Capítulo 8

1678 Palavras
Natalie Na maioria das vezes, meus encontros com Dominic no escritório são breves. Na maioria das vezes, são de passagem. Esbarramos pelos corredores, trocamos olhares acidentais entre os vidros dos escritórios, ou vivemos episódios infelizes e longos dentro do elevador, a caminho do trabalho. Os olhos dele permanecem grudados no celular o tempo todo, recebendo mensagens de texto de alguém. Eu sou bonita, claro — ele está apenas fingindo, tentando evitar falar comigo. Acho que é melhor assim. Prefiro que a gente ignore mutuamente a existência um do outro do que ter que lidar com... seja lá o que foi aquilo que aconteceu entre nós. Às vezes penso naquela noite e me arrepio. Muitas escolhas foram feitas ali, e a maioria delas estavam do lado errado da sanidade. Mas às vezes… — às vezes, eu lembro com uma estranha saudade. Não consigo parar de pensar no jeito como ele me olhava. No jeito como ele me fazia sentir suja e desejável ao mesmo tempo. Ele me desmanchava só com as palavras. Já tive alguns namorados na faculdade, alguns encontros casuais... mas nenhum deles jamais me fez gozar só com o som da voz rouca dele. Já se passou uma semana desde aquela noite, mas ainda consigo ouvir suas palavras indecentes no meu ouvido. Elas sempre me fazem corar. O olhar voraz que ele lançou sobre mim ficou gravado na minha memória como uma marca de ferro em brasa. Ele claramente me queria. A pressão dura do seu p*u era impossível de ignorar. Eu via minha fome refletida nele, dava pra sentir o t***o no ar. E agora... sua frieza, sua indiferença, deixam pontas afiadas no meu peito. Mas tudo bem. Isso evita distrações no trabalho. Aiden, meu supervisor e mentor do programa, é um homem de poucas palavras — uma característica que ele parece compartilhar com o irmão mais velho. Não me incomodo com isso, na verdade. Ele é claramente apaixonado pelo que faz, além de ser extremamente competente. Um cara prático, direto, que só quer ver o trabalho feito. Ele nos passou, a cada um dos estagiários, projetos individuais, além de uma tarefa em grupo. Minha responsabilidade principal é retrabalhar a codificação dos dados antigos armazenados em um dos servidores da Zentryx, otimizando-os ao máximo. A tarefa coletiva é reformular completamente a página de recrutamento da Zentryx. A atual é antiquada, cheia de scripts desatualizados. Nossa missão é eliminar os bugs e repaginar tudo, tornando a página mais atraente para os candidatos. Não me importo com o trabalho. Na verdade, acho divertido — como montar um quebra-cabeça gigantesco usando apenas o teclado, os dedos e o cérebro. Meu espaço de trabalho é confortável, o refeitório da Zentryx tem uma seleção generosa de refeições gratuitas todos os dias, e meu trajeto leva trinta minutos tranquilos de metrô. O problema é que eu odeio todos os meus colegas de trabalho. Os "irmãos da tecnologia" são os piores. Barulhentos, espaçadores, e não me fale da bagunça — eles acham que a equipe de limpeza é babá. Dá vontade de revirar os olhos. Por que precisam agir feito idiotas? Será que acham mesmo que ainda vivem com as mães? David e Timothy não são tão ruins. Mas Nate? Nate me faz querer enfiar a cabeça no triturador de papel. Eu até tentei dar o benefício da dúvida. Vai que ele era só o tipo de cara que causa uma má primeira impressão. Mas bastaram dois dias pra eu ter certeza: ele é 100% babaca. — Quem quer vir no meu churrasco esse fim de semana? — pergunta Nate, sentando-se bem na borda da minha mesa. Tem literalmente uma dúzia de cadeiras vazias, e ele decide que esse é o lugar ideal. Está de costas pra mim, o que interpreto como um claro “você não está convidada”. Não que eu fosse querer ir, de qualquer forma. — Como diabos você faz um churrasco em Nova York? — pergunta Buck. A voz dele é estranhamente fina pra um cara tão grande. — É no iate do meu pai — responde Nate, casual. — A gente faz lagosta e outras paradas assim a cada duas semanas. Engulo um gemido. É claro que esse i****a tem um iate. As camisas polo caríssimas deviam ter sido minha primeira pista. Tudo nele grita “garoto mimado” que vive bancado pelo papai. O mais estranho é que isso me faz lembrar que eu também tenho um pai. Um pai que só existe na minha cabeça, porque passo anos tentando montar as peças de quem ele é ou poderia ser. Imagino se ele é rico como o pai do Nate. Gosto de pensar que sim — mas gentil, generoso. Só vou saber com certeza quando encontrá-lo. E isso vai levar tempo. Todo dia, chego um pouco mais perto da minha meta de poupança. Assim que tiver os fundos, vou atrás dele. Espero só não esmagar a cara do Nate na copiadora antes disso. — O que te faz dizer