III. Terra da Prosperidade

2069 Palavras
— Isto é seu! — O capitão disse, entregando o dinheiro à minha mãe, após contá-lo. — Salaam Aleikum, queridos. — Aleikum Essalam. Foi uma satisfação, senhor. — Ela sorriu. Ajudei com a mala e peguei sua mão para sairmos do navio. No porto, tinha muitas pessoas. Quando deixamos, ainda mais pessoas transitavam. Veículos por todos os lados. Grandes edifícios. Nenhum sinal da guerra… do sangue no deserto. A falta de areia causou estranheza, mas nada relevante. Receando perder-me na multidão, minha mãe caminhou devagar, comigo na sua frente. Paramos na frente de uma movimentada rodovia. O movimento dos carros, em excesso, deixava-me tonto. Minha mãe gesticulou algo e um veículo amarelo, com um homem branco de meia-idade dirigindo, parou à nossa frente. Ele e minha mãe conversaram algo em inglês que pouco entendi. O homem estava sorrindo, parecia simpático. Ajudou-nos abrindo a porta, colocando a mala no interior do veículo. — Welcome — Foi a frase que iniciou a nossa viagem. Fiquei extremamente curioso, observando tudo. Minha mãe pegou o dinheiro comigo para pagar o homem e saímos do carro. A rua tinha menos pessoas e carros. Mais tranquila, minha mãe deixou-me caminhar ao seu lado. Foi estranho ver algumas pessoas, nitidamente muslins, vestidos como as pessoas na multidão estavam. Algumas moças, apesar dos óbvios traços, não usavam hijab, muito estranho! — Uma grande casa branca! — Minha mãe disse, possivelmente lembrando-se das instruções do capitão. — Vamos, meu amor? — Ela sorriu, parecia satisfeita, realizada. Assenti e peguei sua mão. Caminhamos em busca da casa. Todos cumprimentavam estranhamente conforme passavam. — Isto é normal, mãe? Eles não seguem Allah? — Não sei, meu filho. Neste país, não somos a maioria, então possivelmente estes não seguem Allah. — Minha mãe respondeu, provavelmente tão confusa e sem respostas quanto eu. Foi dez minutos até finalmente avistarmos uma belíssima casa branca com alguns detalhes dourados que lembravam ouro. A casa tinha três andares e um pequeno jardim à frente. Um carro estava estacionado com as portas abertas. — Será aquela ali, mãe? — perguntei, olhando-a. — Possivelmente, meu amor. Seguimos até lá e um homem alto, muslim como nós, saiu do carro com caixas que pôs na frente da porta da grande casa. — Salaam Aleikum! — Minha mãe cumprimentou. O homem olhou-nos, com estranheza no semblante. — Aleikum Essalam… — Ele respondeu. — Posso ajudar, irmã? — Chegamos há pouco. Fui instruída a buscar uma grande casa branca. — Minha mãe explicou. — Bela e pomposa, creio ser esta! — Ela riu. — Sem dúvida é esta! Com quem falo? — O homem sorriu, deixando o trabalho que executava para vir cumprimentar-nos. — Somos os Mubarak. Sou Nádia e este é meu filho, Noah. — Olá, Noah. Parece forte! — Ele riu, cumprimentando-me. — Sou forte! — respondi. — Você conhece o meu pai? — Não… — Ele respondeu, olhando minha mãe — Deveria? — Não, Noah. Este homem não conhece o seu pai. Ele ajudará enquanto estivermos aqui! — Ela riu, com as bochechas coradas. — Ajudarei, sim! Está procurando o pai do menino? — Indagou ele, abrindo a porta. — Entre, conversamos lá dentro. Minha mãe cumprimentou em agradecimento e entramos. — Não. Agora, está nas mãos de Allah. — Ela disse, com tom lamuriento. — Deixamos o Irã, pois, as coisas não são fáceis e sendo mãe, só, é mais difícil; principalmente com um mestiço! — Fico feliz que tenha vindo até nós. Chegou legalmente? — Não. — Tem dificuldades com a justiça no Irã? — Só religiosa. Infelizmente, relações com um estrangeiro são haram… e a gestação sem casamento também! — Entendo. O pai do menino tem nome? Tinha documentos? — Os documentos que tinha consigo, agora estão comigo. Precisei lidar com as cerimônias. Nicholas Ox era seu nome. — É bom que os tenha. Facilitará! Entramos numa grande sala de estar. Haviam dois sofás de quatro lugares, com aparência muito confortável. Os sofás cercavam a mesa de centro escura, como