*Michael PoV*
Nunca imaginei que minha vida pudesse mudar tão drasticamente após aquele encontro com Ethan McGregor, quatro anos atrás. Agora, eu sou o chefe do setor de Desenvolvimento e Tecnologia da empresa, responsável pelo bom funcionamento de todos os sistemas, assim como o combate a invasões, além das tarefas extras que o meu CEO me pede. Comando diversos funcionários e tenho dois assistentes muito competentes: Daniel Lincoln e Oscar Trenton.
Não estou rico, porém a grana que ganho honestamente na McGregor Corporation é o suficiente para me manter e me dar o prazer de alguns luxos. Comprei um carro, nada muito caro e, às vezes, me arrependo. Tenho que recuar totalmente o banco do motorista para que as minhas longas pernas tenham o espaço necessário, o que acaba espremendo quem está atrás. Porém, não foi por avareza, eu tinha outros planos. Preferi investir em equipamentos para a banda, como amplificadores e uma mesa de som, e montei um estúdio de música para os ensaios no quarto extra do apartamento que comprei com meu próprio dinheiro. McGregor havia me dado um naquela época, entretanto eu não queria abusar. Com o tempo e sem o peso de um aluguel nas costas, juntei o suficiente para ter o meu canto no Chelsea, eu adorei o bairro. Também desenvolvi um gosto de colecionador, já tenho diversas guitarras, apesar da Telecaster, minha primeira Fender, ser aquela que sempre ocupará um espaço especial no meu coração.
Fiquei cerca de três anos sem ter notícias de Sunny. Ele não me procurou, eu também não fiz questão. Porém, alguns meses atrás ele me ligou. Imaginei que tivesse algo a ver com arrependimento ou saudade. Eu não poderia estar mais errado. Ele havia se metido numa merd@ enorme por causa de uma aposta em uma corrida de cavalos e acabou com o restante da grana que McGregor havia dado a ele. Eu nunca perguntei ao meu chefe qual foi a quantia. Acho que tive medo de saber o quanto eu realmente valia para aquele velho bêbado, que nunca mais consegui chamar de pai depois que o meu irmão morreu. Porém, Sunny estava com contas atrasadas e sob a ameaça de despejo. Eu gostaria muito de ligar o fod@-se e mandá-lo para o infe®no. Mas, eu não consigo. Algo dentro de mim sempre cria a esperança que, um dia, ele perceba que apenas um dos filhos dele morreu. Eu ainda estou vivo.
Entro na Caster's, uma lanchonete perto de casa que gosto muito, para tomar um café da manhã reforçado. Faço praticamente todas as refeições aqui, já que sou um desastre na cozinha, e o tempero da Alicia é uma delícia. Tem gostinho de comida caseira.
Hoje é sábado, não tenho que trabalhar, a não ser que o McGregor me chame. Eu não recuso nenhum pedido dele e atendo seus chamados com prazer. Ele salvou a minha vida. Porém, marquei com Pete e Rico para me ajudarem a terminar de montar o estúdio. Enquanto os espero, Grace, a filha do dono da lanchonete, se senta à minha mesa e eu me forço a dar um sorriso educado.
Lá vem ela de novo…
A garota é bonita, tem uns vinte anos, loira de corpo violão. É uma gata, não n&go. Porém, apesar do meu instinto de pegador, tem uma regra que eu me impus e pretendo nunca quebrar: Mulher e filha de amigo é território fora dos limites, assim como colegas de trabalho. Fabian é um cara legal, não me sentiria bem por desvirtuar a filha dele. Eu não tenho interesse em ter nada sério com ninguém, isso não é para mim.
Grace está sorridente, como sempre, e apoia os braços sobre a mesa, o que acaba salientando seus s&ios. Meu olhar se perde um momento no decote por puro hábito, porém logo me recomponho e me concentro no meu café.
ㅡ Olá, Michael! Vai pedir o de sempre?
Ela me pergunta piscando os longos cílios e eu quase quero rir do seu ar de menina inocente.
ㅡ Pode deixar, Grace. Já falei com seu pai.
A garota apoia o rosto sobre uma das mãos, muito confortável comigo.
ㅡ Puxa vida, nunca consigo te atender…
ㅡ Comece mais cedo e quem sabe um dia você me pegue primeiro. ㅡ Só quando vejo o brilho que se acende nos olhos dela é que percebo a besteira que falei. Quase engasgo com o café e limpo a garganta. ㅡ Você sabe, o meu pedido.
