ausência de pai e mãe torna-se completamente responsável por si, somente um homem solteiro. Ajudaremos, mas não para sempre, afinal precisa caminhar só.
— Não incomodarei. Não precisa se preocupar, senhor!
— Espero! Aziz e Soraia são simpáticos, mas egoístas e egocêntricos. Conte com eles, até certo ponto. Infelizmente, optarão por aquilo que serve, primeiro, seus interesses e depois os interesses da comunidade. Então, tome cuidado com qualquer caridade que receba deles! Pode não ser de graça.
— Lembrarei!
— Partirei. Isa virá periodicamente. Não se esqueça de estudar. Infelizmente, ainda não ajudarei com trabalho, mas sempre que eu precisar de ajuda com algo que sei que você consegue realizar, lembrarei de ti, primeiro!
— Obrigado, senhor. Boa noite!
— Aziz conseguiu impedi-lo de ir ao orfanato. Este processo o faz abdicar do conforto de ter um lugar para ficar, mas o poupará de algumas muitas superfluidades tóxicas. Boa sorte, garoto. Salaam Aleikum — cumprimentou ele, formal, saindo.
— Aleikum Essalam! — retribui, pensativo.
Durante a refeição, só tentei ordenar meus próximos passos.
Eu precisava de um lugar para morar, comida. Ao terminar de lavar a louça, fui ao quarto procurar o caderno onde minha mãe anotava todos os nossos gastos diários.
Peguei uma folha em branco e fui à sala onde calculei os gastos dos últimos meses. Aproximados quatrocentos dólares mensais com contas, compras, aluguel… O dinheiro reservado me compraria mais três ou quatro meses.
Sem coragem para ir à cama no quarto, apaguei as luzes — pensando na economia — e deitei no sofá.
Infelizmente, bastou deitar para sentir a gélida pele dela, na ponta dos dedos… para ser atormentado pela arenosa textura das perfurações fatais!
Manter os olhos abertos, desenhava no teto seu imóvel corpo.
Longos suspiros foram a única resposta que consegui ter à noite mais apavorante e perturbadora da minha vida.
***
Até os primeiros raios de sol aventurarem-se por entre as cortinas fechadas, quando arrumei-me para ir ao colégio.
Saí cedo, rumando à casa de Soraia. Conforme o esperado, Aziz estava regando o jardim. Ele pareceu surpreso ao me ver.
— Bom dia, Noah. Como posso ajudar? — Sorriu ele.
— Preciso entender como procurar uma casa, como pagá-la e as contas… — respondi, depois de um suspiro para tomar coragem. — Também quero saber dos riscos, se puder, é claro!
— Entre! — Ele me convidou, gentil.
— Quero só aprender, preciso. Logo é hora do colégio.
— Na próxima vez que for lidar com estas coisas, te chamo, você vem e eu te ensino. Procurar um lugar para morar exigirá nossa ajuda, poucos aceitarão negociar com você dada sua idade!
— Se necessário, o senhor me ajuda!?
— Claro, menino. Esta ajuda posso oferecer sempre!
Segui ao colégio e todo o corpo docente estava mobilizado para saber como eu estava, se eu precisava de algo.
Isto me confirmou que a notícia espalhou e todos já sabiam.
Não tinha paciência — ou talvez vontade — para lidar. Então, fui direto para a sala sem falar com ninguém. Liandra estava sentada só, a cumprimentei e sentei no mesmo lugar de sempre.
Organizei meu material na mesa.
— Meus pêsames! — Ouvi seu sussurro, vindo da carteira atrás de mim. — É horrível, eu sei.
Parei o que fazia, suspirei; tomado por melancolia de novo!
— Obrigado. Suportarei… — respondi.
A professora chegou, avisando-me que uma visita obrigatória, chata e desestimulante ao conselheiro ocorreria.
Fui, convicto que não mudaria minha vida em nada!
Foi uma longa hora em silêncio, olhando-o. Felizmente, intransigente ele não foi, o que julguei respeitoso com meu luto.
Liandra aproximou-se, não conversávamos, mas seu intuito era oferecer companhia e apesar de, num primeiro momento, não sentir, aquilo fez muita diferença.
Infelizmente, a indiferença, frente as estúpidas brincadeiras, foi lentamente substituída por apatia ou frieza, não sei. Segui não as combatendo, mas bastava olhá-los e a certeza que nada mais eu tinha a perder jorrava; fazendo-os, ao menos, temer!
