*Amber Lee PoV*
Acordo no susto com o barulho infernal de buzinas. Eu espreguiço meu corpo dolorido e cenas dos fatos da noite anterior me inundam. Não consigo evitar as lágrimas que me tomam e me encolho como uma bola.
Como eu fui burra! Aquele homem nojento tentou se aproveitar…
Suspirando derrotada, decido tomar um banho. A pensão não é lá essas coisas, nem tem serviço de quarto. Pelo menos, o banheiro no corredor é limpinho. Eu me esfrego debaixo do chuveiro, quase arrancando a minha pele no processo. Sento-me encolhida no chão do box e deixo a água levar minhas lágrimas embora.
Depois de arrumada, vou para a recepção com o estômago roncando. O atendente me informa um local para comer perto da pensão. Durante o caminho, eu compro um jornal em uma banca. Já são dez ho®as da manhã e a cidade está um caos de movimentada, trânsito para todo o lado, mesmo sendo um sábado.
Eu me sento em uma mesa e faço meu pedido. Enquanto como, começo a folhear o jornal e circular anúncios de emprego. Garçonete, babá, qualquer coisa que me pareça tangível. Eu tenho que trabalhar.
Ligo o meu celular e recebo dezenas de notificações de ligações perdidas, assim como mensagens de voz dos meus pais e do Kevin.
Não tenho ânimo para isso. É melhor manter o silêncio na comunicação. Eu com certeza permitiria que me convencessem a voltar para casa depois do que aconteceu ontem.
Sinto um arrepio de nojo me atravessar quando me lembro das mãos daquele homem me tocando sem a minha permissão.
Nunca mais vou ser tão estúpida e inocente! Não vou deixar outro homem se aproveitar de mim!
Passo o dia batendo perna à procura de um trabalho. O dia seguinte também. Passa-se uma semana até eu conseguir uma vaga de babá de cães. Foi pura sorte, eu não tenho nenhuma qualificação, mas sempre gostei de animais e acho que a dona sentiu isso em mim. Gosto muito mais de gatos, mas cachorro também serve. O trabalho é até bem simples. Tenho que levar os bichos para passear, ao veterinário… Consigo uma cliente no Upper East Side, que me indica para uma amiga no Harlem.
O bom de fazer um trabalho bem feito e honesto é que você ganha mais credibilidade e visibilidade. Trato os cães como se fossem meus e eles me adoram. Por consequência, suas donas acabam me indicando. Ao final do meu primeiro mês, sou babá de vinte cachorros, dos mais variados tipos e tamanhos. Essa se torna basicamente minha única fonte de renda, já que não consigo parar em nenhum emprego. Minha falta de preparo, mesmo que seja para lavar pratos, é humilhante.
Os telefonemas da minha cidade natal param com o tempo. Eu me arrependo da forma como fugi, mas, sabendo como meus pais e meu namorado são, eles jamais permitiriam que eu ficasse aqui.
Namorado… Kevin ficou no passado.
Enquanto ando em direção ao Central Park, levando cinco cães pelas guias, passo em frente a uma loja de instrumentos musicais. Sempre fico babando pelos teclados na vitrine. É a forma que encontro para aliviar a saudade de tocar.
Eu deveria ter pego um dos meus teclados, mas eu estava tão desesperada para sair de lá que não me lembrei na época. Bom, o que está feito, está feito. Só posso lamentar a minha falta de preparação.
Quero alugar um apartamento pequeno e comprar um teclado. No momento, estes são meus dois sonhos de consumo a curto prazo. Mas, com o dinheiro de babá de cachorro não dá para fazer isso ainda. Mesmo recém formada na faculdade de Marketing, a falta de experiência dificulta todos os processos seletivos aos quais compareci.
Oh, vida difícil… Como é que eu vou ter experiência, se ninguém me dá uma oportunidade?
Caminhando pelas ruas do Upper West Side, passo em frente ao prédio da McGregor Corporation na Rua Noventa e Seis. O lugar é imponente, devo confessar. Sei que eles têm um setor de Marketing gigantesco, porém nunca me atrevi a mandar o meu ralo currículo.
Seria incrível trabalhar nesse lugar. Poderia aprender tanto… No entanto, não tenho a menor chance…
Ando cerca de cem metros e, como se forças divinas atendessem às minhas preces, vejo uma placa na vitrine de um restaurante. Estão precisando de uma garçonete. Porém, com os cachorros, não posso entrar para me candidatar agora. Decoro o telefone e o fico repetindo na minha cabeça até chegar no Central Park. Prendo as guias em um banco, sirvo água para os animais, que trouxe na mochila, e me sento. Pego meu celular e disco o número roendo as unhas. É um péssimo hábito que criei depois de chegar aqui por causa da ansiedade.
ㅡ Restaurante Butterfly, em que posso ajudar?
ㅡ Oi, eu vi a placa sobre a vaga de garçonete e gostaria de me candidatar à vaga.
ㅡ Só um momento, senhorita.
A atendente me passa para a gerente do lugar, que marca uma entrevista comigo em duas ho®as. É o tempo exato para levar os cães de volta e me arrumar. Assim que desligo o aparelho e me levanto, meu olhar recai sobre o extenso parque que atravessa diversos bairros, onde sei que há um ringue de patinação ao ar livre.
Sinto saudades disso também… A entrada não é tão absurdamente cara e eles alugam patins, porém estou guardando cada centavo. Não posso me dar esses luxos ainda.
Entrego os animais para suas donas e volto correndo para a pensão. Eu me arrumo na velocidade da luz e sigo para o restaurante. Fico feliz por conseguir a vaga.
Terei que remanejar alguns clientes, já que o meu turno começa no meio da tarde. Vou trabalhar como louca, no entanto vai valer à pena.