ㅡ Ah, mas é tão ruïm acordar cedo…
Ela age como se não tivesse m@ldado nada e eu realmente acredito. Na verdade, ela é bem ingênua. Receio que algum dia ela vá aparecer com uma barriga sem pai. O que me lembra da história da mãe do meu chefe. Ela foi enganada e teve a filha como mãe solteira. Ethan McGregor e Claire Drake são quase idênticos, mesmo tendo pais diferentes. A meia irmã dele é linda e, apesar de já ter me dado algumas indiretas, eu jamais avancei. Peguei todas as amigas dela, porém não ela. Seria como trair o cara que me estendeu a mão quando eu mais estava precisando.
Meu pedido é trazido pelo próprio Fabian, uma pizza de bacon e cheddar média. Só o cheiro me faz salivar. Ele manda a filha ir atender outros clientes e se senta comigo.
ㅡ Grace está te enchendo de novo?
Ele sempre soube que ela arrasta um trem por minha causa, porém também sabe que eu jamais daria em cima dela.
ㅡ Só o de sempre. Um dia ela me esquece. ㅡ Pego um guardanapo e puxo uma fatia, mordendo um bom pedaço. ㅡ Hum… A Alicia se supera toda vez.
ㅡ Por que acha que me casei com ela?
Fabian dá uma risada curta e olha ao redor, vigiando o movimento das garçonetes. É quando noto que ele tem um curativo na lateral da cabeça.
ㅡ O que aconteceu com você? Alicia te acertou com a frigideira?
Eu sei que ele não é muito fiel, já o vi cantando funcionárias e clientes. Nós desenvolvemos uma certa amizade, o que me permite brincar com ele desse jeito. Ele me encara um pouco sem graça, depois de alisar o local levemente.
ㅡ Antes fosse. Ontem apareceu uma garota ruiva aqui, uma caipira vinda sei lá de onde. Linda como o pecado e com uma bund@… Dei emprego para ela, porém eu percebi que ela estava me dando mole, sabe… Ainda tenho o meu charme. Como ela não tinha para onde ir, eu e Alicia oferecemos um quarto na nossa casa até ela se ajeitar. Minha esposa foi dormir cedo, não estava se sentindo bem, por isso nem trabalhou. Imagine você que, depois que ela dormiu, fui apenas ver se aquela moça precisava de alguma coisa e ela me recebeu completamente nua! Acredita? Ela se jogou em cima de mim como mosca no mel e eu não consegui resistir! Foi uma loucura!
ㅡ Ah, cara! Debaixo do nariz da sua mulher?
Não entendo porque alguém se casa para ficar de pir@nhagem por aí… Embora, a vadi@ que ele acolheu não tenha lhe dado muita opção.
ㅡ O que eu podia fazer? Antes eu a tivesse rejeitado e expulsado da minha casa. Depois de me dar uma canseira, ela pensou que eu estava dormindo e tentou roubar dinheiro da minha carteira. Só que eu acordei e a peguei em flagrante. Quando eu ia chamar a polícia, aquela put@ me acertou na cabeça com um abajur e se mandou.
Fico chocado e enfurecido ao mesmo tempo.
É o cúmulo do absurdo! Ele estendeu a mão para a garota e ela quase o matou!
ㅡ O que a polícia disse?
Seus olhos se enchem de surpresa e ele se endireita na cadeira.
ㅡ Eu não chamei a polícia. Afinal, ela não levou nada. Deve ter achado que eu tinha morrido e saiu correndo. Eu também não queria preocupar a Alicia por causa da minha burrice.
ㅡ Mesmo assim. Não pode deixar essa v@dia solta por aí para se aproveitar de outra pessoa. Qual é o nome dela? Eu tenho uns contatos e…
ㅡ Não precisa, Michael. É sério. Já foi. Vou te trazer outro café.
Ele sai tão rápido da minha mesa, que eu fico me perguntando se tudo o que acabou de me contar é verdade ou não. Ou talvez seja apenas a vergonha de ter se deixado enganar por uma vagabund@ qualquer.
É por essas e outras que não confio em ninguém. Mulher, então… É para comer e jogar fora.
Refeição finalizada, retorno para casa bem a tempo de ver o Rico encostando sua moto no meio fio em frente ao meu prédio. É o típico bad boy, com sua jaqueta de couro grudada em seu corpo bombado. Moreno, com seus traços caribenhos, parece estar sempre pronto para um racha com sua Hayabusa da Suzuki toda preta com detalhes cromados. Eu não teria coragem de andar sozinho naquela coisa, apesar de já ter pegado carona com ele algumas vezes. Foi aterrorizante.