Neste dia ainda tentei buscar serviço, mas com tudo que fiz no fim de semana, não tive trabalho para ajudar a me distrair.
Os dias seguintes à morte dela seguiram a mesma monotonia, perdendo cor a cada segundo passado.
Conforme me prometeu, Aziz ajudou a esclarecer as responsabilidades adultas e infelizmente, também foi arauto do péssimo aviso que o momento de me mudar chegou!
Felizmente, lidar com a mudança foi rápido. Arrumei minha mala, com minhas roupas e com o último bilhete que a escrevi.
O dia da mudança foi trabalhoso. Não fui ao colégio e acordei bem cedo para começar a pôr a comida que ainda tinha, em caixas para transportar; cobri tudo novamente com os plásticos e essa sorte de preparos que aprendi serem necessários.
Levei três caixas médias com a comida para a frente da casa de Isa. Retornei para buscar a mala e finalmente bati à porta.
— Boa tarde, Noah. — Ela sorriu, receptiva. — Estava aguardando. Zayn avisou que chegaria hoje!
— Cuidei para trazer os mantimentos restantes — falei, deixando a mala à porta e pegando as caixas empilhadas.
Ela me guiou até a cozinha e nós voltamos para a sala.
— Organizei o quarto de hóspedes para recebê-lo — disse ela, enquanto eu pegava a mala e punha na sala. — Não se incomode com o tempo que ficará, foque em estudar.
— Não é parte dos planos me prolongar. Então, continuarei trabalhando com o que puder para conseguir me mudar logo!
— Será difícil na sua idade negociar um lugar para ficar.
— Aziz ajudará. Eu pedi. Continuarei economizando, assim quando sair, terei como manter as despesas por algum tempo.
— Manter uma casa é difícil. — Isa disse, sentando ao meu lado. — Precisa do dinheiro da casa, das contas, das compras, um fundo para lidar com a manutenção da casa ou da própria saúde. Não deveria pensar nisso agora!
Muitas respostas malcriadas passaram em minha mente, mas em respeito ao seu gentil olhar, silenciei, abaixando a cabeça.
— Venha, vamos ao quarto! — convidou ela, pondo a mão no meu ombro e caminhando ao meu lado para o segundo andar.
A casa era humilde, os poucos luxos que identifiquei eram meramente conforto. Estava silencioso e cheirava a tâmaras.
— Finalmente, conseguiremos dá-la uma cerimônia fúnebre. Isto será em dois dias. Viajaremos a outro estado e eu lidarei com os pormenores. Prepare-se e seja forte. Nestes próximos dias, gostaria que não fosse ao colégio para evitar a fadiga mental.
Ela abriu a porta do quarto e me cumprimentou, saindo.
Entrei e o quarto era relativamente grande, em cores claras, parecia confortável, a grande janela seguia os moldes da casa.
Cortinas, roupas de cama e banho, de cor escura, estavam dobradas sobre a cama. Presumi ser opcional trocar, mas ainda o fiz. Havia uma cômoda para as roupas, lidei com isto para não ter trabalho depois. O bilhete, eu guardei buscando preservar aquele que representava um grande momento da minha vida.
Aéreo, observei a cama arrumada por alguns instantes.
Encorajei-me e sentei. Após um longo suspiro, deitei!
Novamente vi-me inundado por lágrimas, sufocando minha humanidade, esfriando meu toque. Observando meu reflexo num espelho d’água, observei a feição de uma pessoa mortificada.
Aqueles não eram meus olhos, afinal lembrava-me deles regados com o intenso brilho da vida.
Aquele não era eu, somente a apatia que restou após perdê-la.
Observei minhas memórias descolorirem num psicodélico turbilhão que aumentava sua velocidade até estar tão rápido a ponto de simplesmente me acordar.
Apesar da agitação e sentimentos intensos, meu despertar foi calmo, olhei ao redor, tentando certificar-me que estava desperto. Ao ter mínima constatação positiva, fui ao espelho; buscando reafirmar minha identidade para mim mesmo.
Infelizmente, no espelho, os olhos não foram diferentes.
Senti tristeza, mas meus olhos não a expressaram.
Numa rápida tomada de decisões, conclui que julgaria isto relevante depois. Arrumei-me e observando a luz que entrava pela janela junto a uma suave brisa que se aventurava na mínima a******a que deixei, julguei estar próximo ao almoço.
