- Entojado

1232 Palavras
Entojado. Foi a primeira palavra que passou na minha mente quando vi o novato entrando na sala de aula. A sala inteira parou pra observar o playboyzinho de óculos escuros e barbinha por fazer. Ouvi uns risinhos das garotas do fundo e fechei a cara, "era só o que faltava". Era o início do 1° ano e aquela turma estava junta desde a 5° Série. Como só havia Dois colégios na cidade era comum que a mesma turma fosse passando de ano sempre na mesma sala. Só havia mudança no quadro de estudantes quando alguém se mudava pra outra cidade ou quando se mudavam pra cá. Ele parecia ser o 2° caso. O que me irritou nele foi o jeitão a vontade com que entrou. Como se estudasse ali a vida inteira. Despejou sorrisos nada tímidos pras gurias e até um ou outro tapa no ombro dos caras. Mas tinha algo mais que me incomodava nele, eu só não sabia exatamente o que. - Muito bem - a professora de matemática entrou e pediu silêncio. - Esse é o novo colega de vocês. Marvin Albuquerque. "Marvin!" Quem em sã consciência coloca "Marvin" como nome do filho! - Quer se apresentar Marvin? - Perguntou a professora. O entojado levantou e deu um sorrisinho. - Bom.. - ele tinha aquela fala arrastada e presunçosa da capital - Como a "fessora" disse, meu nome é Marvin. Minha família chegou da capital a umas 2 semanas pra morar com a minha vó, que é daqui e está doente... E só. A sala murmurou um comprimento entre risinhos. - Félix - ergui a cabeça ressabiado - Como líder de turma você pode mostrar as dependências do colégio pro seu novo colega no intervalo? - Claro - resmunguei não muito feliz. *** - E aqui são os vestiários. - concluí robótico. A nossa escola não era grande e em 10 minutos já havia feito um tour com o novo astro da sala. Ele me acompanhou em silencio, dando um ou outro comentário enquanto eu apresentava o laboratório, a sala de computação e o pátio. Estávamos agora no campo do colégio. Ele observou o campo com algum interesse e o vestiário que era ligado. - É um vestiário misto? - ele sorriu sacana. - Não. - cada vez mais eu gostava menos do cara. - tem uma entrada só mas lá dentro tem a divisão pro masculino e feminino. - Hum... Na minha escola antiga eram mistos, os vestiários.- ele foi até a entrada mas não entrou. - Tem chuveiro e tudo mais? - Creio que todo vestiário tem chuveiro não? Ele olhou pra mim zombeteiro mas não respondeu. Deixei ele plantado ali e fui lanchar. Minha boa ação do dia estava feita. Ele era o assunto da semana. O menino da capital. O pessoal todo ia bater papo com ele. Ele tinha aquele estilo sabe-tudo. Era alguém contar uma história que ele vinha com outra muito melhor e mais emocionante. A capital era sempre mais legal, mais animada... Porra, volta pra lá então! E o filho da mãe tinha um charme. Usava aquele corte da moda, raspado do lado e grande em cima e andava constantemente com um meio sorriso, como se soubesse mais que os outros. Até suas roupas pareciam me afrontar. Ele usava umas roupas largadas e sem caimento. Sempre com a cueca a mostra. Tudo nele me incomodava. Eu podia alegar que ver um "estrangeiro" me roubar um pouco da atenção dos meus colegas era o que me deixava mordido. E até era. Mas entendi o motivo da minha birra dias depois na aula de educação física. No nosso colégio, na aula de educação física os caras jogavam futebol ou basquete e as meninas vôlei ou handebol. Eu sempre fui bom de bola então normalmente era o primeiro a ser escolhido. Na semana que ele chegou até isso mudou. - Parece que ele era artilheiro na escola da capital...- ouvi um burburinho no caminho pro campo. Eu tinha ouvido o próprio se gabar disso na sala de aula mais cedo. Foi quando eu vi o Marvin saindo do vestiário de shorts que eu percebi o que meu subconsciente havia visto e eu não. O cara tinha uma p**a de uma mala! Maior que a de qualquer um da sala e definitivamente muito maior que a minha. Eu tinha uma cisma danada do tamanho do meu p***o, achava ele pequeno demais. Era algo que sempre estava nos meus pensamentos. Sabe quando você tem aquele pneu extra e se incomoda a todo momento? Dobre o incômodo que você entenderá meu caso. Ele me notou encarando ele e deu um sorriso amigo. Por que ele fez aquilo? Tava na cara que eu não ia com a cara dele. Ignorei ele e fomos jogar. Na hora de escolher o time, o capitão sorteado olhou pra mim em dúvida e depois apontou pro Marvin. Foi a gota d'água. O roludo virou o preferido no futebol sem nem ter jogado ainda! Me virei e fui jogar basquete com os outros caras. Ficou um clima chato com o pessoal do futebol mas nem liguei. O cara me irritava e nem por um decreto iria me aproximar dele. *** Naquele mesmo dia eu e o Marvin viramos amigos. *** Na penúltima aula tinha tido um exercício valendo nota em biologia e quem terminasse podia esperar no patio. Eu adorava biologia então já estava sentado na mureta do pátio há um tempo. Mascava chiclete envolto nos meus pensamentos quando senti uma presença do meu lado. Imagina quem era? - Posso me sentar aqui? Olhei bem pra cara dele sem acreditar. Eu pensei estar demonstrando claramente que não queria papo com ele. Ele me encarou um pouco e deu de ombros, se sentando ao meu lado. - Quem cala consente. - murmurou. Ficamos num silêncio constrangido por um tempo. Eu mascando meu chiclete e ele me encarando. Aquilo tava me tirando do sério. - Qual o problema? - perguntei aborrecido. - Por que você não gosta de mim? - ele perguntou de supetão. Sua cara não era de desafio. Era de curiosidade. Fiquei um pouco sem graça e ponderei antes de responder. Optei pela verdade. Ou parte dela (eu não ia falar que fiquei com inveja da rola alheia né?) - Acho você entojado - Pensei mais um pouco...- Metido e malandro. Seu jeito de falar de como a capital é melhor do que aqui me irrita...E você se acha. Ele olhou pra mim e levantou as sobrancelhas rindo. - Mais alguma coisa? Ele tinha levado numa boa? Neguei com a cabeça e ele se recostou na mureta. - Pois eu acho você bacana. Conversa com todo mundo e é gentil. Ontem vi você separando uma briga e dando conselhos pro Thiago. Achei o máximo. Realmente eu ti há feito aquilo, mas não imaginei que ele estivesse me observando. Fiquei vermelho e abaixei a cabeça. O cara me desmontou sem nem me dar uma rasteira... Ele estendeu a mão. - Eu posso estar errado por te achar legal. E você pode estar errado por me achar... qual foi a palavra... ah, entojado. Só tem um jeito de descobrir... Amigos? Eu apertei a mão dele, surpreso e com um meio sorriso. Ele abriu um sorrisão. - Amigos. - concluí. E assim a dupla mais improvável e louca de uma vida inteira nasceu ∆∆∆∆∆
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