Pré-visualização gratuita 1 - O hacker
*Michael PoV*
ㅡ Quanto você acha que vai conseguir dessa vez, heim?
O bafo de bebida passando pela lateral do meu rosto é nauseante.
Não é que eu não beba, não vou ser hipócrita aqui, mas, porr@, eu pelo menos escovo os dentes e tomo banho!
Empurro o coroa para o lado com uma carranca e volto a olhar para a tela do meu computador. Consegui invadir a rede da maior empresa do estado de Nova Iorque, talvez do país, e tenho que prestar atenção no que estou fazendo.
A grana que posso fazer vai ser o suficiente para nos manter por um bom tempo. Isso se o Sunny não beber tudo.
Pego a garrafa de uísque barato em cima da mesa e tomo um gole no gargalo. Faço uma careta e limpo a boca com a mão.
Arde que só o inferno!
Volto a me concentrar, digitando linhas de códigos na tela. Tarefa difícil com esse velho do meu lado.
ㅡ Hei, garoto! Responda!
Sinto o peso da mão dele na minha nuca, tão forte, que minha cabeça vai para frente com o tapa. Viro-me irritado para ele, alisando a parte de trás do meu pescoço.
ㅡ Porr@, Sunny! Eu tenho que me concentrar aqui! O que é impossível com você fungando no meu cangote!
Recebo um soco na lateral do rosto e quase me desequilibro da cadeira.
ㅡ Eu sou seu pai, Michael! Respeito é bom e eu gosto!
Meu corpo treme e fecho o punho, pronto para revidar. No entanto, eu não faço. Ele é um velho bêbado filho da put@ e tenho certeza que não hesitaria em me pôr na cadeia caso eu batesse nele.
ㅡ Posso terminar aqui ou você ainda vai continuar a sessão de pancadaria diária?
Ele bufa e passa as mãos pelos cabelos ralos e sebosos.
Eu não sei como ele pode ser meu pai, não temos nada em comum, nem mesmo a aparência. Talvez, eu seja filho de algum "cliente" da minha mãe, por isso ele me trata como escória o tempo todo. Mas, assim que eu conseguir dinheiro suficiente, eu sumo da vida dele para sempre! E a McGregor Corporation é a minha galinha dos ovos de ouro.
Sunny pega a minha garrafa de uísque e bebe como se estivesse tomando água. Provavelmente, não tem mais nenhum órgão funcionando direito no seu corpo decrépito em formato de barril por causa da bebida. Ele se retira para seu quarto, apontando um dedo para mim antes.
ㅡ Dinheiro, Michael! É só para isso que você serve, então faça a sua parte!
Ele bate a porta do cômodo com força e eu passo as costas da mão para limpar o filete de sangue que escorre pelo canto da minha boca. Respiro fundo, olhando ao redor da sala.
Eu não tenho quarto, Sunny fica com o único da casa. Meu computador fica comigo na sala, assim como a minha guitarra, e durmo no sofá velho.
Suspiro profundamente e puxo meus longos cabelos negros para trás.
Sunny queria que eu cortasse o cabelo para ter cara de "homem". Nem morto eu permitiria isso, deu um trabalho do cass&te deixar crescer até o meio das costas. É algo pessoal meu e não vou deixar aquele velho tirar isso de mim.
Olho para a tela do computador e vejo a sombra do meu reflexo nela.
Tenho vinte anos e ainda estou nessa merd@... Mas, eu só preciso aguentar mais um pouco. Depois dessa invasão, vou poder me dedicar ao que realmente amo.
Eu tenho um "dom", simplificando dessa forma, para linguagens de programação. Não é à toa que consigo quebrar sistemas de segurança sofisticados mesmo com um computador tão sucata. Porém, meu maior talento está na música. Montei uma banda com mais dois amigos de infância, Pete e Dorothy. Infelizmente, ainda não conseguimos a fama que tanto ansiamos, contudo sei que um dia chegaremos lá.
Até esse dia, tenho que me virar como posso.
Volto a me empenhar nas linhas de códigos diante de mim. Consigo garimpar cerca de cinco mil dólares. Não ouso fazer um estrago maior, existem muitas coisas a considerar, como a culpa do sumiço do dinheiro cair injustamente sobre algum inocente ou eu acabar preso por ser ambicioso demais.
