37 - Mentira tem perna curta

2887 Palavras
*Michael PoV* Os ensaios do fim de semana não foram muito diferentes. Pete desistiu de tentar qualquer conversa comigo. Limitou-se ao papel de um árbitro em uma luta de Boxe. Assistir a porradaria e só se meter mediante um golpe baixo. Ela erra, eu explodo. Virou a nossa rotina venenosa. Não entendo porque não consigo controlar meu m@ldito gênio perto dela. Na verdade, eu sei exatamente a razão, só não quero admitir e ter que lidar com as consequências. Isso me consome, acaba comigo. Eu queria realmente poder jogar tudo para o alto. Mandar a apresentação para o infe®no. Tomá-la em meus braços, jogá-la na minha cama e fazer amor com ela até meu corpo ser destruído. Espera... Desde quando eu uso um termo tão piegas quanto “fazer amor”? Empurro minha cadeira para longe da mesa no meu escritório e olho ao redor. Preciso achar um meio termo para esse impasse. Meu temperamento não ajuda em nada. Acho que sou eu quem tem que tentar uma nova forma de abordagem. Só espero ser capaz disso. Confiro a ho®a e vejo que são 16h30m. O setor de Marketing normalmente termina o expediente às dezessete ho®as. Levanto-me e decido tentar algo novo. Quando chego ao 42º andar, vou na direção da partição dela. Ela está aqui ainda, assim como Rico. Paro um instante atrás de uma pilastra próxima e respiro fundo para me preparar mentalmente. Quando ele está por perto, tudo pode acontecer. Então, sem querer, acabo escutando parte de sua conversa. ㅡ Estou a beira de estrangulá-lo... Ela com certeza está falando de mim. *Amber Lee PoV* ㅡ Foi tão ruïm assim? Encaro Rico, cujo semblante é a mais pura preocupação e suspiro fundo. ㅡ Não vai dar certo. Michael é completamente intragável. Se não fosse pelo Pete, acho que você estaria sabendo de mim através das páginas policiais, pois certamente ele já teria me matado! ㅡ Credo! Ele pode ser explosivo, porém duvido que te matasse. Vocês só precisam se entender melhor. ㅡ Como? Ele batuca com os dedos sobre os lábios enquanto pensa. Não sei se é uma boa ideia, porém meus neurônios já fritaram tentando achar uma solução. ㅡ Uma máscara? Fone de ouvido? Se você não tiver que olhar para ele ou escutá-lo, talvez relaxe. ㅡ Jura? ㅡ Eu reviro os olhos e cruzo meus braços. ㅡ Como é que eu vou acompanhá-los com o teclado se não estiver ouvindo a música, Rico? Eu rosno para o nada e passo as mãos pelos meus cabelos. ㅡ Acalme-se. Vamos achar uma solução. ㅡ Estou a beira de estrangulá-lo… ㅡ Você é uma pessoa forte que sabe o que quer, ojitos. Não se deixe abater por um simples cantor de metal. Sabe, para o Michael, a banda é a vida dele. Mesmo que ele ame seu trabalho na McGregor Corporation, tocar música é o ar que ele respira. ㅡ Provavelmente estou sufocando ele no momento! Estou começando a me perguntar se foi uma boa ideia… *Michael PoV* Eu também não sei se foi uma boa ideia, entretanto, de uma maneira torta e descabida, gosto de vê-la todas as noites. ㅡ Claro que foi uma boa ideia, ojitos! Ainda me lembro de como você tocou no Butterfly, mesmo após tudo o que passou. Você disse que fazia anos que não tocava, mesmo assim foi como se nunca tivesse parado, de tão bonito que foi. Por isso imaginei que entrar para a Everlasting fosse te fazer feliz de novo. Não pense no Michael, pense na música. Então, essa foi a verdadeira razão dele ter sugerido ela para substituir a Dorothy? O que aconteceu para fazê-la parar de tocar? Ouço-a suspirar longamente e resolvo entrar em cena. Ela parece ter visto um fantasma ao perceber minha presença. Rico, que está agachado ao lado da cadeira dela, se levanta, me cumprimenta e volta para sua própria cadeira, arrastando-a de volta para sua mesa para nos dar mais privacidade, o que é meio difícil em um ambiente cheio de gente. Apoio-me na beirada da mesa dela com as mãos nos bolsos e dou uma rápida olhada na tela de seu computador, antes de plantar meu olhar em seu rosto. Será que ela percebe o quanto eu a desejo? Será que ela se sente do mesmo