5 - A maluca do parque e a deusa ruiva

1628 Palavras
*Michael PoV* Nas semanas que se seguiram, trabalhei para aprimorar a rede da sede da empresa em Nova Iorque. O mundo não pára, assim como o avanço da tecnologia. Já é dezembro, o tempo está frio e a neve pinta tudo de branco. Desenvolvi hábitos melhores de saúde, como me exercitar com mais frequência por causa da diabetes. Um corpo ocioso, além de ficar barrigudo e flácido, também é um convite para doenças. Correr pelo Central Park de manhã cedo foi um dos hábitos que adquiri. Arrumo o capuz do casaco preto na cabeça para barrar o vento gelado cortante, guardando meus longos cabelos dentro dele. Embora, meu corpo esteja tão quente que m@l sinto o frio. Enquanto corro pela trilha, mais a frente vejo uma garota de casaco roxo levando uma dúzia de cachorros pelas coleiras. Sei que é uma garota, mesmo com o capuz e as roupas fofas de inverno, porque nenhum homem teria uma bund@ tão redonda e arrebitada como aquela. Ela corre com os bichos e é uma cena engraçada porque parece que são eles que a estão levando para passear. O São Bernardo parece o mais empolgado de todos. Passo por ela como uma bala, ouvindo-a praguejar contra os animais, que estão lhe dando uma canseira. ㅡ Crane! Devagar! Viro o meu pescoço para ver o que está acontecendo. Eu paro e não consigo evitar rir. A pobre garota está toda enrolada, com as guias dos cães em suas pernas. Minha risada cessa no momento em que ela me percebe e me encara com tanta raiva, que o verde dos olhos dela parecem vivos como brasa. Suas bochechas rosadas inflam e o bico que ela faz com os lábios carnudos me dizem que ela se ofendeu com a minha diversão. O que eu posso fazer? ㅡ Homens são sempre uns bab@cas! Franzo a testa e dou-lhe as costas, retomando meu trajeto sem olhar para trás, ignorando o peso do olhar furioso que ela com certeza está lançando sobre mim. Garota idïota. Se não consegue dar conta de tantos cachorros, por que se ofender quando alguém acha engraçado? Mais longe, ao sair da trilha, eu paro para recuperar o fôlego e me alongar mais um pouco em um banco, observando a direção que vim. Pare com isso, Michael. A garota é linda e gostosa, mas não é como se você fosse conhecer o amor da sua vida desse jeito. Até porque, eu não estou procurando sarna para me coçar. Pelo jeito daquela ali, ela jogaria os cães em cima de mim. Não vale a pena sequer puxar conversa. Decido terminar a minha sessão e ir para casa me arrumar para o trabalho. Estranhamente, meu corpo e meus olhos permanecem grudados na direção dela, que ainda não surgiu na curva da trilha. Será que ela está com problemas? Mas, o que eu tenho a ver com isso afinal? Não vou n&gar que fiquei tentado a me apresentar para ela. Aquela mulher parece ter um corpo lindo, que deve ficar ainda mais bonito sem roupa alguma. Um segundo depois, ela surge toda desengonçada com os cachorros. E, no momento em que me vê, ela mostra a língua para mim. Que audácia! Fod@-se essa maluca! Reviro os olhos e vou embora do parque. Não vou me atrasar por causa de uma doida varrida que não sabe levar as coisas na esportiva. Depois de arrumado, pego meu carro e vou para o trabalho. Fico ligeiramente aborrecido no trânsito. Sextas-feiras costumam ser um infe®no e hoje não é exceção. Eu poderia ir a pé, não é uma distância tão grande assim do Chelsea até o Upper West Side, onde fica a empresa. Seria só seguir direto pela Oitava Avenida e entrar na Rua Noventa e Seis. No entanto, eu não gosto de chegar no trabalho suado. E, quando está um tempo frio como agora, poderia até ficar doente, o que não seria nada bom para a minha voz. De vez em quando, ao longo do dia, aqueles olhos verdes como uma floresta tropical me assombram. Eu me convenço que é apenas o meu ego ferido que não se conforma que uma garota tenha me enfrentado, ao invés de pular nos meus braços. Ela não sabe o que perdeu. O telefone da minha mesa toca e eu atendo automaticamente. A voz do Rico soa empolgada do outro lado. ㅡ Michael, eu e Lauren vamos ao happy hour no Butterfly. Quer vir conosco? Eu respiro lentamente e olho ao redor do meu enorme escritório. Uma parede repleta de prateleiras com peças de computadores, pastas, cabos e por aí afora à minha frente. A parede da porta não tem nada. Do lado esquerdo, onde tem uma grande janela que nunca abro, há um frigobar, um sofá de couro preto gigante, onde costumo descansar um pouco. Já perdi a conta das vezes que virei a noite aqui e um cochilo sempre foi muito