Uma quantia dessas por semana vai ser o meu passaporte para a liberdade.
Continuo nessa empreitada, por mais alguns dias. Cada vez, tiro um valor diferente para não levantar suspeitas. Crio contas falsas para onde direciono o dinheiro e depois maqueio tudo. Sunny acha que eu sou lerdo demais. Ele esperava que eu pegasse um milhão de dólares, ou algo assim, logo de cara. Até poderia, porém iria chamar uma atenção desnecessária. O segredo desse "negócio" é ser discreto. Pelo menos, era o que eu achava.
Sua impaciência sempre culmina em socos ou pontapés. Hoje, ele deixou impressa a sola do sapato na minha cara, depois que caí no chão quando ele me acertou com um vaso de flores, sem flores. Vi estrelas.
Por que a gente tinha aquela merd@ em casa?
Leva mais de uma ho®a para a dor na cabeça diminuir e o sangramento na testa parar. Busco forças, não sei de onde, e volto para o computador. Tomo um baita susto quando fortes batidas na porta ecoam pelo pequeno ambiente do conjugado.
ㅡ Sunny! Você pode atender a porta? Estou ocupado agora!
Ele não responde, deve estar desmaiado no quarto de novo. Estava completamente bêbado quando me acertou com o vaso. Velho inútil!
Eu me levanto bufando e abro a porta de uma vez.
ㅡ O que é?
Vejo dois homens engravatados de óculos escuros. Um deles retira os óculos e, sua feição dura com aquela cicatriz na lateral do rosto, faz com que todos os pelos do meu corpo se arrepiem.
Estou f0dido! É o FBI!
ㅡ Michael Denver? Preciso que venha conosco.
O homem da cicatriz é frio e incisivo. Eu bato a porta na cara dele rapidamente.
Uma ova que vou!
Corro para a janela, agarrando minha guitarra dentro da capa pelo caminho. Saio para a escada de incêndio do prédio, enquanto coloco a alça da proteção do meu instrumento ao redor do peito. Puxo o capuz do meu casaco para me proteger da rala neve que cai e olho para baixo. Fico zonzo com a altura.
Ou talvez seja a minha glicose gritando devido ao uísque. Eu não deveria beber por causa da diabetes, mas, às vezes, é a única forma de esquecer essa merd@ de vida que levo.
O som da porta do meu apartamento sendo posta abaixo me obriga a sair do meu m*l-estar à força. Vejo um carro preto com mais três homens m*l-encarados de terno lá embaixo.
Porr@!
Decido subir para tentar escapar pelo telhado, no entanto escuto o clique do gatilho de uma arma e congelo no lugar.
ㅡ Senhor Denver, por favor. Não me obrigue a tomar uma atitude mais drástica.
A voz do homem da cicatriz é fria e ameaçadora. Engulo em seco.
Não tenho escolha. É melhor dançar conforme a música por enquanto.
Decido voltar pela janela. Cara já me pega pelo ombro e me força a sentar no sofá. Então, ele aperta um dispositivo no ouvido que eu não tinha notado até agora.
ㅡ Alvo localizado e sob controle… Sim, senhor. No aguardo.
No que di@bos eu me meti?
Fico olhando para o homem, que se limita a fincar seus olhos sérios em mim. É tão constrangedor, que tento quebrar o clima tenso com um pouco de cortesia.
ㅡ Eh… Aceita um café?
A expressão severa dele não muda e eu suspiro. Olho para a porta onde está o outro capanga.
O que será que estão esperando? Ou quem?
Após alguns minutos de puro silêncio, ouço passos no corredor do prédio e meu coração acelera. Um homem, não muito mais velho que eu, entra na sala, passando com cuidado sobre os destroços da porta. Ele veste um terno cinza que deve ter custado o valor de um rim ou dois. Os cabelos curtos castanhos bem penteados, com certeza é um figurão. Ele me parece familiar, de alguma forma, e me concentro em seu rosto. Seu olhar é incomum, cinza, como se fosse feito de metal frio, o que só aumenta o arrepio que me atinge. Então, finalmente o reconheço.
