VIII. O Pouco Valor da Vida

2000 Palavras
O silêncio predominou na refeição. Ao fim, Ali subiu. Ajudei a lidar com a mesa, poupei Isa da louça e ao terminar estas tarefas, subi para lidar com meu asseio. Enquanto me arrumava após o banho, Isa bateu à porta para entregar os materiais dos dias de aula que perdi, ocupado com a mudança. Dei uma passeada no bairro em busca de qualquer serviço e infelizmente, não consegui. Logo, voltei para casa, peguei os muitos materiais escolares e sentei na sala para estudar. Ao fim da tarde Ali desceu, arrumado como um burguês. — O estudioso não tem nada melhor para fazer!? — Riu ele. — Vestido assim, você até parece gente! — debochei, rindo. — Essa foi boa! — Gargalhou ele. — Você vem? — Guardarei tudo — falei, apressado, recolhendo tudo. — Deixa aí, minha mãe guarda! — Minha mão não cairá! — retruquei, subindo. No quarto peguei um agasalho, afinal os ventos do inverno já sopravam para tirar meu descanso. — Casaco!? — Ali reclamou, virando os olhos. — É frio e o inverno está chegando! Saímos, depois de uma risada de Ali, em negativa. Ali realmente parecia refinado e educado, conforme passava por outros na rua e os cumprimentava, parecia outra pessoa! — Qual nosso destino? — indaguei. — Apresentarei o pessoal. Eles podem arrumar trabalho para ti. Dependendo do que está disposto a fazer, dá para ficar rico! — Não quero ficar rico, só preciso sobreviver! — Todo mundo só precisa sobreviver, até ganhar o primeiro bolo de dinheiro fácil pela primeira vez! — Riu Ali. — Sei que gosta de ser um bom menino e tal, mas preciso que não seja um garoto exemplar agora e me dê seu sigilo, combinamos assim? — Se tem tanto dinheiro que pode me enriquecer, coisa boa não é! Então, pode contar com meu silêncio. — Não precisa aceitar. Só apresentarei, a escolha é tua! Não participo muito destas coisas… — Riu ele, obviamente mentindo. — Não gostaria de precisar disso. Decepcionaria ela. — Infelizmente, a satisfação de um morto não põe comida na mesa de ninguém — disse Ali, rude, porém razoável. — Allah deu, Allah tira! Resta aos que ficam: suportar e sobreviver! Segui com ele, pensativo e em silêncio, a um edifício de cinco andares nos limites do bairro. Haviam jovens de idades e etnias diversas, juntos em grupos mistos. Alguns conversavam, bebendo algo envolto em papel. Outros riam, cercados por uma densa e n***a fumaça. Ali cumprimentou todos por onde passou com o ar casual de sempre, apesar de destoar da forma como estava vestido. Entramos e uma amálgama de bebida, cigarro e esperma impregnava o corredor, deixando-me imediatamente enjoado. Chão, paredes e teto estavam manutenidos apesar da lúgubre cor amarelada que indicava o quão velho aquele lugar era. Numa porta enferrujada no segundo andar, Ali bateu à porta, dizendo: “Sou eu!” e entramos ao apê. O local estava pessimamente iluminado. Uma moça seminua dormia no sofá velho e três rapazes estavam sentados na cozinha, contando muito dinheiro sobre a bancada. — O que quer, Ali? — O rapaz mais velho perguntou. — Sabe aquele ataque supremacista? — Ali indagou. — Deixou um órfão… e ele precisa sobreviver, logo… ofereci ajuda. — Esse é o órfão? — O mais novo perguntou. — Como chama? — Noah. — Com essa cara, imagino que não tenha a menor ideia de onde está se metendo… estou errado? — O mais velho perguntou. — Presumo, mas não posso dizer garantidamente saber! — Quantos anos tem, garoto? — Logo quinze. — Lastimável o que aconteceu. Veio pegar trabalho? — Ainda quero me reservar o direito de não pegar nada, mas agora que conheço, se precisar, não demorarei para procurá-los. — Sempre temos trabalho e para todos os gostos, nacionalidades, sexos e idades! — É simples — disse o mais jovem. — Pagamos um terço antes e o resto depois. Se julgar ser mais esperto que nós, bala na cabeça! — Ele sorriu, emulando um revólver com a mão e fingindo disparar. — É bom pensar bastante — disse o veterano. — Não tem volta… depois que conhecer dinheiro fácil, viciará! — Sem problemas! — assenti, reflexivo. — Nossos pêsames pela sua mãe. — O rapaz novo disse. — Quando encontrarmos eles, prometemos entregá-los muito sofrimento antes de matar! Com isto, você pode contar. — Tomara que sobre um pouco para todos que querem um pedaço deles! — Gargalhou Ali. — Preciso voltar, tenho trabalho. — Engomadinho assim, percebe-se! — O mais velho riu, tirando risadas dos outros. — Qualquer coisa, menino Noah, vem! Assenti e deixamos o local, voltando aos limites do bairro. — Consegue voltar para casa daqui? — Sim, posso perguntar por quê? Você tem família, casa… — É importante começar a lidar cedo… é bom, me paga luxos que meu pai nunca pagaria. Ele ensinou haver coisas que devo conquistar com trabalho, tenho trabalho… só não é legal! — Seu pai realmente parece rígido. — Se não fosse a mãe, eu trabalharia pelo quarto onde durmo, por cada grão que como, cada gota d’água que bebo, as roupas que visto e tudo mais. — Muito ortodoxo!? — Não ortodoxo, ele tem os próprios valores e preza por eles. Diz que só nos chamamos homens quando edificamos nossa existência, não só fisicamente, mas mental, espiritual e outros… — Apenas o que usufrui das forças dadas por Allah buscando edificação é verdadeiramente digno de honrarias! — falei, lembrando-me de outra das lições que ouvi outrora em casa. — Algo do tipo! — Riu Ali. — Até logo, garoto de Allah! O dia findou com relativa solenidade e o dia que antecedeu o funeral passou devagar, mais descolorido que os anteriores. Tive muitos dos momentos aéreos durante as tarefas domésticas e Isa, notando isto, me averiguava constantemente; sendo responsável por puxar-me de volta do exótico afogamento. *** No dia do funeral, saímos cedo. Nós quatro em um carro, com uma procissão dos carros dos outros moradores nos acompanhando. Apenas algumas moças trajavam-se tradicionalmente; os homens, assim como eu, usavam ternos. A vestimenta não era desconfortável, mas ainda tive uma sufocante sensação durante a viagem, causada principalmente pela certeza que eu veria o corpo dela uma última vez. Foi angustiante! Com muito custo, mantive a sobriedade. A viagem durou duas longas horas. Quando chegamos à mesquita, tudo estava devidamente ordenado para receber a cerimônia. Era bonita e lembrava-me uma mesquita que eu adorava visitar na infância. — Venha. Servirei água. — Zayn disse, pegando um lenço na bolsa de Isa e me entregando. — Mantenha a calma, garoto. — Cuidarei das coisas. — Isa disse. — Comportem-se! Zayn serviu-me com água. — Posso entrar? — pedi para Zayn. — Claro, garoto! É nossa casa. Agradeci com um cumprimento silencioso e entrei. Apesar de menor, singela, eu diria, os salões eram idênticos ao que lembrava. Isto trouxe uma saudosa nostalgia, tornando o trânsito na mesquita mais agradável. Segui ao salão de oração. Algumas poucas velas queimavam em candelabros nas paredes, responsáveis pela baixa iluminação. “Preciso suportar… Preciso sobreviver à falta dela… Preciso que pare!”, orei. “Quanto mais o tempo passa, mais vazio me sinto… preciso de ajuda!”, chorei. Em silêncio, realizei todas as orações e preces que já sabia de cor, desesperado em busca de algo, qualquer coisa que pudesse preencher o terrível vazio que tomou minha alma! Terminando, voltei para perto de todos e observei algumas das pessoas presentes lamentando-se pelo que chamavam precoce morte. Algumas sensíveis, viviam um incessante pranto. Peguei-me observando-os e tentando compreender o motivo de seu sofrimento… haviam pessoas que eu nem sequer conhecia! “Como choram, se minhas lágrimas estão secando?”, “Por que choram, se não têm porquê sofrer?”, me indaguei, perdido em meus vazios pensamentos. Um gélido vento invadiu a mesquita, antecedendo o momento de velá-la. Seu corpo estava cuidado, Isa junto a algumas moças da mesquita, foi