Quatro anos depois…
*Amber Lee PoV*
Acordo suada e ofegante no meio da noite, com o corpo todo tremendo. Isso está ficando cada vez mais frequente. Olho para o lado e não vejo Kevin, meu namorado. Busco o celular em cima da cômoda e vejo que são apenas duas ho®as da manhã.
Merd@… Ainda bem que ele foi embora. Sempre faz isso, com medo do meu pai pegá-lo pela manhã no meu quarto. Que saco! Não somos mais crianças! Eu já tenho vinte e três anos!
Eu decido me levantar e vou para o banheiro na minha suíte. Lavo meu rosto e encaro as olheiras no espelho do armário suspenso. Há muito tempo não encontro mais o brilho nos meus olhos verdes. Não consigo deixar de pensar em tudo o que foi tirado de mim.
Minha avó não está mais aqui, ela morreu quando eu era adolescente e, desde então, tenho sido prisioneira nesse castelo de cristal. A mineradora de antracite do meu pai, onde Kevin trabalha como gerente, vai melhor que nunca, no entanto, mesmo cercada de mimos, a arbitrariedade dos meus pais me sufoca. Sou obrigada a deixar de lado quem eu sou, o que eu amo fazer, e a obedecer suas vontades como um m@ldito cachorrinho, sendo treinada desde pequena para assumir os negócios da família. Pensei que o Kevin fosse ser meu aliado, porém ele é tão controlador quanto meus pais. Infe®no!
Quando eu paro para pensar, só comecei a namorar com ele por pressão da minha mãe e, meu pai, apenas seguiu a vontade dela. Foi um acordo entre as famílias. Eu não o amo de verdade. Acho que nunca amei.
Bato com o punho no balcão da pia, sem conseguir controlar as lágrimas que me sufocam. Eu busco o ar desesperadamente, tendo a sensação que o meu coração vai parar a qualquer momento. Passo as mãos pelos meus cabelos cor de fogo bagunçando a franja, completamente desorientada. Esbarro de costas contra a parede e desabo no chão. O banheiro parece se fechar sobre mim e o pavor iminente assume o controle.
Não aguento mais isso! Eu preciso sair daqui!
Eu me levanto correndo, tropeçando pelo meio do caminho. Escancaro a porta do closet e pego uma mochila. Jogo meia dúzia de roupas dentro, arranco meu pijama e visto a primeira calça jeans, camiseta e jaqueta que encontro.
Saio pela porta do quarto e paro ofegante diante do longo corredor desse casarão. Há inúmeros quartos nesse andar e um deles pertence aos meus pais. Limpo o suor da testa e caminho devagar para não fazer barulho. A última coisa que preciso é me explicar.
Estou cansada de ter que dar um relatório de todos os meus passos a cada momento. Eu quero ser livre! Livre para me dedicar à minha paixão!
Alcanço o topo das escadas que levam para o andar de baixo e desço os degraus me segurando no corrimão, com medo de tropeçar nas minhas próprias pernas. Talvez, seja estupidez da minha parte sair assim no meio da noite, porém, se eu não fizer isso agora, vou perder a coragem depois e eu poderia já encomendar a minha cova. Eu com certeza teria um colapso e daria adeus a esse plano terreno.
Dou a incrível sorte de não encontrar nenhum empregado, estão todos dormindo. Vejo o grande piano de cauda na sala e meu espírito entristece. Eu costumava tocá-lo ao lado da minha avó. Esse também foi um prazer tirado de mim.
Vovó… Sinto tanto a sua falta. Um dia, terá orgulho de mim. Vou correr atrás do meu sonho… Do nosso sonho…
Contenho as lágrimas que ameaçam retornar e inspiro profundamente, pensando em como sair sem ser vista. O problema vai ser passar pelos seguranças no portão de entrada da propriedade. Decido ir para os fundos, assim que saio pela porta da frente. Sigo curvada, usando as sombras da noite para encobrir a minha fuga. Quando alcanço o muro, agarro-me nas trepadeiras para tentar escalar. Não é uma boa ideia. As plantas não aguentam o meu peso e eu caio de bund@ no chão. Dói demais, porém a dor maior é a que carrego dentro do peito.
Seguro o grito profano na garganta para não chamar a atenção de ninguém e olho ao redor. Vejo as cadeiras de madeira em volta da mesa na área da piscina. Eu uso uma como apoio e finalmente consigo alcançar o topo do muro. Quando pulo para o outro lado, ajeito minha mochila nas costas e respiro fundo. Pela primeira vez em anos, o ar não parece tão opressor. Eu corro, como nunca havia corrido antes, até minhas pernas gritarem e meu coração quase sair pela boca.
Quando alcanço um ponto de ônibus, eu me vejo perdida. Não sei qual rumo seguir daqui em diante. Sento-me em um banco e busco informações online no meu celular. Nazareth, onde moro, é uma cidade pequena no estado da Pensilvânia. Minha família é bem conhecida e muita gente sabe quem eu sou. Fico olhando para os lados, temendo que alguém me reconheça, até porque o tom de ruivo do meu cabelo é praticamente único por aqui.