Put@ merd@! É o meu fim!
As duas múmias que estiveram tomando conta de mim ficam mais sérias ainda, conforme o CEO da McGregor Corporation se aproxima. Se eu não tivesse um bom controle intestinal, estaria todo cag@do.
O figurão segura o meu queixo, afasta meu capuz e cabelos, examinando o meu rosto minuciosamente. Faz uma cara de desdém e me solta, para se dirigir ao homem da cicatriz.
ㅡ Eu deixei bem claro que ele não deveria ser machucado, Robbins! Que hematoma é aquele no rosto dele? E o corte recente na testa? Até parece que levou uma surra!
Fico confuso e assustado ao mesmo tempo. A voz do cara é de fazer qualquer um querer se esconder em um buraco. O tal Robbins limpa a garganta e percebo uma gota de suor escorrer pela lateral do seu rosto.
ㅡ Senhor McGregor, isso não foi obra minha ou do Turner.
McGregor volta a me encarar e eu desvio meu olhar para o chão.
ㅡ O Sunny bateu em você?
Levanto meu rosto surpreso para ele e gaguejo minha resposta.
ㅡ F-foi… Um acidente…
Sempre foi a desculpa que dei para todos quando os hematomas e ossos quebrados me levavam para o hospital. No começo, quando era mais novo, eu mentia por medo do que Sunny faria comigo depois. Eu não acreditava que alguém pudesse me proteger dele. Quando fiquei mais velho, foi apenas a culpa que me impedia de dizer a verdade. Descuidei do Raphael e ele morreu. Descuidei da mamãe e ela foi embora de casa. Sunny não tinha mais ninguém e, no fundo, eu sempre acreditei que merecia sua raiva e frustração.
Ethan McGregor dá uma breve risada irônica.
ㅡ É o que a maioria das vítimas de abuso diz, seja por medo, vergonha ou culpa.
Ele lê pensamentos?
Fico de olhos arregalados encarando esse homem, que parece ter saído de um filme de espionagem. Ele olha para a porta do quarto um segundo e volta a me questionar.
ㅡ Ele está lá dentro?
Só consigo acenar com a cabeça. Ele gesticula para que o "cicatriz" Robbins o siga e ambos entram no quarto, fechando a porta. Fico esfregando as mãos suadas de nervoso uma na outra, enquanto olho de lado algumas vezes para o tal Turner. Suspiro desanimado ao notar que há mais três armários humanos com ele, que devem ter chegado junto com McGregor e eu nem havia percebido.
Acho que daqui vou direto para a cadeia. Adeus, liberdade…
Quase meia ho®a se passa, enquanto esperamos. Ouço barulhos no quarto do Sunny, inclusive ele grita algumas vezes, até pragueja. Eu sou tão boca suja quanto ele, fruto da criação, no entanto até um Zé Ninguém como eu sabe o quão poderoso Ethan McGregor é, e como não é bom despertar sua ira. Eu me abraço com a minha guitarra, a única coisa importante que tenho e que significa o mundo para mim. A música mantém a minha sanidade. Entretanto, eu já sofro por antecipação, sabendo que não poderei levá-la comigo para a cadeia. Seria mais piedoso me dar um tiro na cabeça aqui e agora.
O CEO e seu capataz saem do quarto e McGregor tem um sorriso de satisfação no rosto. Eu não resisto em perguntar, depois de engolir em seco a vontade de chorar.
ㅡ O senhor vai me levar para a cadeia agora?
Ele suspira fortemente e, impressão minha ou não, parece até decepcionado. Deve ser realmente decepcionante ver um jovem como eu se meter no mundo do crime. Mesmo que eu roube dinheiro apenas de magnatas como ele, ainda assim, é isso o que eu sou. Um ladrão. Ele pega uma cadeira velha e se senta diante de mim, cruzando os braços.
ㅡ Não estou aqui para prendê-lo, Denver. Já acertei as contas com Sunny. Você virá comigo.
Contas? Ele me comprou? Aquele velho safado teve coragem de fazer isso comigo para se livrar?