todos os outros móveis. — Sente. Chamarei minha esposa. Sou Aziz — apresentou-se. Minha mãe assentiu e sentamos. — Este é bom! — Ri, ao sentar no sofá e senti-lo muito macio. Minha mãe riu. Não tardou para uma moça muito bela, com cabelo como o cobre, usando joias e maquiagem, chegar. — Olá, é a moça que chegou? Sou Soraia. — Ela sorriu. — Sou Nádia. Salaam Aleikum! — Minha mãe cumprimentou. — Sou Noah. Salaam Aleikum! — cumprimentei também. — Essalam. Fico feliz em conhecê-los. — Ela retribuiu, gentil. — Servirei algo para comerem, o pequeno está com fome? — Não muita. Comemos peixe antes de vir — respondi, satisfeito com a boa refeição que tivemos. — Chamam atum. — Atuns são realmente bons! — Ela riu. — Com a sua licença. Ambos saíram e logo retornaram. Aziz carregava uma bandeja com as refeições, um copo de suco, uma garrafa de vinho e as taças vazias. Soraia encarregou-se de servir-nos enquanto Aziz auxiliava servindo o vinho. — Acompanharemos com vinho — Aziz disse. — Podemos conversar quando terminarem a sua refeição. Minha mãe agradeceu e comemos. Soraia levou-nos a um luxuoso banheiro onde nos asseamos, claro, com a sua ajuda para usarmos o cômodo que tinha o tamanho da casa no Irã! — Os Mubarak chegaram ilegalmente — disse Aziz, quando nos reunimos. — Felizmente, tem os documentos do pai de Noah. — Isto é fortuito! — Soraia comemorou. — Noah estudava? — Sim, minha mãe me dava aulas — respondi. — Cuidava da sua educação em casa. Não só porque estávamos distantes do colégio, mas também buscando inibir o contato dele com as seduções… a agressividade… o preconceito! — Muito sábia! — Soraia sorriu, elogiando. — Tinha alguma relação com o pai de Noah? — Aziz arguiu. — Ele não tinha como objetivo ser um homem de família, era boêmio. Logo, não éramos relacionados maritalmente, mas ele sempre foi responsável financeiramente e ajudou-nos muito! — Qual era a nacionalidade do homem? — perguntou Soraia. — Americano. Foi um soldado. — Irmã! Um soldado!? — Soraia criticou, em negativa. — Resumo a ingenuidade e inocência. — Minha mãe disse, pesarosa. — Felizmente, desta infeliz relação nasceu a mais rara e preciosa joia! — Ela sorriu, acariciando o meu rosto. — Chamaremos o homem de seu companheiro, habitue-se. — disse Aziz. — É mais fácil se foi americano. Iniciaremos um processo de naturalização, conduzindo a justiça a reconhecer o seu matrimônio. — Ele explicou, parecendo convencido da vitória. — Entendo, mas como isso é possível!? Ele est- — Não se preocupe — interrompeu Aziz. — Será demorado, mas, até o processo encerrar, conseguimos uma estadia temporária e legal para vocês, aqui. Precisará de um trabalho, de um lar, o menino precisa estudar na escola! — Sem problemas. Meu inglês é razoável, pude atestar conseguir sobreviver. O tempo fará melhorar mais! Felizmente, sou adaptável. O pós-guerra preparou-me para muito! — Isto é ótimo de ouvir! — elogiou Aziz. — Observei que Noah não usa o inglês. Isto é falta de conhecimento ou preferência? — Soraia perguntou, olhando-me. — A falta de prática acaba jogando o conhecimento no esquecimento. — Minha mãe explicou. — O convívio com anglófonos aquecerá o que já sabe e logo ele se adaptará. — Conseguirei — falei, alimentado pela confiança dela. — Até conseguir um trabalho, podemos usá-la nas nossas tarefas domésticas. Isto a garantirá dinheiro o suficiente para comer e ter uma casa. Será uma vida de pouco luxo, mas o suficiente para conseguir estruturar-se. — Aziz disse. — É muito mais do que esperava receber, senhor. Agradeço! — Momentos negros exigem sermos luz! — Ele disse, solene. — Sei ser pedir muito, mas Soraia pode me ajudar a lidar com as coisas do colégio do Noah? Não faço ideia de como começar! — Claro que ajudo. — Ela riu. — Primeiro, vemos uma casa. Tenho sugestões, podemos sair e dar uma olhada, o que acha? Se tiver alguma quantia em dinheiro, pode me dizer quanto? — Tenho pouco mais de seiscentos dólares. — Minha mãe respondeu, franzindo a