jeito? Talvez, seja por isso que brigamos tanto… Eu analiso sua roupa, imaginando as curvas que cada peça esconde. É uma tortura angustiante. Estou completamente... Perdido. Não sei como consigo manter o controle perto dela. ㅡ Vou terminar algumas coisas que preciso fazer em alguns minutos. Você quer ir para o ensaio comigo? Ela me encara como se eu tivesse dito para ela tirar a roupa. Não fui grosseiro ou sarcástico e isso para ela é novidade. Eu mereço uma bofetada daquelas bem fortes, por fazer uma garota como ela aturar o meu mau temperamento. ㅡ Você tem certeza que quer minha companhia? Quero você toda... ㅡ Eu não estaria aqui se não quisesse. A que ho®as você sai? ㅡ Em meia ho®a. ㅡ Vou te esperar lá embaixo. Saio sem esperar por uma resposta. É perturbador e cansativo demais estar próximo dela. Toda vez, faço um esforço enorme para manter a razão acima de tudo. *Amber Lee PoV* Depois que Michael se vai, eu fico na minha cadeira parada, de boca aberta, sem entender o que aconteceu. Rico se aproxima em sua cadeira, olha um instante na direção que seu amigo seguiu, e volta a me encarar com um sorriso. ㅡ Viu? ㅡ O que, exatamente? ㅡ Ele está tentando se aproximar de você. Michael não costuma ser gentil assim com quem ele m@l conhece. ㅡ Talvez ele esteja planejando me jogar para fora do carro em movimento no meio do trânsito… Rico dá uma gargalhada e eu confesso que me contagia. Será que ele realmente vai erguer a bandeira branca? Esse pensamento me enche de alegria. Quando saio pelas portas da recepção, vejo Michael parado em frente ao seu carro. Ele fica terrivelmente s&xy, com seu terno preto e gravata largada, os cabelos longos caindo como um véu após uma passada de mão. Seus braços se cruzam ao redor do peito, enquanto olha diretamente para mim. Eu engulo em seco e dou um pulo quando sinto uma mão no meu ombro. Eu me viro rapidamente e encontro o rosto sorridente de Lauren, que arruma a bolsa no ombro. ㅡ Perdão, amiga. Não imaginei que estivesse tão distraída pela visão dos deuses a sua frente. Eu reviro os olhos e lhe dou um leve beliscão no braço. ㅡ Lauren! E se ele te ouvir? ㅡ Ele está longe demais para isso. Só não entendo o que o Michael está fazendo ali parado. Até parece que está esperando alguém… Eu fico sem graça e limpo a minha garganta. ㅡ Nós vamos ensaiar. Ele combinou de ir comigo. Os olhos dela se arregalam e ela pisca para mim. ㅡ Oh! Então, não deixe o gato te esperando! Ela começa a me empurrar na direção dele e eu ofereço uma certa resistência. Não quero parecer tão desesperada assim. No entanto, o chamado impaciente dele me alerta. ㅡ Amber Lee, deixe para fofocar com a sua amiga depois! Temos ensaio, esqueceu? ㅡ Já vou! Antes de seguir, Lauren sussurra no meu ouvido. ㅡ Vou querer saber como foi depois. Claro que vai… Espero que hoje seja diferente… Dou-lhe um aceno com a mão por sobre o ombro e entro no carro. Michael já está ao volante, com o semblante um pouco aborrecido por eu tê-lo feito esperar. Eu suspiro enquanto ele dá partida e nosso trajeto é preenchido por um silêncio mortal. Talvez, não… *Michael PoV* Imaginei que poderíamos começar do zero. Que eu suportaria os erros dela, caso o clima tenso entre nós se dissipasse. Porém, cada nota fora do lugar envia um choque elétrico por todo meu ser. Estou sinceramente tentando não brigar com ela, porém meu corporal não deve estar me acompanhando. Principalmente, quando desconto nas cordas do meu instrumento toda minha frustração e raiva. Ela chega a saltar de susto às vezes. Isso não está nada bom. ㅡ Vamos tentar de novo. Pete, o juiz, tenta manter a todo custo um clima saudável, o que se prova uma tarefa cada vez mais difícil. Ele inicia o ritmo, eu entro na minha vez, assim como ela. Quando canto o terceiro verso, ela erra. Meu amigo interfere como pode, tentando suavizar a situação. Ela é boa. É perfeita, na verdade. Porém, nós não estamos na mesma sintonia. Sequer conseguimos olhar um para o outro a cada interrupção. Estou à beira de um colapso e