Corri de volta para a cabine, extremamente amedrontado.
Nem o som do revoltado mar… da intensa chuva castigando o convés conseguiram suprimir os mais intensos barulhos da fricção da madeira e os abafados gemidos de dor da minha mãe.
Em instantes, vi-me vivendo um pesadelo!
A porta da cabine abriu, dando ao meu coração, palpitações.
O homem da poltrona entrou, segurando uma garrafa.
— Acalme-se, criança… não vim machucá-lo! — Ele disse, com um vil sorriso contrastando com a fala “amigável”. — Só trouxe algo que ajudará você a dormir!
O meu corpo tremeu e o coração não aquietava.
Apavorado, emudeci, fitando-o, desesperado.
Os trovões lá foram alastravam intensos arrepios no meu corpo e por um instante, em nada consegui pensar, senão na minha própria sobrevivência.
Ele aproximou-se e com a mão vazia, que cheirava a amônia, cloro e outras coisas que não pude distinguir, abriu a minha boca e despejou o conteúdo da garrafa, garganta adentro.
Senti meu interior queimar. Tossi sem parar.
Frágil, o estômago devolveu a bebida junto ao peixe que comi.
Fiquei tonto imediatamente. Tudo ao redor pareceu lento; a visão embaçou e o cômodo, por um instante, pareceu escurecer.
— Não seja um mau menino, desperdiçar bebida é haram! — O homem disse, forçando-me a beber mais, com vilania no olhar.
Sentindo-me ameaçado, esforcei-me para acatar a ordem de não desperdiçar, mas meu corpo simplesmente não obedeceu.
A tontura que já me afetava foi ainda mais alimentada pelo breve instante em que me afoguei na bebida.
O homem riu, vendo-me cair sobre o meu próprio suco gástrico.
Foi uma noite infernal!
Os poucos momentos lúcidos foram regados a extrema tontura e a contínua rejeição do estômago ao maldito líquido.
Senti o momento em que a minha mãe cuidou de mim, mas nada pude falar, não consegui ajudá-la a cuidar da limpeza da cama; apenas fiquei inutilizado.
***
Acordei com ela acariciando o meu rosto e cantarolando.
Imediatamente ao despertar, a quentura de mais uma rejeição passou pela minha garganta machucada.
Enquanto golfava, ouvi os seus suspiros.
— Como está, meu amor? — Ela indagou, com a voz calma.
— Tonto, machucado — respondi, pondo a mão na barriga. — O homem é mau, mãe — reclamei, com lágrimas nos olhos.
— Já briguei com ele e ele desculpou-se.
— Está machucada? — perguntei, observando-a com atenção.
— Não estou. Lembra-se do que viu ontem?
— Estavam machucando a senhora… trovões… tudo girou… os trovões de novo — narrei, apavorado pela mera lembrança.
— Passou… olha, eu estou bem! — Ela disse, sorrindo e abrindo os braços, me permitindo estudá-la minuciosamente.
— Não quero ficar aqui — disse, agarrando-me a seu pescoço. — Estou com medo. Eles são maus e sei que te machucaram!
— A viagem está acabando, faltam dois dias para chegarmos! — Ela comemorou, parecendo realmente feliz pelo fim da viagem. — Consegue suportar só esse tempinho pela mamãe?
— Pela senhora, tudo suporto.
Ela sorriu, ajudou-me a levantar.
— Preciso pegar uma roupa em outra cabine, vem comigo?
— Sim, senhora. As suas roupas não estão boas? — perguntei, observando-a intrigado, afinal as roupas pareciam boas.
— As roupas estão boas, mas será bom para chegarmos.
Assenti, ainda confuso, mas segui com ela a outra cabine.
Fomos ao cômodo mais distante.
Tive medo de passar na frente do maldito cômodo da noite anterior, mas ela seguiu acariciando minha mão, o que sempre acalmava, não importando o quão estressado eu estivesse.
O tal cômodo onde fomos era maior, limpo e organizado.
Tinha uma cama que me pareceu confortável. Algumas muitas garrafas de bebidas. Um baú próximo à cama, estava abarrotado de roupas, masculinas, femininas, infantis ou não.
Ela procurou uma que coubesse nela e encontrou um vestido.
— Posso ajudar? — ofereci-me quando a vi despindo-se.
— Pode. — Ela sorriu, sentando e permitindo-me ajudar. — Como estou? — Ela riu, girando no seu eixo e olhando-me.
— Bonita.
Ela me beijou na testa e me abraçou forte, suspirando.
Talvez, assim como eu, estivesse pensando no quanto estava ansiosa para aquilo acabar! Cuidei para dobrar a roupa que ela trocara e fui à cabine guardá-la na nossa mala.
