119 - O chip

2233 Palavras
*Amber Lee PoV* Saio para patinar com Lauren no final de semana. Preciso esquecer a ideia que aquela vaca tenha tentado me matar. Não adiantaria nada fazer uma denúncia, afinal, bastaria ela dizer que não leu tudo o que estava na minha ficha e que não sabia do meu problema alérgico. Não há como provar que ela agiu de má fé. Nunca mais aceito nada dela! Minha amiga encontrou um lugar com um ringue de gelo que fica aberto quase o ano todo. É uma das coisas que faço que não tem nada a ver com o homem que deixou meu coração em pedaços. Nunca comentei com ele sobre esse meu hobby, sei lá por qual razão. No final, foi até bom. No ringue, eu me esqueço dele, mesmo que dure pouco tempo. Concentro-me nas lâminas que deslizam sobre o gelo e nos movimentos precisos do meu corpo. Eu poderia ter sido profissional, ter competido em uma olimpíada, porém não era o que eu queria para mim. Minha mãe me obrigava, na tentativa de me afastar da minha essência, da música. Pois, o tempo que eu passava treinando, era um tempo roubado do piano com a minha avó. Nunca entendi porque elas viviam em guerra. Elas nunca me disseram, por mais que eu insistisse. Era como se fossem duas estranhas convivendo na mesma casa. ㅡ Amiga! Ouço o chamado alegre da Lauren, em um maiô de patinação preto cheio de lantejoulas. Ela adora se exibir… Lauren faz uma sequência de dois saltos perfeitos. Escuto aplausos quando ela faz uma pose orgulhosa. Não há muita gente, apenas uma meia dúzia de clientes e os funcionários do lugar. Ela desliza até mim com as mãos na cintura e o desafio no olhar. ㅡ Consegue fazer melhor? Dou-lhe um sorriso presunçoso. Até parece que esqueceu com quem está falando. Arrumo a saia do meu maiô vermelho e sigo para o centro. Não há tanto brilho no meu quanto no dela, isso é coisa que só ela gosta. Prefiro apenas detalhes florais brilhantes. Pego impulso na minha largada, já engatando um salto triplo de frente e finalizando com um giro sobre o meu próprio eixo. Rio da boca aberta de Lauren quando me aproximo dela, enquanto novos aplausos me seguem. Até ela está batendo palmas para mim. ㅡ Minha nossa, Amber Lee! Esse seu Axel triplo foi perfeito! Se um dia se der m@l na música, pode ser patinadora profissional sem dúvida! ㅡ Pois é… Sei que ela só quer me animar, porém, falar de algo que me lembre do Michael sempre me entristece. Ela percebe imediatamente minha mudança de humor e segura a minha mão, já me puxando de volta para o centro do ringue. ㅡ Você tem que me ensinar o seu segredo! Agradeço de coração o que ela faz por mim. Não comentar sobre o que me atormenta é tudo o que eu preciso. Quero esquecer que, um dia, ele foi importante para mim. O trabalho é a minha rotina mais extensa e levanto as mãos para o céu quando fechamos um contrato de uma campanha gigantesca. É um projeto tão importante e complexo que, além de mim e do Rico, mais duas duplas são escolhidas para meter a mão na massa. Debater as ideias sobre as tendências do mercado e qual linha seguir para atingir o público alvo, nos ocupou por grande parte do dia. Após final do expediente, decido ficar mais um pouco, para variar. Rico tem andado inquieto, por causa do irmão. Eu o vi algumas vezes, são muito parecidos, quase gêmeos, apesar do meu amigo ser um ano mais velho. No entanto, o que o Rico tem de honesto, o Juan tem de mafioso. Eles sempre acabam brigando por causa das atividades ilegais do segundo e acredito que, nesse final de semana, tenha sido muito pior. Por conta disso, Rico também tem me acompanhado na minha empreitada, usando o trabalho para esquecer os problemas. ㅡ Mierda! Isso foi um xingamento… Giro minha cabeça para o meu amigo, só estamos os dois no andar, além do Edward em sua sala. ㅡ O que foi, Rico? ㅡ Essa porcaria travou! ㅡ Ele fica passando a ponta da caneta sobre sua prancheta digital de desenho, porém nada acontece. Aperta diversos botões no painel superior e mexe em alguma coisa no computador. ㅡ O sistema inteiro não está funcionando… Arqueio uma sobrancelha confusa e tento acessar o sistema no meu próprio computador, apenas para constatar a mesma coisa. ㅡ Era só o que faltava… Ainda bem que tinha