Como lendo meus pensamentos mais uma vez, ele sorri discretamente e acrescenta:
ㅡ Sim, eu dei dinheiro a ele, porém não com o intuito de te comprar. Não se preocupe, não tenho esse tipo de perversão. Eu apenas o indenizei pelos danos ao seu apartamento e pelo fato dele perder você como fonte de renda. ㅡ Ele estreita o olhar e inclina seu corpo na minha direção, apoiando as mãos sobre os joelhos. Sinto arrepios na alma. ㅡ Já faz tempo que escuto falar de um hacker que tem aterrorizado grandes empresários. Ele consegue entrar e sair de sistemas muito complexos, rouba algum dinheiro e some rapidamente. Depois de muita investigação, com a ajuda do FBI, descobrimos que ele usa o pseudônimo de Leahcim que, coincidentemente, é o seu primeiro nome ao contrário. Porém, eu me pergunto porque ele nunca roubou o suficiente para nadar em dinheiro assim que teve a oportunidade…
Eu abaixo minha cabeça, apertando meu instrumento contra o peito.
ㅡ Acho que não adianta negar que eu seja o hacker. Eu nunca quis prejudicar ninguém, então nunca ataquei pessoas comuns que seriam alvos muito mais fáceis. Grandes empresários, por outro lado, têm tanto dinheiro que não sabem nem como gastar. Mas, eu também sei como geram milhares de empregos, então tive medo de tirar demais e prejudicar o ganha-pão de alguém. Eu… Eu só quero sair desse buraco, terminar a minha faculdade e ter um futuro decente.
ㅡ Isso justifica roubar para se dar bem na vida, Michael Denver?
O meu nome entra como um chicote na minha cabeça e eu me afogo na vergonha. Eu me sinto uma criança levando um esporro.
ㅡ Não, senhor…
ㅡ Então, você sabe que o que tem feito até hoje é errado, certo?
ㅡ Sim, senhor.
ㅡ Que bom. Seria um desperdício de talento ter que te mandar para a prisão. Vamos embora.
Nesse momento, levanto minha cabeça para encará-lo, completamente atordoado.
ㅡ Não vai mandar me prender?
McGregor me observa de forma curiosa e ergue uma sobrancelha.
ㅡ Estou aqui para te dar uma oportunidade de emprego. Mas, se você prefere ir preso…
ㅡ Não! ㅡ Eu limpo a garganta e tento controlar meus nervos. ㅡ Emprego?
ㅡ Exatamente. Sabe, Denver, os dados que você recebeu não eram inteiramente verdadeiros, mesmo assim você conseguiu invadir o meu sistema. Isso prova que você tem um talento extraordinário e seria burrice minha não aproveitá-lo. O setor de Desenvolvimento e Tecnologia da minha empresa está precisando de alguém com seus dons. Você estará subordinado a mim apenas. Ninguém deverá se meter no seu trabalho e muito menos você deverá contar a quem quer que seja o que eu te disser para fazer.
ㅡ Nossa. Parece até que está me recrutando para uma conspiração mundial...
Eu rio para disfarçar o nervosismo, mas a seriedade dele me interrompe.
ㅡ Talvez, esse seja o ponto. Enquanto conversamos aqui tranquilamente, atrocidades inomináveis acontecem ao redor do Globo. Não sou o herói de capa que vai salvar o dia, porém vou poder colocar a minha cabeça no travesseiro, sabendo que tenho direito ao sono dos justos por ter feito a diferença. Apesar do modo como ganha a vida, eu vejo algo mais em você. Seria tão mais fácil roubar de algum pobre trabalhador que deu duro o mês inteiro para receber o salário… No entanto, você se arriscou somente com aqueles que, como eu, são podre de ricos e não teriam tanto prejuízo. Isso é um sinal de caráter.
Fecho meu semblante em um sorriso autodepreciativo.
Caráter... Estou a milhas de distância disso. Não tem nada que valha a pena em mim.