Quando subimos ao convés, o jovem aproximou-se, dizendo:
— O capitão está na casa do leme.
— Obrigada, rapaz. — Minha mãe disse, sorrindo.
Seguimos a cabine mais limpa e organizada da embarcação.
— Chegamos. — Minha mãe disse, olhando para o capitão.
Ele era um homem forte, com certa idade. Observava o mar.
— Temos só um assento, mas sinta-se à vontade para usar. Dificilmente é-me necessário. O que achou da roupa? Coube?
— Agradável, agradeço. Temo perguntar como conseguiu.
— Transporto pessoas, preciso de roupas para emergências! — Ele disse, rindo. — Não se preocupe, apesar de um bufão ou outro, não somos todos ruins.
Minha mãe sentou e acolheu-me nos seus braços, pondo-me sentado no seu colo e acariciando os meus cabelos.
— Desculpe, se me exacerbei com vocês. Estava chateada.
— Eles são maus homens — reclamei, olhando para o capitão.
— É o tempo no mar. Sempre viajando, não vemos outras pessoas senão nós, logo alguns esquecem da educação que aprenderam em terra firme. É natural!
— Deve ser uma vida difícil.
— É uma vida de liberdade… difícil está longe da realidade! — Ele sorriu, exalando satisfação. — Mais fácil que viver em terra…
Não tardou para suas vozes distanciarem-se e eu cochilar.
***
Despertei, sentindo minha mãe sobressaltada.
Imediatamente, olhei ao redor e ainda estávamos na casa de leme. Eu ainda estava sentado no seu colo e o homem ria.
— Mãe!? — chamei, observando o homem com hostilidade.
— Calma, meu filho — disse o capitão, sorrindo. — Está tudo bem. Vou levá-los para passear. Já deve ser possível ver a costa.
— O senhor não parece ser meu pai — retruquei.
— Por que acha isso? — Ele riu.
— Se fosse não deixaria machucarem a minha mãe!
— Você tem um ponto! — Ele riu, deixando-me incomodado. — Entretanto, para sua segurança e para a segurança dela, precisa aceitar que eu o chame filho até chegarmos.
Fiquei confuso e olhei para a minha mãe.
— Alguns homens podem ser maus… então, ouça. — Ela disse. — É só até chegarmos. Pense como uma brincadeira! — Ela riu.
— Sim, senhora — assenti, olhando o homem. — Sim, senhor.
— O moleque aprende rápido! — Ele gargalhou, dando o braço à minha mãe e seguindo conosco ao convés.
Agora, água não era a única coisa ao nosso redor. Haviam navios distantes, padronizados. Era possível observar a fina linha da costa ao longe.
Com ajuda de uma luneta e de muita simpatia, o capitão mostrou-me a terra. Curioso, animei-me com a fascinante visão.
— Já conhecia o mar, Noah? — O capitão perguntou, parando no mastro principal, de braços cruzados, fitando o horizonte.
— Não.
— O primeiro contato foi naquela praia. — Minha mãe disse. — Estávamos distantes da costa. Precisamos cruzar a Jordânia para chegar no porto, após muito estudo!
— Muito corajosos e fortes! — Ele disse, parecendo surpreso. — O rapaz já está acostumado a ser o homem da casa?
— Sim. Cuido da casa quando ela trabalha e às vezes trabalho.
— Já é um trabalhador! — elogiou ele. — E o colégio?
— Não vou ao colégio, minha mãe é inteligente e me ensina tudo que preciso saber! — respondi, levemente orgulhoso.
— Imagino que não sentirá falta de amigos do colégio, já que não o frequenta! — Riu o homem.
— Não tenho amigos. Só a minha mãe.
Ele observou-me brevemente, com um estranho sorriso no rosto, mas logo voltou a sua atenção para o mar novamente.
— Durante esta noite e amanhã, pescaremos. Venderemos os peixes e conseguirei ajudá-la com a passagem à Pequena Istambul. A comunidade local é grande e poderá ajudá-los.
— Agradeço, senhor. — Minha mãe sorriu.
— Mesmo se não tivéssemos negócios, ainda tentaria ajudá-la. É direito de todos, tentar ter uma vida melhor. Você é uma boa moça. Feliz e infelizmente, já entende o quão complexa a sobrevivência pode ser. Isto a torna forte!
— Mato e morro por ele! — Ela disse, acariciando-me gentil.
— Esse é o espírito que a permitirá sobreviver a América! — Ele gargalhou, voltando a atenção para mim. — Precisará cuidar dela, pequeno. É o homem da família e as coisas podem ser perigosas para as moças aqui.