Desci apressado, crendo que ainda poderia ajudar.
Na cozinha, Isa cantarolava enquanto cortava legumes.
— Perdão, cochilei! — falei, envergonhado. — Posso ajudar?
— Sabe cozinhar!? — Ela riu, parecia surpresa.
— Sim, posso ajudar. Talvez pague minha estadia.
— Se for para pagar, não pode cozinhar! — disse ela, ríspida. — Por Allah! Pode se juntar a mim para cozinhar nossa refeição, mas não é escravo. Estamos na América, mas não somos eles; deixe o tratamento inumano para os nativos e para os homens!
— Perdoe-me, senhora. Não tive intenção de ofendê-la.
— Está perdoado! — disse ela, volátil, retomando a doçura.
Sentei para ajudar com a refeição.
Em suma, o silêncio predominou, Isa parecia satisfeita e seus olhos evidenciavam esta felicidade e apreciação.
Ali chegou pouco antes do almoço, passou rapidamente pela porta da cozinha para dizer: “Cheguei!” e seguiu ao quarto, sem ao menos esperar Isa respondê-lo.
Estranhei o gélido contato de ambos, mas voltei-me a tarefa.
— Banhe-se, deixe-me terminar de servir a mesa!
— Não deveria ser o contrário? — perguntei, intrigado.
— Está habituado ao contrário?
— Sim, quando cozinhávamos, gostava de poupá-la e deixá-la ter tempo para descansar os braços, as pernas… dá-la mais tempo para cuidar da vaidade. Sou jovem, homem e trabalho pouco, infelizmente! Logo, aproveitar a energia que sobra é sábio.
— Menino, você, com certeza, foi o melhor filho do mundo!
Fiquei constrangido, é claro!
Suspirei, fugindo da melancolia que, taciturna, aproximava-se e, traiçoeira, conseguia me envolver.
— Aproveitarei a oportunidade que me foi dada! — Ela sorriu, acariciando meu rosto e deixando a cozinha em seguida.
Terminei de servir a mesa e fui me arrumar para a refeição.
Quando voltei, Ali já estava à mesa, arrumado.
— Boa tarde. Como está? — perguntei, tentando ser educado.
— m*l-humorado e você?
— Normal, eu acho! — Dei de ombros. — Dia r**m?
— Sem dúvida. Já se mudou?
— Sim, não ficarei tempo o suficiente para atrapalhá-los.
— Provavelmente é o que o pai espera, mas não fala isto para a mãe. Ela pode ficar chateada em saber que não pode ajudar…
— Tomarei cuidado!
— Precisa de trabalho? — Ali perguntou.
Assenti, obviamente!
— Conheço um pessoal, te apresento. Assim, consegue muito dinheiro tão rápido que não precisará depender de ninguém!
— Obrigado!
Ali mudou o assunto, com muita naturalidade e, em seguida, Isa chegou. Ele levantou-se para abraçá-la.
— Como foi o dia de aula? — perguntou ela, ao sentar à mesa.
— Terrível. Todo mundo só fala de assassinato, de supremacistas… alguns apavorados… outros curiosos… Os racistas com as piadas e brincadeiras de péssimo gosto; não me envolvi em briga, mas se continuarem, serei autor do próximo assassinato! — disse ele, transbordando descontentamento.
— Ali, isto não é brincadeira. Por Allah!
— E preciso suportar o racismo deles? — retrucou ele.
— Você também é assim! — falei por impulso.
— Eu!? Racista!? — Gargalhou ele, obviamente irônico. — Você só pode estar brincando!
— Nunca respondi às suas provocações, mas ouvi. Quando brinca com a impureza do meu sangue e me segrega por causa disso, você é racista! Quando cria uma “gangue” de muslins para segregar americanos, você também é racista!
— Gangue, Ali!? — repreendeu Isa.
— Não é literal, senhora! — justifiquei — Entretanto, quando estão atacando parecem tão coordenados quanto.
— Você só pode ter vindo para acabar com a minha vida! — disse Ali, em negativa.
— Não quero acabar com sua vida. Só acredito que, se quer combater o racismo, precisa deixar de ser racista primeiro! Não tem como combater e ser, exceto se suicídio for o plano.
— Apesar de ter um ponto, não devemos seguir esta conversa à mesa — disse Isa. — Depois seu pai conversará com você!