quase entregando os pontos. A razão pela qual não nos damos bem aqui é muito mais forte que a pressão da apresentação... Olho para ela, que está concentrada em seu instrumento. Ele parece uma divindade para ela. É assim que me sinto com minha Telecaster. Respiro fundo para me acalmar e me aproximo do microfone. ㅡ Olhe para mim. ㅡ Sua surpresa ao me encarar é notória, pois meu tom não é exasperante. ㅡ Fique focada em mim. Seu silêncio é preocupante, ela parece nem estar respirando. Chego a estalar os dedos e ela pisca. Bom, estou certo de ter sua atenção agora. Nós iniciamos a mesma canção outra vez e, a princípio, imaginei que fosse dar certo. Senti algo naquele primeiro minuto em que a música pareceu perfeita. No entanto, logo ela erra novamente. Vamos, little bunny, não se assuste comigo. Entregue-se. Eu sei que você tem potencial. Acho que a tensão entre nós é bem mais profunda. Vai além do s&xo que não fizemos. Além das provocações e dos olhares desejosos trocados. Não conseguimos relaxar na presença um do outro. E nossa música é um caos total. Cerro os dentes para segurar um xingamento, o que se torna inútil. Estou cansado dessa agonia. ㅡ Porr@, Amber Lee! Não consigo entender como você tocou tão bem no Butterfly e faz essa c@gada agora! Até parece outra pessoa! Quando meu olhar encontra a surpresa nos olhos dela, percebo ter falado demais. *Amber Lee PoV* Fico de boca aberta e olhos arregalados com o que Michael acabou de falar. Butterfly? Ele se referiu ao dia em que eu toquei no happy hour? ㅡ Como você sabe que eu toquei lá? Minha voz sai apertada da garganta, meu coração latejando na minha cabeça. Eu me lembro perfeitamente daquela figura me observando do lado de fora do restaurante. Michael fica visivelmente chocado e gagueja. ㅡ E-eu… Foi… Foi o Rico quem me contou, oras! O que mais poderia ser? Ele está nervoso demais, com os dentes trincados e seu olhar não enfrenta o meu, o que nunca aconteceu antes… Ele está mentindo! ㅡ Era você na vitrine, não era? Minha pergunta sai praticamente gritada e ele olha desesperadamente para o Pete, que apenas dá de ombros. Depois de um longo suspiro, ele passa as mãos pelos cabelos nervosamente e fala baixo, sem conseguir me encarar. ㅡ Você por acaso me viu lá? ㅡ Não responda a minha pergunta com outra pergunta, Michael! Era você me vigiando? Eu só toquei uma vez no Butterfly! Uma única vez! Eu me lembro de alguém com a sua aparência olhando pela vitrine, porém não pude ver o rosto. ㅡ Quando sinto que ele vai abrir a boca, eu completo. ㅡ Pense bem na sua resposta! Eu odeio mentiras! Cruzo meus braços diante do peito, ofegante de ansiedade. Finalmente, seus olhos claros repletos de culpa ousam me encarar. ㅡ Sim, era eu. ㅡ E me contar que você já me conhecia não fazia parte dos seus planos? Depois de suspirar profundamente, ele enfia as mãos nos bolsos e começa a andar pelo estúdio conforme fala. ㅡ Eu não sabia que era você, no começo. Não tinha visto seu rosto enquanto tocava ou no hospital, quando Rico me pediu ajuda por causa do que o Fabian fez. Então, naquele show em que eu te encurralei contra a parede por causa da minha Fender, Rico depois me confirmou que você era a tecladista. ㅡ A simples menção do nome daquele monstro me faz estremecer. Como que sentindo minha tensão, Michael se aproxima e fica tão perto, que sou obrigada a erguer meu rosto para encarar o dele e seu perfume me envolve. Tudo o que eu mais odeio nele, a arrogância, a grosseria, o sarcasmo, tudo se foi. Só o que vejo em seu olhar é a mais profunda empatia e sinceridade. ㅡ Eu sinto muito pelo o que aconteceu com você, little bunny… Quando seu polegar toca a minha bochecha levemente, sinto uma descarga elétrica percorrer todo o meu corpo. Seu dedo desliza gentilmente pela minha pele, limpando uma lágrima que eu sequer havia notado. Tristeza se une às emoções conflitantes em seu rosto. Então, me dou conta de como ele me chamou. Little bunny? Foi assim que ele me apelidou no meu sonho erótico! Mando saliva garganta