salvado as últimas alterações que fiz. ㅡ Que bom. Eu também tenho o hábito de salvar com frequência… ㅡ Rico fica batucando com a caneta no queixo enquanto pensa alto. ㅡ Que estranho. Nunca vi isso acontecer. É como se a empresa tivesse parado. Será que o Michael já sabe? Procuro ignorar a sensação amarga que esse nome me provoca e dou de ombros, sem conseguir esconder a mágoa no meu comentário. ㅡ Ele é o grande senhor dono da verdade. Daqui a pouco, ele joga a culpa em cima de algum inocente e tudo volta a funcionar. Ouço meu amigo suspirar profundamente, entretanto ele decide não engatar na minha conversa. Melhor assim. Eu não teria nada de bom para dizer. ㅡ Henrico! Amber Lee! ㅡ Nós dois nos viramos ao ouvirmos nossos nomes e vemos Edward saindo de sua sala, já com sua maleta em mãos. ㅡ Acabei de receber uma ligação do setor de Desenvolvimento e Tecnologia. Houve uma pane no servidor central e vai levar a noite toda para resolverem. Portanto, vão para casa descansar. Não posso deixar de me lembrar da noite em que Michael teve que sair às pressas por ter recebido uma ligação do senhor McGregor por causa de algo semelhante. Ele trabalhou a noite toda e me pergunto se fará isso hoje também. O que isso te importa, Amber Lee? O problema é dele e você não tem nada a ver com isso! Eu e Rico saímos com nosso gerente e pegamos o elevador. Durante o trajeto até o térreo, é impossível não me preocupar. Espero que ele se lembre de comer alguma coisa… *Michael PoV* Outra semana de trabalho se inicia. Preciso muito ocupar a minha mente. Fiquei remoendo minha angústia o final de semana inteiro. A visita do Rico não ajudou em nada e suas palavras ficaram ecoando na minha cabeça o tempo todo. “ㅡ Alguém pode estar querendo jogar a culpa nela.” Será que é isso? Será que eu caí em alguma armadilha e fui injusto com ela? Mas, como? Noto que meu computador foi trocado outra vez. Ao invés do antigo, é um equipamento ainda melhor que o da Excelsior, que eu acabei destruindo no meu ímpeto de fúria. Um bilhete sobre a minha mesa chama a minha atenção. “Apesar do ocorrido, você é um ótimo profissional. Confio em sua capacidade. E. M.” Aperto o papel entre os dedos. Eu realmente preciso compensá-lo de alguma forma. Oscar surge pela porta e me entrega alguns documentos para assinar. ㅡ Soube da senhorita Smith? Apenas movimento uma sobrancelha, sem tirar meus olhos do documento. ㅡ Não. O que tem ela? ㅡ Eu estou saindo com a nova secretária dela e, chefe, ela me contou uma história hilária. Ao que parece, a vaca foi pega com um documento de habilitação suspenso e passou o fim de semana na cadeia. Dá para imaginar aquela dondoca numa cela? Ele dá risada e eu sorrio de forma contida, tentando esconder a minha satisfação. ㅡ O fim de semana inteiro? ㅡ Sim! Ela não tinha dinheiro para pagar a fiança, algum problema com a conta bancária dela. Um amigo pagou para que ela pudesse sair hoje. Humpf! Amigo… Sei… ㅡ Bom, a ho®a da fofoca acabou. ㅡ Sim, senhor! Ele se retira e eu ligo o computador. Fico abismado com a velocidade. Batuco com os dedos na mesa, observando uma das duas telas. Talvez, eu deva fazer uma nova investigação. Já fiz isso um milhão de vezes, na esperança de encontrar algo que eu tenha feito errado. Jamais imaginei que desejaria tanto ter cometido um erro, do que acreditar que ela teria sido capaz de me trair. Checo a rede da empresa, além dos locais que usei para divulgar as informações que hackiei, e algo muito estranho acontece. Dezenas de sinais, que antes não apareciam, começam a pipocar na tela. Ao examinar melhor, vejo que são pequenas invasões. Todas apontam para um único IP fora da McGregor Corporation. Ao invadir o sistema, vejo que se trata do Grupo MEI. Que porr@ é essa? Por que isso não apareceu antes? Olho de lado para o gabinete do meu computador em cima da mesa e passo a mão na sua lateral. Não pode ser... Pego o telefone e ligo para o meu outro assistente. ㅡ Daniel, onde está aquele equipamento da Excelsior que era da minha sala? ㅡ No andar de depósito para reciclagem. Vão esperar um tempo, tem muita coisa na frente. Por quê? ㅡ Vamos para lá agora! Desligo e saio da sala. Ele se junta a mim no