isso, querida? — Levanto os olhos e vejo Nate me encarando com aquele sorriso maroto que me dá arrepios — e não do tipo bom. — Não me chama assim — respondo, voltando os olhos pro meu laptop. Linhas e mais linhas de código me aguardam, cada uma delas pedindo atenção total. — Vamos lá, Hawkings — ele insiste. — Vai ser divertido. Você sabe o que é isso, né? Diversão? — Não, obrigada. — Não sou desse tipo. — Que parte do "não" você não entendeu? — Nate ri baixinho, erguendo as mãos como se estivesse se rendendo. Ele olha para os colegas como se eu fosse a errada da história. — Jesus, alguém tomou uma dose extra das pílulas de mau humor hoje. Olho pra ele com raiva. — Como é? — Seja uma jogadora de equipe, Hawkings. Pensa só — você poderia usar um biquíni. Aposto que fica uma delícia de biquíni. Eu me levanto e fico de frente pra ele. Já deu. Não vou deixar essa falta de respeito passar. — Você tá sendo um completo babaca — digo, firme. — Peça desculpas. Nate ri. — Calma, Natalie. Não consegue levar numa boa? Era só uma brincadeirinha. — Eu não tô rindo, p***a. Ele se ergue um pouco mais, estufando o peito e me encarando por cima do nariz pontudo. Não me intimido. Recuso-me a ser a primeira a ceder. Se eu o fizer, ele vai achar que pode continuar com esse tipo de comportamento grosseiro impunemente. E não vai. Não no meu turno. O olhar de Nate desliza rapidamente por cima do meu ombro, focando em alguém atrás de mim. Eu não me viro. Estou determinada a manter o foco. Ele é o primeiro a recuar, soltando um bufo irônico antes de se afastar. — Que seja — resmunga sob a respiração. Um pequeno senso de triunfo sobe ao meu peito, mas logo é engolido por um gosto amargo na garganta. Não parece uma vitória. Não quando minhas bochechas ardem de vergonha e meu estômago borbulha de raiva. Qualquer um dos outros caras poderia ter dito algo. Alguém poderia ter se posicionado. Poderia ter me defendido. Mas eu estava sozinha, enfrentando meu colega babaca. Eu consigo lidar com isso. Sempre consegui. Mas não deveria ter que lidar. Quando sinto o formigamento das lágrimas se formando nos cantos dos olhos, viro-me e sigo em direção ao banheiro. O inferno vai congelar antes que eu deixe Nate ou qualquer um do grupo ver que ele me atingiu. Caminho o mais rápido e silenciosamente possível, sem parecer que estou fugindo. A raiva queima minha nuca, faz meu crânio latejar. Tudo isso é uma grande merda. Não fiz um único amigo na Zentryx. E, pra piorar, a tensão constante com meu chefe me faz sentir como se estivesse sempre pisando em ovos. A última coisa que eu sou é uma desistente… mas, merda. Talvez desistir seja a opção mais sensata. Sei que consigo aguentar o resto do ano, mas será que vale o estresse? Com minhas credenciais, poderia encontrar outro estágio facilmente. Talvez Dominic até me desse uma carta de recomendação. Aposto que ele, mais do que ninguém aqui, adoraria me ver sair discretamente. Mas a dor da derrota me faz reconsiderar. Se eu sair da Zentryx, eles vencem. Meu grupo desmoronaria. Nate com sua língua venenosa, Dominic com aquele rosto estupidamente bonito… Eu nunca me perdoaria por desistir tão cedo. A porta do banheiro se abre. Susan aparece, colocando a cabeça para dentro com um sorriso gentil. — Como vai, querida? — pergunta ela, se aproximando da pia ao lado da minha. Ela lava as mãos com calma, como se o mundo lá fora não estivesse pegando fogo. No pouco tempo em que estou aqui, percebi que Susan é uma das poucas pessoas de quem eu realmente gosto. — Estou tendo um dia r**m — admito, rindo fraquinho. — Ouvi o que aconteceu. — Esqueça. Coisa de meninos... — murmuro, encolhendo os ombros. Susan estala a língua, contrariada. — Eles serão responsabilizados por suas ações — corrige, sem grosseria. — Esse é um ambiente difícil. Mantenha a cabeça erguida. E lembre-se: você não está sozinha. Ofereço um pequeno sorriso. — Obrigada, Susan. — Agora, quando estiver pronta… Dominic gostaria de vê-la no escritório dele. Um arrepio percorre minha espinha só de ouvir o nome dele. — Por quê? — Minha voz sai mais aguda do que eu gostaria. — Estou encrencada? Susan dá de ombros enquanto enxuga as mãos com um papel-toalha. — Ele só me pediu para chamá-la. Não disse o motivo. Mas tenho certeza de que está tudo bem. Engulo em seco, o nó na garganta apertando ainda mais. Algo me diz que não está tudo bem. Respiro fundo e giro ansiosamente o anel da minha mãe no dedo. O medo pesa no meu estômago, mas não há como fugir. Às vezes, a melhor forma de encarar a dor é arrancar o curativo de uma vez, mesmo que doa. — Ok — murmuro para mim mesma. — Hora de ver o chefe.
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