quem assumiu. Após alguns minutos quieto, realizando minhas preces por ela em meu íntimo, eu fui quem entregou as últimas palavras que ela deveria carregar consigo além-túmulo. — Não há deus senão Allah e Muhammad é seu Mensageiro! Acariciei seus cabelos uma última vez e a cremamos. Alguns me cumprimentaram, sempre me parabenizando pela força e coragem. Não fiquei tempo o suficiente para continuar sendo bombardeado de parabenizações. Ao fim , voltei ao carro para aguardar Zayn, Isa e Ali. Já não aguentava oferecer falsa simpatia, falsos sorrisos, a desconhecidos… tampouco queria sorrir, ou ser simpático! Felizmente, não esperei muito para eles voltarem ao carro. — O rapaz é um homem! — Zayn disse, com tom felicitador. — Eu? — perguntei, confuso com a afirmativa. — É forte, resiliente e polido. Gosto! — Riu ele. — Hoje, Allah recebe em Seus braços uma grande mulher… definitivamente, mãe de um grande homem! — concluiu ele, em tom solene. — Agradeço. Amanhã volto a estudar? — Sim, amanhã pode. — Isa disse, voltando a atenção a rua. — Lidarei com os materiais e devolverei. Agradeço a ajuda! Ela dispôs, sorrindo, e Zayn nos guiou para casa. Isa nos mimou comprando alguns doces na viagem de volta. O desgosto de Zayn ao tratamento infantil ficou evidente em seu semblante irritadiço, apesar de ele não ter reclamado. — Viu, o pai odeia! — Ali cochichou para mim, rindo. Observei o comportamento de Zayn atentamente. Comi um dos doces, não só para não contrariar Zayn, mas também por concordar que a situação em que estava, exigia de mim uma postura adulta e aquele mimo poderia me impregnar com um relaxamento que eu não poderia me dar ao luxo de ter! Em casa, após o banho, me juntei à Isa para ajudar na refeição. Zayn ficou na sala, absorto em papéis. Isa mostrou-se dedicada a ele, servindo-o “comes e bebes” em meio aos afazeres. Após ajudá-la, deixei meu material escolar destacado para estudar na sala, acompanhando Zayn. Terminei de lidar com o material antes do cair da noite e devolvi aos respectivos donos. *** A noite foi tranquila e antes do sol nascer, acordei. Arrumei-me, deixei a mochila na sala e, não encontrando ninguém acordado, preparei a refeição matinal. Isa deu um belo sorriso, ao encontrar a mesa servida. — Bom dia, menino Noah! Inspirado? — Ela tentou brincar. — Não. Por quê? — estranhei, sem tato para a brincadeira. — A refeição à mesa… está linda! — Acordei cedo, então decidi ajudar… é normal, eu acho! — Você é realmente um menino de ouro! — Ela sorriu. — Devolvi os materiais ontem e agradeci por eles, é claro! — Ótimo! Cuide-se no colégio. Se sentir-se m*l, peça para ligarem e chegarei em instantes. — Agradeço o cuidado. Zayn e Ali logo desceram. Zayn beijou Isa e sentou à mesa. — Não quero problemas — disse Zayn ao iniciarmos a refeição. — Isto significa que brigas estão proibidas! — Por que me envolveria em brigas? — perguntei. — Voltará ao colégio e, pelo que sei, os filhos dos conservadores locais estão agitados. Não responda nada do que ouvir com agressividade, isto lhe dará muitos problemas, me dará muitos problemas e eu odeio ter problemas! — Posso resolver, pai! — Ali disse. — Quando disse estão proibidos me referi a ambos! Se ouvir algo, fale comigo e eu resolvo! Existem rumores por aí e até ter certeza do que é verdade ou mentira, precisam ser prudentes! — Sim, senhor. — Ali acatou, atipicamente obediente. — Nunca briguei, senhor… e não pretendo. Até porque se eu revidar, as coisas podem tomar rumos letais! — falei, ciente que não estava bom da cabeça para violência. — Quando se aprende que o valor da vida é pouco tão cedo, é natural que tudo seja trágico quando se diz respeito a confrontar a vida de outros. — Zayn disse, soando como um sacerdote. — A força dada por Allah… — conclui, pensando alto. — Exatamente! — concordou ele; deixando-me pensativo.
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