elevador. ㅡ Chefe, o que aconteceu? ㅡ Uma catástrofe, talvez. Você é bom com hardware, certo? ㅡ Sem querer me gabar, sou o melhor do país. Só perco para um cara, porém ele foi preso meses atrás. Eu aceno com a cabeça e aguardo impacientemente os andares passarem. Se minhas suspeitas estiverem certas, isso quer dizer que Amber é inocente… Nunca mais vou me perdoar… Chegamos no décimo quarto andar, onde o maquinário para reciclagem é guardado. Um funcionário nos guia até o computador e eu peço ao Daniel para examinar tudo minuciosamente. ㅡ O que devo procurar? ㅡ Eu não sei. Qualquer coisa que não deveria estar aí. ㅡ Ele leva um bom tempo vendo tudo. Finalmente termina e me mostra um chip que é completamente desconhecido para mim. ㅡ O que é isso? ㅡ Não tenho certeza, preciso verificar melhor. Mas, posso garantir que não faz parte das funções do computador original. Não é memória, processador, nada. Eu engulo com dificuldade e retorno para o meu escritório. Antes do expediente terminar, Daniel me procura. Parece assustado e paranoico. Ele fez uma série de testes e a conclusão a qual ele chegou é assustadora. ㅡ Deixe o chip comigo e não comente sobre isso com ninguém, Daniel. Trate como confidencial. Vou comunicar ao McGregor assim que fizer uma pesquisa. ㅡ Certo. Depois dele sair, começo a investigar todas as referências da Excelsior, seus fundadores, sua história desde sua criação até ser absorvida pela McGregor Corporation. Os dados que consigo levantar são alarmantes. Ligo para o CEO imediatamente. ㅡ McGregor, precisamos conversar. ㅡ Estou na minha sala. ㅡ Chego em cinco minutos. Depois que desligo, eu pego o chip, que meu assistente deixou sobre a mesa, e o observo na palma da minha mão com tristeza. Sinto um aperto no peito e uma enorme sensação de culpa me invade. Little bunny... O que foi que eu fiz? O chip que Daniel encontrou controlava e máscarava o tráfego de informações, não só do meu computador, como também de muitos outros. Um total desastre. Ethan decidiu remover todos os equipamentos provenientes da Excelsior, mais de quinze setores infectados, da recepção ao andar do CEO. Ele solicitou uma compra emergencial de novos computadores com um antigo fornecedor e, enquanto organizava tudo, lembrei-me de algo tenebroso. O pesadelo só estava começando. ㅡ Ethan... ㅡ Seu olhar encontra o meu e não consigo evitar transparecer o medo que me invade. ㅡ Você não disse que o laptop que Mayra levou era da Excelsior? Pela primeira vez, no meio de toda essa crise, vejo o terror em seus olhos. Imediatamente, ele tenta contato com ela através do celular diversas vezes, sem sucesso. Por alguma razão, ela não atende. Então, lhe explico que se eu desligar todos computadores de uma vez, isso poderia alertar o Grupo MEI e, por consequência, colocar Mayra em perigo. Apesar disso, ele insiste em que eu faça o procedimento, pois ele cuidaria dela, apenas me pede para confirmar a posição de seu celular. Eu já o vi fazer coisas incríveis, não tenho razão para duvidar agora. Acato sua ordem sem pestanejar e retorno para o meu andar, me preparando mentalmente para não voltar para casa, muito menos dormir essa noite. Primeiramente, vou para a minha sala. No meio do caminho, recebo de Ethan, via mensagem, o número que Mayra está usando. Consigo rastrear sua posição e informo a ele, com direito até a imagem de satélite. Nada pode sair errado. São as vidas dela e da Nancy que estão em jogo… Os novos computadores só chegariam no dia seguinte, no entanto eu já deveria fazer algo de imediato. Desligar os servidores. Sigo direto para a sala um, passo meu cartão de identificação no leitor da porta e digito o código de segurança. Só nesse momento percebo como minhas mãos tremem. Assim que entro, vou até o computador central e desligo todo o sistema. A McGregor Corporation em Nova Iorque está parada. Daniel e Oscar surgem pela porta completamente estarrecidos. ㅡ Chefe, o que está acontecendo? É a Terceira Guerra Mundial? Eu os encaro ofegante, apoio uma mão na cintura e, com a outra, limpo o suor da testa. ㅡ Algo parecido, Oscar. Espero que tenham dormido bem a noite passada…
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