ㅡ Conheço esse olhar, Denver. É o olhar de quem não acredita mais em si mesmo. É o olhar de quem se acha indigno. Então, por que não tentar fazer a diferença? O que tem a perder? Eu lido diariamente com pessoas da pior espécie, cobertas de peles raras, jóias caras e altos índices na bolsa de valores. Muitas vezes, quero fazer algo a respeito, porém, para derrubar alguém no topo da escada do poder, é necessário que se tenha provas contundentes. Você pode conseguir essas provas para mim, com os recursos que estou disposto a te prover. Juntos, poderemos colocar os verdadeiros vilões atrás das grades.
ㅡ Quer que eu invada os sistemas da sua concorrência para que se dê bem?
ㅡ Não. Nem todos os meus concorrentes são tão intragáveis assim. Também me refiro àqueles que se tornam meus parceiros, porém suas origens e conduta são questionáveis. Resumindo, somente os que estiverem envolvidos em atos ilícitos, não importa quem seja.
ㅡ Entendo… Olha, senhor McGregor, eu não quero me encrencar mais. Uma coisa é tirar um pouco de dinheiro de um ricaço aqui e ali. O que está me pedindo é… Outro nível… O mundo não vai mudar e deixar de ser c®uel e injusto por causa disso.
ㅡ Eu sei. Mas, talvez, nossos atos no topo da escada ajudem a semear um pouco de consciência e empatia. Eu encaro a vida como empilhar dominós. A peça derrubada na frente, sai levando as outras depois. Pelo menos, estaríamos fazendo a nossa parte para tornar o mundo um lugar um pouco melhor. Evitar que uma criança morra de fome, que um pai de família seja assassinado, que uma mulher seja violentada… Podem ser consequências das nossas ações no dominó da vida. O que me diz? Pronto para mudar de cor?
Pisco meus olhos um instante e tento não rir da expressão que ele usou. Normalmente, ninguém diferencia o que um hacker faz, generalizando tudo.
Eu sou um black hat, um cracker, o temido criminoso cibernético que abusa de sistemas em benefício próprio. Mudar de cor seria mudar para white hat ou grey hat, que são hackers que usam seu conhecimento para bons propósitos… Devo estar sonhando. Jamais imaginei que alguém colocaria tanta fé em mim. Muito menos alguém como ele, um homem praticamente intocável de tanta influência que tem. Até sinto vergonha de mim mesmo. Ele deve ser uns quatro anos mais velho que eu apenas, no entanto, mesmo tão jovem, ele tem um império invejável. Mais surpreendente ainda é a sua integridade e generosidade. Enquanto estou procurando desculpas para me acovardar e enterrar a minha cabeça na areia, ele está disposto a arriscar tudo para ajudar o próximo.
Olho para a mão que ele estende na minha direção e vejo uma oportunidade incrível se criando diante de mim.
Essa é a liberdade que sempre procurei. Trabalhar honestamente, tocar minha música e fazer algo por aqueles que não podem se defender.
Volto a encarar o homem de olhos cor de chumbo e seguro firmemente sua mão.
ㅡ Pode contar comigo.
Pela primeira vez, desde que entrou na minha casa, ele mostra um sorriso amigável. Uma mudança drástica que me deixa um pouco surpreso, porém correspondo da mesma forma.
ㅡ Ótimo. Vou te mostrar o seu novo apartamento. Ele fica no Chelsea, na ilha de Manhattan, acho que vai gostar do bairro. Está mobiliado e eu tomei a liberdade de colocar algumas roupas mais formais no seu guarda-roupa, além de um computador de última geração no seu quarto.
Ele fala tudo tão naturalmente, como se estivesse me explicando como ligar um eletrodoméstico e eu fico perdido.
ㅡ Apartamento? Mobília? Roupa? Computador? Do que está falando? E as minhas coisas?
Ele dá um breve suspiro e olha ao redor com uma tristeza fugaz.
ㅡ Existe algo que o prenda aqui?
Olho rapidamente para a porta do quarto onde Sunny está.
Ele sabe que vou embora e sequer se deu ao trabalho de se despedir de mim. Deve estar muito ocupado pensando em como gastar o dinheiro que McGregor lhe deu. Que piada…
Eu me levanto com um suspiro pesado, acomodo minha guitarra ao redor do peito e encaro meu novo chefe.
ㅡ Não, senhor. Só preciso da minha Fender. Podemos ir.