testa, possivelmente incerta da quantia. — Isto é bastante! — pasmou Soraia. — Não fez nada ilegal!? — Não é dinheiro sujo. Não tenho como objetivo iniciar uma vida de forma ainda mais ilegal do que já está sendo com a entrada não permitida ao território. — Pense assim e nada poderá lhe derrubar! — disse Aziz. Eles seguiram tomando seu vinho em silêncio e ao fim, Soraia beijou o seu esposo e levantou-se. — Deixe a mala aqui. Não iremos tão longe! — Soraia disse para minha mãe que assentiu e deixou a mala ao lado do sofá. Soraia era muito extrovertida. Ela e minha mãe conversaram muito. Soraia mostrou-nos lugares que precisávamos conhecer, como mercado, colégio e uma praça onde, segundo ela, muitos se reuniam aos fins de semana. Haviam crianças e adolescentes passeando, Soraia sugeriu que eu me juntasse para me “enturmar”, mas não estava disposto a fazer. Fui para trás da minha mãe e a segurei — num código, onde ela sabia que eu não queria, mas não queria ser m*l-educado. — É bom Noah conhecer as opções, pois, é o homem da casa! — Claro… é realmente mais razoável! Depois pode conhecê-los, não!? — Ela deu um sorriso simpático e seguiu. As opções de casas e apartamentos eram extensas. Um apartamento de primeiro andar no interior do bairro foi a escolha da minha mãe, dado as poucas pessoas e veículos. — Se esta é sua escolha, tenho duas boas notícias: a primeira é que conheço o proprietário — disse Soraia. — A segunda é que ele mora aqui do lado. Se quiser, chamo e quem sabe ainda hoje você não dorme aqui! O que acha? — sugeriu ela, sorrindo. — Dormir em terra firme será ótimo! — Minha mãe riu. — Melhor ainda sabendo que estarei no conforto da minha casa. — Nada como o chão… e o nosso lar! — Soraia gargalhou. — É bom ter senhorio como vizinho… ajuda. Ele é um doce de homem. Americano, mestiço, sabe!? Chama-se Logan. — É interessante saber que outros americanos vivem por aqui. A convivência é difícil? — Minha mãe preocupou-se. — Temos a parcela intolerante, mas geralmente, ajudamo-nos comunitariamente. Felizmente, somos bem-sucedidos nos esforços aplicados para prover o melhor para todos! — Isto é belo. Devem mudar vidas diariamente! — Tentamos sempre! — Ela riu, com as bochechas coradas. Demos poucos passos e na porta ao lado, literalmente, ela bateu. Um homem alto, com olhos de um soldado abriu a porta. — Olá, a que devo a visita? — Ele felicitou. — Entre! — Não viemos entrar! — Soraia disse, puxando a minha mãe para ele a ver. — Precisamos ver o seu apê. Nádia precisa de casa. — Claro… — Logan disse, parecendo constrangido. — Perdoe-me, não a vi! Sou Logan, presumo ser nova no bairro. — Nova na América! — Ela riu. — Sou Nádia, este é Noah. — Salaam Aleikum! — cumprimentei. — Aleikum Essalam, menino educado! — Ele riu. — É uma satisfação conhecê-los. Fico feliz que queira alugar o apê. Vagou há pouco, mas sinto falta quando tenho inquilinos. Sejam bem-vindos a América. Espero que possamos ajudar você e o seu filho. — Agradeço o carinho de ambos. Logan fechou sua porta. — Ela trabalhará comigo até conseguir algo melhor — disse Soraia. — Tem o inglês razoável e é forte! — Ela sorriu. — Já está tentando nos casar? — Logan disse, em negativa, obviamente incomodado pela intransigência. Minha mãe ficou com o semblante confuso, observando-a. — Não posso imaginar o quanto ser mãe solteira é difícil… é bom para o menino ter um pai, por que não alguém como Logan? — Soraia disse, olhando para minha mãe. — É mais fácil quando temos ajuda. Os nossos costumes preferem que assim o seja. — Se, em algum momento, algo acontecer; não será porque o meu filho precisa de um pai, ou, porque preciso de ajuda financeira, tampouco devido aos costumes. Agradeço o cuidado, mas estou constrangida com a invasão. — Não quero um pai! Só preciso da mãe — falei, enciumado. — Esperto o rapaz é! — Logan brincou, tentando descontrair. — Ignore Soraia e o seu espírito casamenteiro, com fé, passará!
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