126 - Criando coragem

2010 Palavras
*Michael PoV* A conversa com Ethan fica martelando na minha cabeça, mesmo após chegar em casa. Decido ir tocar um pouco para me distrair. Não sei por quanto fico com o meu violão na sala. Ainda não tenho coragem para pegar na Telecaster. É como se suas notas também me acusassem da minha covardia. O som do meu celular em cima da mesa de centro me interrompe. Acho estranho quando vejo o número da Mayra. ㅡ Oi, Mayra! Ela parece ansiosa, sequer me cumprimenta e vai direto ao ponto. ㅡ Michael, você consegue rastrear o jato do... Do senhor McGregor? ㅡ Como assim? O que houve? Quando ela me explica que Ethan voltaria essa noite e que houve um acidente no La Guardia, com uma jato particular vindo do mesmo lugar que ele, um bolo se forma na boca do meu estômago. Ethan é um piloto extremamente habilidoso, já presenciei isso. Ele quase me matou do coração quando tentou me ensinar a pilotar seu jato uma vez. Ele foi excepcional em evitar que eu nos derrubasse lá de cima. Não dá para acreditar… ㅡ Merd@... Eu já estou em casa. Vou ligar o computador e ver o que consigo investigar. Retorno assim que descobrir alguma coisa. ㅡ Claro! Obrigada! Encerro a chamada e vou para o quarto. Ligo o computador e, enquanto aguardo que o equipamento inicie, me pego desejando que tudo isso seja apenas um engano. As palavras que ele me disse no enterro do Sunny sobre arrependimentos… Eu jamais disse a ele como o considero. Que ele é como um irmão para mim. Não sei como encarar a vida novamente se o pior tiver acontecido. Eu não meço a minha necessidade de ir fundo sobre essa história, já que as notícias não dizem nada concreto, e invado o sistema do aeroporto em busca de informações. Realmente o jato dele sofreu um acidente na pista, coisa que eu custo a acreditar. Como isso é possível? E porque ninguém está falando sobre o estado de um empresário do porte dele? Porr@, ele tem nível de presidente! Tento acessar as câmeras de segurança e percebo sinais estranhos. Grande parte das imagens estão com falhas, ou simplesmente faltando. Felizmente, consigo descobrir que nada aconteceu aos tripulantes e que Ethan está bem. Vou fazer uma investigação mais a fundo no computador da minha sala. Por enquanto, vou avisar Mayra. Ela parecia desesperada por informações. Ela demora um pouco para atender, é o tempo de pegar uma calça jeans para vestir. Sua voz soa pelo viva-voz quando estou fechando o zíper. ㅡ Mayra, o jato do McGregor pousou no LaGuardia há mais de uma ho®a. Houve um acidente e... ㅡ Obrigada, Michael. O senhor McGregor acabou de me ligar avisando que está seguro em casa. Desculpe por te incomodar desse jeito. Fico aliviado por saber disso, tanto, que até deixo escapar uma risada curta. ㅡ Não tem problema. Pelo menos sei que ele está bem. É um ótimo piloto, nem um raio consegue derrubá-lo. ㅡ Pois é... Obrigada de qualquer forma. Boa noite. ㅡ Boa noite. Termino a ligação, jogo uma jaqueta por cima da camiseta e saio. Em qualquer outra empresa, o segurança de plantão estranharia que um funcionário aparecesse tarde da noite para “trabalhar”, porém não na McGregor Corporation quando, o funcionário em questão, sou eu. São ordens diretas do CEO. Eu entro e saio quando quiser. Assim que ligo o computador da minha sala, começo a investigar tudo o que envolveu o dito acidente com o jato particular de Ethan. As imagens não são claras, há trechos da aeronave pousando, cortes, borrões e, depois, o avião já parado fora da pista, com o trem de pouso e parte da fuselagem completamente destruídos. Meu Deus… É um milagre que ninguém tenha se ferido… O relatório preliminar da investigação aponta um raio como causa do acidente, no entanto, eu me lembro que, quando Ethan trocou de aeronave recentemente, disse