Eu deveria ter vestido algo com capuz…
Felizmente, a essa ho®a, não há pessoas nas proximidades. Durante minhas buscas na internet, eu acabo vendo o anúncio de um pub em Nova Iorque. Começo a pesquisar sobre o assunto e descubro vários lugares similares, muitos empregando artistas desconhecidos, porém talentosos. Pesquisando mais a fundo, fico encantada com a Big Apple, o apelido da cidade. O Central Park parece lindo nas fotos, assim como o ringue de patinação. Eu suspiro, enchendo meus pulmões.
Nova Iorque, aqui vou eu!
Tenho que esperar até de manhã cedo para pegar o primeiro de uma sequência de vários ônibus até o meu novo destino. Eu não ligo. Agarro minha mochila contra peito e olho para o céu estrelado com um sorriso. Então, me lembro de algo extremamente importante: Dinheiro.
Se eu usar meu cartão de crédito, eles podem me encontrar e me obrigar a voltar.
Levanto-me do banco e procuro um caixa eletrônico. Há um na loja de conveniência vinte e quatro ho®as do posto de gasolina logo em frente. Observo o atendente e respiro aliviada por não ser alguém que eu conheça. A maior parte dos produtos da loja são comida e bebida, porém também há uma sessão com acessórios de roupas. Eu escolho um boné preto sem marca e uma bolsa preta pequena de alça ajustável, que posso usar escondida por debaixo da roupa. Pego alguns sanduíches, salgadinhos e duas garrafas de água mineral. Vou precisar comer durante a viagem. Pago tudo no cartão de crédito que tenho em conjunto com meu pai e minha mãe.
Afinal ainda estou na cidade, então não faz diferença e, assim, não me preocupo com a fatura. É a última vez que vou depender do dinheiro deles. Agora, estou por minha conta.
Sigo para o caixa eletrônico e saco o que posso da minha conta bancária. Vou ter que fazer mais saques ao longo dos dias, não dá para tirar tudo de uma vez. Coloco o dinheiro na bolsinha que comprei e a escondo debaixo da minha blusa. Faço tudo isso olhando os arredores, não quero ser pega de surpresa por algum ladrão. Apesar de ser uma cidade pequena e com baixos índices de criminalidade, todo cuidado é pouco.
Volto para o ponto de ônibus e aguardo. Faltam duas ho®as para o Sol nascer e eu começo a ficar nervosa, com medo que alguém possa aparecer e me reconhecer. Enrolo meus cabelos em um coque bagunçado e os escondo com o boné que comprei. Puxo a gola da jaqueta e mantenho minha cabeça baixa, contando os minutos até o ônibus chegar. É uma longa espera.
Quando finalmente o ônibus surge, três ho®as depois, eu me sinto aliviada. Eu acomodo meu corpo dolorido em um dos bancos nos fundos. Vou ter que fazer várias baldeações até chegar a Nova Iorque, no entanto eu não me importo. Pela primeira vez na vida, estou fazendo algo por mim mesma, ao invés de seguir o que me mandam cegamente.
Depois de muitas trocas de ônibus e sete ho®as de viagem, chego no Port Authority Bus Terminal, na ilha de Manhattan na cidade de Nova Iorque, no começo da tarde. Meu telefone tocou diversas vezes. Meus pais, Kevin… Não atendi ninguém e até desliguei o aparelho, com medo de fraquejar ao ouvir as vozes deles.
Vamos lá, Amber Lee! É tempo de ir à luta!
Eu me encanto com a movimentação do mar de pessoas e carros, com os altos prédios e até mesmo com todo o barulho infernal que esse lugar emite. Nunca estive em uma cidade tão grande e tão fantástica como essa. Sigo pela Oitava Avenida, andando sem destino, observando o comércio.
Eu tenho que arrumar um emprego antes de qualquer coisa. Meu dinheiro não vai durar para sempre.
Vejo uma placa na frente de uma lanchonete, precisando de uma faxineira. Está ótimo para quem está começando do zero como eu. Eu entro empolgada no estabelecimento e vou direto para o balcão perguntar pela vaga. O olhar escuro do gerente recai sobre as minhas unhas de gel cheias de pedrinhas e glitter e ele me encara como se eu fosse um ser extra planetário.
Realmente, eu não pareço alguém que esteja acostumada com trabalho pesado…
ㅡ Olha, menina, eu gostaria de ajudar, mas você não tem o perfil que precisamos para esse serviço.
Mordo minha boca nervosamente e suspiro, retirando o boné e soltando meus cabelos. Junto minhas mãos sobre o balcão, praticamente implorando.
ㅡ Por favor, senhor. Sou esperta, dedicada e aprendo rápido! Acabei de chegar na cidade e não conheço ninguém. Preciso trabalhar…
Ele coça a nuca um pouco sem graça com minhas súplicas e passa a mão pelos curtos cabelos grisalhos.
Eu não tenho vergonha. Fui criada para ser uma dondoca, porém nunca fui cheia de frescuras. Minha mãe, por outro lado, cairia morta se me visse agora.
O homem respira fundo e apoia as mãos na cintura, dando um breve sorriso.