— Sempre cuidei e cuidarei! — falei.
Minha mãe deu um sorriso tímido.
— Precisará conduzir feitos ainda maiores! Deve ter conhecido os guerreiros da sua casa.
— Os tios que lutam!? — perguntei, afinal os conhecia bem.
— Esses mesmos. Precisará ter a coragem que estes tios têm para fazer o que for necessário para proteger a sua mãe.
— Não ensine essas coisas ao meu filho! — Minha mãe repreendeu. — Estamos saindo justamente para evitar que estes comportamentos violentos se tornem uma realidade para ele.
— Desculpe-me, esposa minha. Entretanto, ele deve estar por você, como os guerrilheiros em casa, estão por Allah!
— Eles não estão por Allah! — Minha mãe retrucou.
O homem sorriu e suspirou.
— Infelizmente, não poderei ajudar com documentos, mas chegando à Pequena Istambul, há um casal que poderá ajudá-la. Como está o seu inglês?
— Razoável. Praticava ocasionalmente.
— Quando a guarda se aproximar, não se esforce para falar em inglês. Mantenha o árabe, nos poupará tempo e dinheiro!
A tarde transcorreu bem.
Passeamos pela embarcação, o capitão mostrou as tarefas que os tripulantes conduziam e as explicou para mim.
Ensaiamos uma pesca, o que me divertiu muito.
Quando um navio deu a ordem para pararmos assustei-me, é claro, porém com a tranquilidade da minha mãe, voltei para a brincadeira de pescar.
Ao fim da tarde, ajudei a minha mãe a mover as coisas para a cabine grande, sem perguntar o porquê.
De noite, nos recolhemos na cabine grande.
A mãe estava apreensiva, mas deitou comigo e dormimos.
Felizmente, ela dormiu ao meu lado toda a noite.
***
Quando acordei, ela ainda dormia. Extremamente relaxada, com a respiração bem calma. Preocupado, a sacudi, chamando-a.
— Bom dia, meu amor. — Foi a frase que queria ouvir e ouvi.
— A senhora está bem?
— Estou ótima, amor da minha vida. Vamos ao banho?
— Sim, senhora. — Sorri, mais calmo. — Banho.
Seguimos ao banho e fomos à cozinha, ajudar com a refeição.
Foi um dia intenso de pesca, todos estavam mobilizados para isto. Mesmo a minha mãe e eu ajudamos com tudo que pudemos.
Tendo o trabalho como brincadeira, inevitavelmente cansei.
A aproximação da costa era fascinante. Muitas vezes, peguei-me novamente hipnotizado, observando a paisagem.
À noite, chegamos a um porto. O jovem saiu e o resto mobilizou-se para deixar o peixe pronto para a descarga.
Eu e minha mãe ficamos parados, observando a cidade.
Havia muitas luzes e apesar da poluição sonora com veículos e pessoas, não havia o som da violência, o som da guerra.
Simplesmente não acreditei ser real.
O capitão aproximou-se e envolveu a cintura da minha mãe, me deixando enciumado, obviamente! Ela assustou-se e num instinto, tirei o braço dele da sua cintura.
— Noah… — Minha mãe repreendeu, nitidamente constrangida.
— Desculpa, foi… Perdão, minha mãe — falei, acanhado. — Perdão, m-meu… p-pai.
O capitão apenas riu e voltou o olhar para a cidade.
— Precisa tomar cuidado. A cidade é bela, porém tóxica. O nosso povo não é tão bem quisto em solo americano e enfrentará dificuldades, principalmente tendo uma criança para cuidar!
— Serei precavida! — Ela respondeu, acariciando-me.
— Apesar do serviço com os meus homens, se possível, não sobreviva assim! Boa sorte com a resiliência quanto a violência. Sempre busque alternativas. Felizmente, americanos são avarentos e ambiciosos, logo há muito profissional que supervaloriza o que executa, isso facilita a conquista de boas posições. Seja justa e não se permita a escravidão!
— Jamais o faria.
— Tivemos uma ótima pesca. Serão, ao menos, mil dólares. Seiscentos serão para pagar o bom serviço com a cozinha, a limpeza e com os rapazes. Cem serão para ajudar com a sua passagem à Pequena Istambul, se precisar conseguirá hospedar-se num motel e comer. — Ele disse, com a voz baixa.
— Agradeço a ajuda!
— Disponha, esposa minha. — Ele sorriu, beijando-a no canto da boca. — Tenha uma ótima luta e vença!
— Venceremos.
Foi um dia calmo. Descansamos à noite e acordamos cedo.
No convés, a tripulação descarregava o peixe.
— Bem-vindos à América! — O capitão saudou-nos, sorrindo.