ter equipamentos muito mais potentes e um sistema para a dispersão de descargas elétricas. Fora que, a forma como tudo foi feito, indica uma pressa descomunal para o encerramento do caso por parte das autoridades aeroportuárias. Como não encontro mais nada de interessante no aeroporto, decido invadir o sistema da empresa que montou o jato, a Bombardier. Talvez, tenha sido alguma falha mecânica. Para a minha surpresa, ou não, a aeronave de Ethan deu entrada pouco tempo atrás para uma manutenção de rotina, porém é só isso. Não existe um único parágrafo explicando o que foi feito no avião, muito menos quem fez. Suspiro profundamente e descanso meus olhos na escuridão da minha sala para relaxar os olhos. Ainda não estou cem por cento recuperado da crise que tive e minha visão tem andado turva. Eu passo muito tempo na frente do computador. Acho que vou ter que procurar um oftalmologista mais cedo ou mais tarde… Decido verificar o horário. Pouco mais de duas da manhã. Qualquer um já estaria dormindo a essa hi®a, porém eu o conheço. Ele tem anos de experiência nas costas. Certamente percebeu que o acidente não foi tão acidental assim. Envio uma mensagem para Ethan, pedindo que me ligue assim que possível, não importando o horário. Não tenho a intenção de dormir tão cedo e fico pensando o que mais eu poderia fazer para obter mais informações. Então, meu celular toca e eu sorrio depois de ver a origem. ㅡ Ethan, imaginei que ainda estivesse acordado. ㅡ Imaginou certo. Também está preocupado com o acidente da minha aeronave? ㅡ Não foi acidente. Foi criminoso. Ele baixa um pouco o tom de voz, como se tivesse receio de ser ouvido. ㅡ Você tem provas? Será que ele não está sozinho? Deixo esse pensamento de lado e explico todas as anomalias nas quais esbarrei enquanto invadia os sistemas do La Guardia. Acabo deixando escapar que usei o computador da minha sala. Ele não se importa com isso e também conto sobre as informações desaparecidas da manutenção de seu jato na Bombardier. Não há como confirmar quem apagou as evidências, porém tudo aponta para um único suspeito. ㅡ Grupo MEI... ㅡ Exatamente. ㅡ Por que simplesmente não me derrubaram em pleno voo? Essa é uma pergunta que faz o meu corpo estremecer. Eu suspiro longamente e teço minhas teorias de que, ou não tinham um sinal forte o suficiente para isso, ou queriam fazer parecer um acidente por causa do mau tempo. De qualquer forma, Ethan me dá ordens para ir para casa e, quando pergunto o que pretende fazer, sua resposta quase me derruba da cadeira. ㅡ Está na ho®a do representante do FBI em Nova Iorque receber uma visita minha. Eu ainda vou ter um ataque de ansiedade por causa disso… ㅡ Acho que não vão gostar de saber que andei invadindo o sistema do aeroporto e de uma empresa privada. ㅡ Não se preocupe. Eu sempre protejo os meus. Disso não posso discordar, caso contrário, ele teria entregado a minha cabeça em uma bandeja para os federais quando houve aquela polêmica do vazamento de informações semanas atrás. Quando julguei, condenei e executei uma garota inocente, cujo único crime foi me amar. Ao me lembrar disso, penso que passar meus dias isolado em uma cela talvez não seja tão ruïm afinal. É o que eu realmente mereço. Não durmo quase nada depois que volto para casa. Vou trabalhar cheio de sono no dia seguinte. Ainda bem que é quinta, pois não pretendo trabalhar na empresa no final de semana, já que temos um coquetel para a Everlasting no domingo. Embora eu não saiba o que é pior: Tempo livre para pensar nela ou travar diante dela. Depois de auxiliar Daniel com alguns estagiários, caminho pelo corredor de volta até minha sala. O som do elevador chama a minha atenção e não consigo evitar desejar que seja Amber. Ela fez isso tantas vezes… Era