revigorante para clarear as ideias. Este lugar é como uma segunda casa, é meu elemento, tanto quanto o palco. É um santuário, que não ouso macular nem com mulher. Não tenho saco para essas comemorações. Um lugar cheio de gente barulhenta… É mais confortável ficar aqui. Sozinho. ㅡ Eu passo, Rico. Fica para a próxima. ㅡ Ah, qual é! O homem das cavernas não quer sair da toca? Eu rosno no telefone e passo uma mão pelo rosto. ㅡ Não estou com vontade, seu mané! Tenho muito trabalho aqui. Tchau! Antes de desligar, ainda escuto a Lauren reclamar, dizendo que era inútil me chamar porque ela sabia que eu não iria. Eu afasto a ideia da cabeça e mergulho nos meus afazeres. Conforme o tempo passa, eu me sinto inquieto. Sei que fui grosso, mas esse é o meu jeito e eles me conhecem. No entanto… Talvez, fosse legal sair um pouco para espairecer. Olho para o relógio na tela do computador e vejo que são quase vinte ho®as. O happy hour ainda deve estar rolando. Só acaba lá pelas nove ho®as. Faço meu papel social de uns trinta minutos, como alguma coisa e volto. Não vai doer, certo? Decisão tomada, eu desligo tudo e saio da sala. Paro um momento na saída do prédio para arrumar a gola do casaco e gorro na cabeça. Está um vento frio de congelar os ossos e meus cabelos ficam esvoaçando, enquanto caminho pela calçada os poucos metros que separam a empresa do restaurante com as mãos nos bolsos. O lugar está todo decorado para as festas de fim de ano, com a música instrumental a todo vapor. Um sentimento de angústia me atinge. Natal… A quem eu quero enganar? Não acredito em nada disso… Dou meia volta para ir embora quando um solo de teclado chama a minha atenção. É tão poderoso, que praticamente colo meu rosto na vitrine para ver quem está tocando dentro do restaurante. Não consigo identificar, já que a pessoa está de costas para a rua e bem no canto do palco. Só o que consigo ver é que é uma garota, com um cabelo cor de fogo tão vibrante que parece me hipnotizar. É de algo assim que a Everlasting precisa. Tenho procurado por um tecladista bom há algum tempo, contudo nunca gostei de ninguém. Entretanto, essa garota é incrível. Pena que seja uma mulher. A Dorothy já me dá trabalho de sobra e não estou com saco para aturar mais hormônios femininos na banda. Eu suspiro de desgosto e me viro para me afastar. Ficar mais tempo ouvindo essa deusa ruiva tocando poderia mudar minha opinião. No entanto, meus pés parecem grudados no chão ao som de "Fly me to the moon". O som daquelas teclas me mantém fixo no lugar. Há algo cativante na forma como ela toca, algo que só encontro quando eu mesmo estou tocando. Talvez, eu devesse entrar e dar uma chance a ela… Uma mão toca o meu ombro e eu dou um pulo, já me virando de punho erguido. Dou de cara com a gerente do RH e seu sorrisinho ardiloso. Não posso n&gar que a mulher é gostosa, mesmo com os enormes peïtos falsos, mas o caráter duvidoso dela me dá nojo. Até um galinha como eu tem seus limites. ㅡ Katherine… Dou um leve aceno de cabeça para cumprimentá-la. Ela olha para a minha mão com curiosidade. Só agora percebo que ainda estou de punho armado. ㅡ Nossa, Michael. Assustei você tanto assim? Ela dá uma risada falsa que não me convence. Desfaço minha posição defensiva e arrumo o gorro na cabeça. ㅡ Não deveria surpreender as pessoas dessa forma no meio da rua. Pensei que fosse um ladrão. Você teria que usar muita maquiagem para disfarçar o olho roxo amanhã se eu tivesse te acertado. Ela se aproxima e ajeita a gola do meu casaco, batendo delicadamente no meu peito. ㅡ Que homem interessante você é, Michael Denver. Tão destemido quanto um tigre… ㅡ Ela lambe os lábios e eu engulo em seco. ㅡ Um felino muito gostoso, por sinal… Eu estava indo para o Butterfly. Quer me acompanhar? Eu me afasto por puro instinto de sobrevivência. Acho que Katherine é a única mulher no planeta que me faz ter vontade de correr para o outro lado da Terra. ㅡ Não, obrigado. Eu só estava de passagem. Vou nessa. ㅡ Que pena… Quem sabe um outro dia, certo? Nem nos meus piores pesadelos! ㅡ Quem sabe. Boa noite. Dou meia volta e retorno para a empresa. Pego meu carro no estacionamento e rumo para casa. Minha concentração para trabalhar já foi destruída, graças àquela mulher asquerosa do RH. Eu me deixo cair no sofá, me sentindo um pouco inquieto. O som daquele teclado continua a me perseguir, como uma deliciosa assombração. Adormeço quase instantaneamente pensando na tecladista.
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