ㅡ Está bem. Vou fazer um teste com você. Quando pode começar?
Eu praticamente dou um berro de alegria.
ㅡ Agora mesmo!
O sorriso dele aumenta e ele me estende sua mão calejada, que eu sacudo de forma empolgada.
ㅡ Eu sou Fabian Caster.
ㅡ Muito prazer, senhor Caster. Amber Lee Taste.
Ele me mostra o seu, como ele mesmo diz, humilde estabelecimento. Cerca de quinze mesas e doze lugares no balcão para os clientes. Logo atrás vem a cozinha e é admirável a organização do lugar. Sou apresentada a alguns funcionários, o senhor Caster me entrega o meu uniforme, que eu recebo com orgulho, e uma chave de um armário para guardar meus pertences. Não tem um vestiário, então me troco no banheiro mesmo. O que é até bom, pois não tomei banho ainda e aproveito para jogar água nas axilas e passar um desodorante.
Assim que sair vou procurar uma pensão para tomar um banho decente.
Eu colo com a filha dele, Grace, que trabalha como garçonete. Ela me explica muitas coisas. Sinto-me desengonçada com as luvas de borracha para proteger as mãos, porém eu me empenho em dar o meu melhor. Esfrego o chão e limpo os banheiros. Faço todo o tipo de limpeza que me ordenam sem pestanejar. Eu preciso muito manter esse emprego.
O expediente termina por volta das vinte e duas ho®as. Aqui estou eu na calçada, trocando o peso do corpo de um pé para o outro, sem saber para onde ir. Então, uma mão toca o meu ombro e eu salto de susto para o lado.
ㅡ Hei! Calma, Amber Lee! Achei que já tinha ido embora. O expediente amanhã começa às sete ho®as. Seria bom ir descansar um pouco depois da longa viagem que fez.
Eu respiro aliviada por ser o gerente da lanchonete. Eu olho de um lado para outro e suspiro.
ㅡ Não se preocupe, senhor Caster. Vou estar aqui amanhã no horário. O senhor conhece alguma pensão ou albergue por perto onde eu possa ficar?
Ele me encara com uma enorme compaixão e puxa o celular do bolso.
ㅡ Oi, amor… Já fechei, sim. Alicia, ainda temos o quartinho de empregada disponível? Tenho uma funcionária recém contratada precisando de abrigo por alguns dias. Você vai adorar conhecê-la.
Meus olhos se enchem de lágrimas. A esposa dele confirma que posso ficar com eles por algum tempo. É uma senhora chamada Alicia, quase da mesma idade do marido e eles moram no Chelsea, um bairro que eu acho muito charmoso, perto de onde fica a lanchonete. Ela me entrega roupas de cama limpas.
ㅡ O banheiro fica no corredor se quiser tomar um banho, Amber Lee.
É incrível como duas pessoas conseguem ser tão generosas com uma total estranha. Eu agradeço e tomo um bom banho. No entanto, acho que a minha sorte não é tão boa assim. No meio da noite, sinto alguém se deitar ao meu lado na cama e uma mão calejada se enfia por debaixo da minha roupa. Outra mão cobre a minha boca, evitando o meu grito por socorro.
ㅡ Fique quieta, garota. Minha esposa está dormindo. Está na ho®a de me pagar como se deve.
Lágrimas enchem os meus olhos, enquanto sua mão nojenta me apalpa por toda parte, até se aventurar por dentro da minha calcinha. Um dedo me invade brutalmente e a dor e o desespero me dão o choque necessário para entender o que está acontecendo.
Saia dessa, Amber Lee! Reaja!
Consigo livrar minha boca e mordo sua mão com todas as forças. Ele engole o grito de fúria e eu salto para fora da cama, pegando um abajur e acertando-lhe na cabeça. O homem cai desmaiado. Fico examinando-o com o olhar, enquanto ainda seguro o abajur.
Oh, meu Deus! Acho que o matei!
Decido ir embora o mais rápido possível. Pego minhas coisas e mudo de roupa em um piscar de olhos. Quando alcanço a rua, eu corro em qualquer direção. Todas as sombras me assustam. Essa é uma Nova Iorque que não está nos cartões postais. Vejo pessoas sem teto empurrando carrinhos de supermercado com seus poucos pertences. Outros tentam se aquecer em barris fumegantes ou consomem drogas e bebidas na calçada. Não sei por quanto tempo fico caminhando sem rumo, mas acabo alcançando o Central Park.
Não era assim que eu sonhava conhecer esse lugar e tudo parece tão assustador a essa ho®a da noite…
Meus dentes batem uns contra os outros de tanto frio que sinto. A noite aqui é mais severa e não trouxe nenhum agasalho pesado. Apenas a minha jaqueta não é suficiente. Penso em pedir ajuda quando vejo um carro de polícia, contudo logo desisto da ideia.
Se eu matei mesmo aquele c®etino, é melhor ficar longe das autoridades.
Acabo encontrando uma pensão na altura da Quinta Avenida. Estou exausta e desabo sobre a cama sem sequer trocar de roupa.
Amanhã eu decido o que fazer da minha vida…