sempre uma luz ter a presença dela comigo… Para a minha decepção, Mayra surge pelas portas, no entanto há algo muito estranho com ela, que parece completamente desnorteada. O que terá acontecido? Será algum problema com o sistema de ho®as? Ou será preocupação por causa do que aconteceu com o jato de Ethan? Ela está tão perdida em si mesma, que esbarra em mim e quase vai ao chão. Eu a seguro, preocupado com seu estado catatônico. ㅡ Mayra? Você está bem? Ela parece muito confusa, até acredita estar em seu próprio andar a princípio. Quando vou perguntar o que está se passando com ela, o elevador chega e ela praticamente some dentro dele. Ela não parecia bem… Puxo meu celular, enquanto entro na minha sala, e envio uma mensagem para Ethan. “Estou preocupado com Mayra. Ela saiu erroneamente do elevador no meu andar, completamente desnorteada. Não parecia bem. Denver.” O que quer que seja, ele vai ajudá-la. Novamente Rico me trás o almoço. Ele tem feito isso sempre. Enquanto comemos, ele inicia um assunto que me deixa de pernas bambas. ㅡ Quando você vai falar com ela? Eu me faço de desentendido, antes de dar uma garfada na minha quentinha. ㅡ De quem você está falando? ㅡ Ele apenas pára, com parte do macarrão para fora da boca, o que é nojento, e me encara solenemente. Eu suspiro. ㅡ Ainda não sei… Ele termina de mastigar e bufa. ㅡ Preciso te dar uma surra? Não, fala sério! Você parece uma criança que fez uma travessura e está com medo de encarar os pais! ㅡ Antes fosse apenas uma travessura, certo? Eu ferrei com tudo, Rico! ㅡ Concordo. Porém, mano, não estou te reconhecendo… Desde quando você tem medo de uma chica? ㅡ Acho que apenas não quero que realmente seja o fim. É o que ela vai dizer quando eu lhe contar a verdade. ㅡ Pode até ser que ela não queira mais nada com você, mas, ao menos, irá tirar de cima dela esse fardo. Você a acusou de traição e ela está revoltada com a forma que as coisas aconteceram. Não acha que ela tem o direito de se ver livre disso? Um ponto final é necessário em toda história, mano. Mesmo que não seja da forma como você quer. Tento terminar meu almoço em silêncio, enquanto ele martela na minha cabeça como eu a fiz sofrer. Não preciso que ninguém me lembre disso. Tenho plena consciência do que fiz e sei que foi horrível e imperdoável. Como preciso voltar a trabalhar, acabo concordando com ele, pois sei que não vai me deixar em paz de outra forma. ㅡ Eu vou falar com ela. ㅡ Quando? Hoje? ㅡ Não. Preciso de tempo para me preparar mentalmente para ter o meu traseiro chutado por ela. ㅡ Qual o problema nisso? Você chutou o dela, não foi? Eu rosno frustrado, mais para mim mesmo que para ele. ㅡ De quem você é amigo afinal, heim? ㅡ Dos dois. Por isso quero que faça o que é certo, tanto para você, quanto para ela. Essa vida que vocês estão levando, se arrastando e chorando pelos cantos, não é saudável. Eu me encolho na minha cadeira, amarrotando meus dedos uns nos outros. Ele tem razão. Isso não é vida. Vou ter que criar coragem e enfrentá-la. A verdade liberta, não é o que dizem? ㅡ Tudo bem, irmão. Você venceu. Vou falar com ela, mas amanhã. Ainda tenho muita coisa pendente do trabalho hoje. Quero estar de cabeça fria para dizer as palavras certas. Ele se levanta, joga as embalagens no lixo e se aproxima de mim. ㅡ “Perdão, eu errei com você.” Essas são as palavras mais certas que podem sair da sua boca. Concordo com a cabeça e ele vai embora. Eu suspiro para o alto, deixando meu corpo afundar na cadeira. Hoje, o trabalho está tumultuado. Amanhã. Amanhã vou fazer o que já deveria ter feito desde que descobri a verdade. O que ela vai fazer com relação a isso? Só posso rezar para que ela consiga me perdoar e me dê uma nova chance.
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