O primeiro mês no restaurante é uma prova de fogo. Tive que desistir de metade da minha clientela de cachorros. Porém, as gorjetas no restaurante são um adicional que eu não posso desperdiçar. Perder o emprego por causa de algum erro por estar cansada demais está fora de cogitação.
Uma noite, enquanto levo o lixo do restaurante para fora, escuto um barulho vindo dos sacos amontoados na parede. Está garoando fracamente e eu limpo as gotas de chuva que escorrem pelo meu rosto. Olho pelo beco, porém não vejo ninguém. O barulho continua, como um chorinho baixo.
Será que alguém abandonou um bebê no lixo? Que horror!
Eu começo a afastar os sacos e encontro realmente um bebê. Porém, é apenas um filhotinho preto de gato, todo molhado, ainda de olhos fechados, miando desesperadamente por socorro.
Que m@ldade! O bichinho deve ter acabado de nascer!
Analiso o filhote magricelo nas minhas mãos e vejo que se trata de uma fêmea. Uma gatinha preta. Eu não penso duas vezes. Aconchego a bichana no meu peito e volto para dentro do restaurante. A gerente me encara surpresa.
ㅡ Amber Lee, o que é isso?
ㅡ Achei ela lá fora no meio dos sacos de lixo, senhorita Mace. Teria morrido se eu não a tivesse visto. Não é uma m@ldade sem tamanho?
Ela suspira e me encara com pena. A senhorita Mace tem se mostrado uma boa pessoa ao longo do tempo que tenho trabalhado aqui. E ela também adora gatos.
ㅡ Bom, vamos secá-la e alimentá-la. Eu vou ver o que eu consigo na cozinha. Leve-a para o meu escritório.
Faço exatamente isso. Logo, a gerente retorna com algumas toalhas, um conta-gotas e um copo de leite. Primeiramente, secamos a gatinha e a senhorita Mace usa o conta-gotas para dar o leite para ela, que estava faminta.
ㅡ Temos que dar um nome para ela…
A gerente me encara com um sorriso terno.
ㅡ Dar um nome significa se apegar, Amber Lee. Não podemos ficar com ela aqui, é contra as normas de higiene. Eu tenho dez gatos em casa, meu namorado provavelmente me colocaria para fora se eu aparecesse com mais um…
Nós rimos juntas e a preocupação com o destino dessa filhotinha indefesa cresce dentro de mim.
ㅡ O que vai ser dela?
ㅡ Bom, podemos levá-la para um abrigo onde ela poderia ser adotada.
Mordo minha boca e não tiro meus olhos da bichana.
ㅡ Eu fico com ela. Se ela for para um abrigo e ninguém a adotar, vai ser sacrificada.
ㅡ Isso é uma possibilidade. Porém, saiba que um bicho de estimação não é um brinquedo. É um compromisso com uma vida que vai depender de você totalmente. Ela deve ter no máximo uns três dias. Você teria que ensinar tudo para ela. Está disposta a enfrentar isso, Amber Lee?
Eu paro para pensar um pouco. Tenho muitos sonhos e, economicamente falando, não estou nadando no dinheiro. Porém, quando olho para essa criatura indefesa que quase morreu no tempo frio, não consigo deixar de pensar que é o destino me mostrando alguma coisa. Que é ho®a de arriscar.
Tenho ainda algum dinheiro das minhas economias, dá para alugar uma kitnet, até porque na pensão não permitem animais. Já está na ho®a mesmo de sair daquele lugar. Acho que essa coisinha frágil surgiu para me mostrar isso…
ㅡ Como eu disse antes, vou ficar com ela.
O sorriso da minha chefe aumenta.
ㅡ Bom, eu vou trazer algumas coisas dos meus gatos que estão sobrando, assim você não vai se preocupar no começo. Qualquer dúvida que tiver, pode me perguntar, já cuidei de muitos filhotes. Ah, também é bom levá-la ao veterinário para vacinação e ver se ela está saudável.
ㅡ Certo. ㅡ Absorvo cada pedacinho do vasto conhecimento que ela divide comigo agradecida. ㅡ E a licença?
ㅡ Eu vou te passar o endereço e o telefone do lugar. Que nome vai dar para ela?
Encaro essa coisinha que, no momento, mais parece um rato pelado desamparado que uma gata, com um sorriso. Passo meu indicador pelo focinho pequeno. Sua boca se abre e ela começa a chupar a ponta do meu dedo, o que faz uma cosquinha gostosa.
ㅡ Oi, Mylla. Vou ser a sua mamãe agora…
Assim que chego no meu quarto na pensão, eu abro minha mochila e tiro a gatinha enrolada em uma toalha e a coloco sobre a cama. Tinha deixado uma a******a para ventilação para que ela não sufocasse, porém não havia outra forma de passar com ela pela recepção. Pego uma caixa de sapatos e a forro com jornal. A coitadinha é tão pequena, que sobra muito espaço para ela dentro da caixa. Ela se enrola no cantinho e cai no sono.
Tadinha… Deve estar exausta…
Eu a cubro com uma toalhinha para que não sinta frio e me dedico a procurar online por um local para morar.
Já estava fazendo isso há alguns dias, inclusive vi uma kitnet em Hell's Kitchen que me pareceu legal. Mas, a minha natureza medrosa me impediu de ir adiante. Mylla é o pontapé inicial que eu estava precisando.
Por causa do trabalho com os cães, eu me acostumei a andar por toda ilha de Manhattan, porém morar perto do restaurante seria muito bom e Hell's Kitchen é praticamente ao lado do Upper West Side, onde fica o Butterfly. Fora que a kitnet já está mobiliada. Eu ligo para o proprietário e fecho o negócio.
Seja o que Deus quiser!