Ele vem na minha direção, retirando o capacete e bagunçando ainda mais os cabelos castanhos rebeldes com uma das mãos. Apesar da sua aparência que costuma intimidar quem não o conhece, ele tem a alma de uma criança e um coração enorme. Sou mais alto que ele, embora eu seja mais magro e sempre acho ridículo quando ele me abraça pela cintura e me tira do chão.
ㅡ Hei, Rico! Já chega!
Meu amigo me solta e eu teria caído de bund@ na calçada se não estivesse preparado. Apenas me desequilibro um pouco, endireitando meu corpo logo em seguida.
ㅡ Não estava com saudades do papito aqui, ojitos?
ㅡ Você nunca dá tempo para ninguém sentir sua falta, seu mané! E quer, por favor, parar de me chamar assim?
Rico coloca as mãos uma de cada lado do próprio rosto e me encara como um cachorrinho pedindo um osso.
ㅡ É que os seus olhos são tão hipnotizantes que não posso evitar. Já vi muitos olhos azuis, porém os seus parecem duas pedrinhas de gelo de tão claros que são. Ojitos eu só uso com amigos de olhos lindos.
ㅡ Por que não chama o Pete de ojitos também, heim? Ele tem olhos verdes bem claros.
ㅡ Porque, ao contrário de você, ele não se irrita com nada. Não tem graça! Pete é tão de boa com tudo que dá até sono. Deve ser a parafina da prancha de surf dele que deixa ele tão calminho…
Ele pisca para mim e começamos a rir. Ambos sabemos que o Pete não usa drogas, nenhum de nós usa, porém isso não nos impede de tirar sarro dele.
ㅡ Eu odeio esse apelido, Rico. É sério.
ㅡ Tudo bem. Como eu te chamo?
Eu me aproximo dele, ajeito sua jaqueta preta e dou aquele sorriso sarcástico.
ㅡ Michael.
A cara de frustração dele não tem preço. Ele levanta as mãos e as sacode no alto.
ㅡ Madre de Dios! Hijo de…
Nesse momento, eu tampo sua boca com a minha mão.
ㅡ Você realmente ia usar um palavrão logo depois de falar algo com um nome santo, seu tratante?
Ele crava os dentes no espaço entre o meu polegar e o indicador e eu tiro minha mão, sacudindo-a no ar. O sac@na mordeu com força.
ㅡ Ah, vejo que o seu espanhol está evoluindo! Onde está o Pete?
ㅡ Sei lá, ele sempre se atrasa.
ㅡ Ah, então vamos ver no que eu consigo te ajudar. A Lauren me pegou para manequim hoje e eu tenho que me preparar psicologicamente até a noite.
Eu busco as chaves no bolso da jaqueta contendo a risada. Lauren é recepcionista na McGregor Corporation e Rico trabalha no setor de Marketing. Os dois têm um relacionamento muito estranho, como se ele fosse um pára-raios para as maluquices dela.
ㅡ Você vai ser manequim do quê?
Depois de um longo suspiro, ele abaixa a cabeça e enfia as mãos nos bolsos, chutando uma poeira no chão.
ㅡ Então… Ela está fazendo um curso novo de maquiagem…
ㅡ O quê? ㅡ Não consigo impedir minha gargalhada insana e até deixo a chave cair. Rico faz um bico enquanto espera eu conseguir voltar a falar. ㅡ Irmão, vai ter s&xo como pagamento? Eu só deixaria uma mulher cag@r a minha cara de batom e pó se ela abrisse as pernas para mim!
ㅡ S&xo com a Lauren? ㅡ Ele faz cara de nojo, colocando a mão no estômago. ㅡ Ela é minha amiga, mano! É como uma irmã!
ㅡ Sei…
Finalmente, conseguimos entrar no meu apartamento e ele joga seu capacete, chaves e jaqueta no meu sofá como costuma fazer.
ㅡ Michael, você é tão chato... Pode existir amizade sincera entre um homem e uma mulher. Até parece que você já se desiludiu com o amor para ficar arredio com mulheres.
Jogo para ele uma garrafa de cerveja que peguei na geladeira e tomo um gole da minha, que é sem álcool.
ㅡ Nunca me desiludi porque nunca fui idiot@ o bastante para me apaixonar.
Ele me dá aquele olhar de quem está cheio de razão. É até irritante.
ㅡ Eu quero estar no camarote VIP no dia que você cair de quatro por uma chica.
ㅡ Há, há! Vai sonhando!
Não há nada de bom no amor. Isso simplesmente não existe.