abaixo, tentando abrir espaço para o ar e as palavras. Porém, está tudo travado e minha cabeça é uma completa bagunça. Mesmo assim, eu começo a juntar as peças. ㅡ Meu… Emprego? Ele volta a ficar surpreso mais uma vez, morde os lábios de nervoso para, no final, confirmar com a cabeça. ㅡ Rico me disse que você tinha sido despedida por causa do que aconteceu e que era formada em Marketing. Então, pedi ao McGregor para te dar uma chance e ele fez a recomendação para o Mortimer te aceitar. Dessa vez, eu engasgo. Ele tem tanta influência assim com o CEO, para conseguir uma vaga para mim? Desvio meu olhar do dele e escapo de seu domínio. As possibilidades ficam martelando na minha cabeça, enquanto ando pelo estúdio. Quanto mais eu penso, mais eu me enfureço. ㅡ Por que não me disse nada, Michael? Será que só estava esperando o momento certo para cobrar o seu favor? Seu semblante fecha em uma carranca e ele fica extremamente aborrecido. ㅡ O quê? Como pode pensar uma coisa dessas de mim? Nunca precisei chantagear uma mulher! Se eu quisesse te levar pra cama, certamente não usaria a minha posição! Não consigo evitar a ironia da minha voz. ㅡ Nunca precisou porque sempre teve um monte de pir@nhas te cercando! E eu jamais iria pra cama com alguém como você, mesmo que isso me custasse o emprego! ㅡ Alguém como eu? ㅡ Ele se aproxima bufando e eu levanto o meu queixo para enfrentar seu olhar. ㅡ Saiba que “alguém como eu” te arrumou a porr@ de um trabalho, quando você estava na merd@, sem cobrar nada em troca! ㅡ Apenas porque eu não te dei a chance! Não seria a primeira vez que um homem me dá emprego, só para conseguir que eu abra as pernas depois! *Michael PoV* Fecho meus olhos meio segundo e inspiro fortemente. Um tapa na cara teria sido melhor que a acusação que ela fez. Não acredito que ela realmente pense que eu seja igual àquele c®etino! Passo uma mão por sua nuca e outra por sua cintura, quando coloco minha boca em sua orelha para fazê-la me escutar. ㅡ Eu não me chamo Fabian Caster… Só porque ele fez aquela merd@ com você, não quer dizer que eu vá fazer o mesmo. Estamos ambos ofegantes pelo atrito da nossa discussão acalorada e pela tensão desse abraço inimaginável. Suas mãos estão em meu peito e seu perfume começa a fazer todos os meus sentidos explodirem, assim como a maciez de seus fios vermelhos fazem meus dedos formigarem. Nossas bochechas estão grudadas uma na outra, e eu luto contra mim mesmo para não beijá-la agora. Só daria mais veracidade para o que ela acabou de me acusar. De repente, ela me empurra e se afasta, completamente abalada. Pete sai de sua bateria, porém ele sequer tem tempo de falar qualquer coisa. Amber Lee aponta um dedo trêmulo na direção dele, o olhar marejado pelas lágrimas que ela segura. ㅡ Você sabia, Pete? Meu amigo suspira e esconde as mãos nos bolsos da bermuda. ㅡ Faz pouco tempo, mas o Michael acabou me contando. ㅡ Que ótimo! Eu era a única palhaça sozinha no picadeiro! Ela chacoalha os braços no ar e se vira para sair do estúdio. Eu entro em desespero e a sigo. ㅡ Amber Lee! Espera! Ela limpa com raiva uma lágrima que escapa quando ela se vira para mim e eu fico sem saber o que fazer. ㅡ Eu quero ficar sozinha… Boa noite. Há uma frieza exasperante em sua voz que me acorrenta no lugar. Apenas a observo ir embora e Pete se coloca ao meu lado. ㅡ Parceiro, a gente devia se benzer, porque, vou te dizer, está fod@... Eu suspiro de desgosto e me sento em um amplificador. ㅡ A culpa é minha, para variar. Eu deveria ter contado a verdade para ela antes. Agora, justamente o que eu não queria que acontecesse, aconteceu. Ela me acha um completo c@nalha. ㅡ Vamos ser sinceros aqui, está bem? Você nunca esteve em tão alta estima assim com ela para início de conversa… Sua tentativa inútil de brincar com essa situação desastrosa não me anima, pois, mesmo que ela resolva continuar na banda, qualquer chance que eu poderia ter com ela acabou indo pelo ralo. Eu a perdi…
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